“Vidas precárias” ou os Outros. Humanos?

| 10 Mai 20

1. A motivação mais imediata destas reflexões foi o comentário de um dos assessores do Presidente Trump, em meados de março – cujo nome não retive –, que procurava explicar a grande percentagem de óbitos por covid-19 das pessoas afroamericanas, nos EUA. Perante a diferença do número de mortes pelo vírus entre a população americana em geral e o grupo afroamericano em particular, o dito assessor explicou que era necessário ter em conta que tal grupo era portador de situações de saúde – ou de falta dela – que potenciavam a maior fragilidade à pandemia. [ver também posição dos bispos católicos dos EUA sobre o tema.]

Evidentemente que não foi dito que se tratava de características específicas da população afroamericana – não se foi tão longe – mas, no contexto, era legítimo concluir-se que as razões explicativas da sua maior taxa de mortalidade radicavam na sua condição afroamericana.

Este episódio acordou-me do meu sono “primeiromundista” e passei a afinar o olhar para a informação que diariamente a comunicação social dá quanto à situação da pandemia no mundo.

De acordo, e em sintonia com aquilo que Eça de Queiroz explicitou, de que a distância perturba o nosso imperfeito coração e tem sobre ele uma influência abominável (Crónicas e Cartas), o maior número de informações vem, obviamente, de quem nos está mais próximo, é normal que a maior quantidade informativa se refira aos países europeus.

Todavia, afinado o olhar, começou a ser muito ruidoso para mim o quase silêncio em relação à África, por exemplo. Não se pode falar de um silêncio total, mas a informação relativa às zonas não primeiromundistas, nomeadamente à África, não abunda nos telejornais, sobretudo se se tiver em conta a potencial dimensão devastadora do vírus no continente africano, como uma notícia do Vatican News dava conta:

“Mais de mil pessoas já perderam a vida por causa do coronavírus na África e cerca de vinte mil foram infectadas em 52 dos 54 países. Mais de 50% de casos confirmados na última semana, enquanto o número de mortes aumentou 60%. Para a Uneca, a Comissão Econômica das Nações Unidas para África, correm o risco de morrer entre 300 mil e 3,3 milhões de pessoas por causa da doença se não forem adotados instrumentos úteis para deter a sua propagação.”

Será que, afinal, nem a morte igualiza os humanos?

Ou será que é mais fundo do que isso e as nossas conceções antropológicas pensam uma humanidade constituída por seres que, mesmo teoricamente, não partilham o mesmo grau de humanidade?

 

2. Estas interrogações levaram-me ao pensamento que Judith Butler desenvolveu no conjunto de textos escritos no pós-11 de setembro de 2001 e em que debate, exatamente, a desigualdade humana dos humanos[1].

Nesses textos não está em causa uma desigualdade económica ou social ou outra equivalente a estas, mas sim uma assimetria concetual radical no momento de conceber quem pertence e não pertence à humanidade do humano. São vidas precárias, diz, vidas que por não serem tomadas como humanas, à partida não chegam a entrar no cômputo das vidas ceifadas seja por que cataclismo for.

O contexto destas obras de Butler é o quadro de guerra dos EUA, no âmbito do seu 11 de setembro (o seu, porque o de Allende seria outra história – ou talvez a mesma), inserindo-se no âmbito da filosofia política e remetendo diretamente para o conceito de esfera pública. Nesse quadro, questionam-se os mecanismos de que as forças políticas se servem para controlar a esfera pública, decidindo o que pode ou não aparecer nela, o que se pode ou não tomar como realidade ou, em último termo, ‘que vida pode ficar marcada como vida e que morte poderá contar como morte’ (pág. 23). Contudo, as posições que Butler estrutura e desenvolve nesses textos podem ser exploradas para além da sua referência bélica de produção e ajudar a pensar mais profundamente o que é isto da humanidade do humano e a quem, na verdade, se aplica, a ideia kantiana da dignidade humana que não tem preço porque é, em si, um valor.

 

3. O centro da reflexão de Butler é a temática da vulnerabilidade pensada em termos de um existencial humano essencial. É, pois, uma vulnerabilidade radical, ligada com a ideia de que somos um corpo e não apenas de que temos um corpo. Esta perspetiva tem implicações várias, desde logo, pondo de relevo:

(1) que para chegarmos a ser um indivíduo necessitamos de ter sido alvo de cuidados, de ter sido inicialmente acolhid@s e de radicalmente dependermos desse acolhimento inicial;

(2) que somos seres fisicamente dependentes, expostos a um fora de nós que, além de remeter para a constitutiva interdependência humana, também expressa que o corpo de cada indivíduo, tendo estado originalmente ligado às suas condições de emergência, tem uma dimensão pública, sendo sobre essa situação que posso reconstruir o meu corpo, como corpo próprio (a situação das crianças que nasceram no contexto da pandemia de mães com covid é um bom exemplo disto);

(3) que a individuação é um processo e não um pressuposto e, por isso, não só não está nunca garantida como se realizará num quadro em que o meu eu corporal transportará sempre consigo dimensões extáticas decorrentes das suas condições de emergência e de desenvolvimento e, consequentemente, está marcado por uma vulnerabilidade constitutiva.

Ou seja, a vida humana é constitutivamente precária, porque é marcada por um desamparo e uma necessidade originais que a deixam exposta a qualquer tipo de devastação. Nela se produz um cruzamento indelével entre o que se pode ser – o plano ontológico – e as condições sociais, nomeadamente, as suas estruturas normativas, enquadradoras. Sem significação social a vida humana não persiste. Contudo, embora toda a vida humana seja precária, há uma diferente distribuição geopolítica de tal precariedade da vida humana fazendo com que, em algumas latitudes ou situações, a precariedade passe de constituinte existencial a condição constante da vida e do viver de alguns grupos humanos que, por isso, podem ser definidos como vidas precárias, vidas essas que não valem, que não chegam a ter valor humano, e que, por isso, podem não chegar a figurar na lista das mortes assinaladas como vítimas de que valha a pena fazer memória.

Nas palavras da autora:

“São vidas em relação às quais não faz sentido o luto porque já estavam perdidas para sempre ou porque, melhor ainda, nunca ‘chegaram a ser’, e devem ser eliminadas a partir do momento em que parecem viver obstinadamente nesse estado moribundo.” (pág. 60).

A este estado moribundo das vidas humanas Butler chama desrealização porque transforma o humano em espectro. A desrealização do humano processa-se, antes de tudo, através do discurso que, a partir de marcos dominantes do que é humano, vai desumanizando quem não encaixa dentro do marco normalizador. Cristalizado o discurso e sedimentada na cultura a padronização do que é humano e daquilo que, por motivos vários, não encaixa nele, ficando ou nas margens ou mesmo totalmente fora, estão criadas as condições para a sua exposição absoluta a qualquer forma de violência, nomeadamente, a da destruição material.

Nesse sentido, pode-se dizer que o processo de desrealização do humano se concretiza no quadro de diferentes níveis e modos de violência:

(1) uma discursiva e normalizadora assente no não reconhecimento da humanidade nas suas distintas expressões;

(2) uma segunda, de violência material direta, pela destruição efetiva, por via militar ou natural;

(3) uma última, pelo apagamento na memória cultural das perdas resultantes de qualquer tipo de destruição efetiva, como, por exemplo, acontece com as numerosas mortes que ocorrem hoje em África [e] não deixam qualquer marca de dor nos meios de comunicação (pág. 62).

 

4. Voltando ao princípio, há, então, que prestar atenção ao que o primeiro mundo dá visibilidade em relação à covid-19 e, ao mesmo tempo, ao que nela, nessa visibilidade, se oculta ou obscurece porque esse mostrar/esconder radica, certamente, naquilo que Eça de Queirós queria evidenciar ao falar da “abominável influência” da distância na nossa sensibilidade aos acontecimentos e ao seu eventual peso trágico. Mas essa situação não é de todo alheia à nossa valorização da humanidade do humano. Desatender a estes aspetos pode fazer-nos esquecer a dimensão realmente pandémica da pandemia e situarmo-nos apenas na superfície da tragédia que ela representa.

Nota

[1] Judith Butler, Precarious Life. The Powers of Mourning and Violence  (2004). As páginas referidas são da edição da Paidós em castelhano (2006).

 

Fernanda Henriques é professora emérita de Filosofia da Universidade de Évora

Artigos relacionados

Pin It on Pinterest

Share This