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Oração pela paz em 1972

Vigília na Capela do Rato desencadeou escutas da PIDE

A Vigília na Capela do Rato, em Lisboa, que se iniciou no dia 30 de Dezembro de 1972, desencadeou um conjunto de escutas telefónicas da PIDE/DGS a diversos participantes, particularmente a católicos. A revelação é de Alfredo Caldeira e António Possidónio Roberto, no livro Os Telefones Têm Ouvidos, publicado pelas Edições Colibri em Dezembro de 2023.

A obra sobre as escutas telefónicas realizadas pela polícia política do anterior regime revela que a intromissão na vida privada começou apenas após a realização da vigília, associada a “crescentes tomadas de posição dos designados católicos progressistas, em especial contra a guerra colonial e de denúncia das atividades da PIDE/DGS”.

Os autores referem a existência de diversos relatórios de escutas, destacando-se as que visaram Francisco Pereira de Moura e o padre José da Felicidade Alves. Essas escutas que, em conjunto, estiveram activas mais de cinco anos, são alvo de especial atenção da polícia e foram frequentemente dadas a conhecer ao primeiro-ministro (Presidente do Conselho, segundo a designação da época) e do ministro do Interior (Administração Interna, segundo a nomenclatura de hoje).

Alfredo Caldeira e António Possidónio Roberto assinalam a existência de “duas atitudes complementares: por exemplo, uma chamada que fornece informação detalhada sobre a organização de manifestações relâmpago e, na resposta, alguém, ainda mais inocente, que afirma ‘só espero é que a Polícia não esteja aqui a vigiar o telefone para ficar a saber tudo’”. Os autores acrescentam outro exemplo idêntico: “um dirigente da CDE telefona para outro apresentando a ideia de ser enviado um telegrama a Marcelo Caetano contra o endurecimento da política repressiva do Governo, a assinar por pessoas que foram candidatas da CDE e mais algumas… A resposta é clara: ‘Sim. Bem, só uma coisa…você está perfeitamente consciente de que não me está a dizer só a mim, compreende?’, aviso recebido com ironia: ‘Pois, ah! ah! Isto é para eles, não faz mal.’”

capa telefones livroOs autores de Os Telefones Têm Ouvidos recordam que as prisões efectuadas na sequência da vigília, assim como a demissão pelo Governo de 12 funcionários públicos, acusados de nela participarem (um deles, Francisco Pereira de Moura, foi também alvo de contínuas escutas), tiveram profunda repercussão na consciência de numerosos católicos e não católicos.

A investigação apurou que Felicidade Alves tinha consciência de que o telefone de casa estava sob escuta, particularmente após a prisão do seu amigo, o padre Abílio Tavares Cardoso. O padre Felicidade Alves, lembram Alfredo Caldeira e António Possidónio Roberto, tinha sido alvo de uma violenta “Nota do Patriarcado sobre factos lamentáveis ultimamente ocorridos” e conhecera a prisão pela PIDE/DGS.

Na Assembleia Nacional, como se pode ler em Os Telefones Têm Ouvidos, as derradeiras intervenções de Francisco de Sá Carneiro e João Pedro Miller Guerra, deputados da Ala Liberal, “referiram-se, precisamente, aos acontecimentos da Capela do Rato, interrogando este último: ‘Como pode a Igreja ser livre num Estado que coarta a liberdade de pensamento e de expressão?’”

No dia 25 de Março foi inaugurado em Lisboa um memorial evocativo da vigília que juntou dezenas de pessoas na Capela do Rato, que nessa altura quiseram rezar pela paz e afirmar uma posição contra a Guerra Colonial. [ver notícia no 7MARGENS]

 

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