Vigília

| 10 Set 2022

Hospital municipal de Koepenick, na região de Berlim, com 100 camas hospitalares criadas em novembro de 1950. Foto © Bundesarchiv, Bild 183-08753-0002 / CC-BY-SA 3.0, CC BY-SA 3.0 DE , via Wikimedia Commons

Hospital municipal de Koepenick, na região de Berlim, com 100 camas hospitalares criadas em novembro de 1950. Foto © Bundesarchiv, Bild 183-08753-0002 / CC-BY-SA 3.0, CC BY-SA 3.0 DE, via Wikimedia Commons.

 

Cai a noite. Esta noite é em Berlim. As noites são agora aqui, mas já foram em Coimbra, no Porto, em Lisboa. E estas noites acontecem em todo o mundo, disso tenho a certeza.

O que faz um(a) médico(a) passar a noite à volta de um doente que sabe que, após uma primeira avaliação, é quase certo que não vai sobreviver? É quase certo, diz-nos a intuição, a experiência e alguns valores objectivos.

Olha, pensa, interpreta, volta a olhar, ajusta o ritmo das gotas que pingam no soro, verifica cálculos, revê raciocínios. Na Alemanha, tem sempre de saber até que ponto aquela pessoa quer ser tratada. Inicia um antibiótico. Volta a observar. Umas palavras curtas de consolo, mais de companhia do que de outra coisa qualquer. Informa os enfermeiros do prognóstico, embora guarde alguma esperança. Pouca. Muito pouca. Decide uma transfusão de sangue. Pendura um frasco de bicarbonato. Uma festa na mão. Uma mão no peito que respira descompassado. Não urinou nada. Terá dores? Por vezes entreabre os olhos e a acena que não tem dores.  A esposa é informada. Sozinha em casa faz silêncios de tristeza. Ela não pode vir agora. Não lhe minto. Ao doente também não minto. Tenho um problema com mentiras e, na verdade, sabemos os dois onde estamos. No pensamento, sempre-sempre, “não fazer mais mal do que bem”. Páro por aqui ou há mais alguma coisa que possa fazer? Há pausas e discussões internas. A noite passa devagar. É devagar que se está sozinha nestas decisões.  Recomeça o raciocínio. Monitorizo os resultados? Provocar aquele desconforto ou aquela dor terá uma consequência? Se a resposta é não, contenho-me e não faço. Os movimentos são lentos e quase sempre apenas ligeiramente iluminados pela luz do corredor. Acho sempre que já basta estar doente, ao menos que não lhe perturbemos o sono. E o sono dele é tanto.

A vigília tem muito de racional. Mas tem outro tanto apenas de vontade… que fique bem, que ao menos não sofra, que não esteja tão sozinho.

Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.

 

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