[domingo vi do tempo pascal ― a ―2023]

[nisso tece sentido / e faz arcobotantes ― / oboé de aranha © Joaquim Félix]
1. A palavra tem uma intensidade que surpreende!
Sim, é mais diligente que as canções de Rita Lee que, nestes dias ventosos,
fez e faz baloiçar, na avenida central, as tílias de corimbos em flor;
e, nos camiões do ‘Enterro da gata’, os jovens universitários…
Impressionava a forma como estes quase se afogavam de cerveja!
Ah, e como atiravam as latas da crítica contra o governo da nação.
Em todo o caso, pareceu-me ouvir-lhes, em surdina,
esta letra como se fosse a teia de linho áspero das suas lamentações:
«Levava uma vida sossegada / Gostava de sombra/
E água fresca Meu Deus!/
Quanto tempo eu passei /Sem saber! Uh! Uh!…//
Foi quando meu pai Me disse:/
“Filha, você é a Ovelha Negra/ Da família”/
Agora é hora de você assumir/ Uh! Uh! E sumir!…»
(Rita Lee, Ovelha negra)
2. Não, não é uma adenda à parábola do Belo Pastor.
Nesta canção, Rita Lee deixar-nos-á a perguntar do Evangelho:
Estando Jesus como que a ‘sumir-se’ da mesa e, depois, pelas nuvens,
irá deixar os discípulos na orfandade, cegos à sua manifestação futura?
Valerá a pena esperar quanto promete, o «outro Defensor» (Jo 14,16)?
Crendo que sim, vamos por isso pôr algo de vital no seu lugar.
Procuremos colocar, nesse aparente ‘resto’, toda a esperança!
Como se ela, a esperança, fosse uma porta à qual batemos,
cheios de interjeições e insistências, expectantes pela sua abertura:
«Ah! Ah! Ah! Ah! Tchu!/ Tchu! Tchu! Tchu!/
Não! / Oh! Oh! Ah!/ Tchu! Tchu! Ah! Ah!…» (Rita Lee, Ovelha negra).
3. Com que então, agora é a ‘hora de assumir’!
No fundo, aquilo que deveria suceder nos ritos de iniciação à sociedade,
― que os pais estão sempre convocados a fazer com os filhos e as filhas,
na semelhança das palavras do pai de Rita Lee ―,
é o que Jesus fez aos seus discípulos e, por conseguinte, faz connosco.
Iniciando-nos, sim, a ser Igreja; claro, sem nos chamar «ovelhas negras»!
Notemos, é hora de assumir o Caminho, de semear palavras e gestos,
como fez Filipe naquela cidade da Samaria (cf. At 8,5-8.14-17).
Jesus promete-nos «outro Defensor»;
«outro», porque Ele e o Pai, do início até ao fim, também nos são.
O ‘Defensor’ ou ‘Consolador’ será, no nosso íntimo, habitante:
faz de cada um de nós a sua «demora», a sua «habitação» familiar.
Sem dúvida, Ele inabita-nos, no calor das presenças, como seu «fogo».
A condição implica-nos naquele «se», duplamente repetido:
«Se Me amardes» (Jo14,15) (…) «Se alguém aceita os meus mandamentos
e os cumpre» (Jo 14,21).
O amor é a condição para afastar as orfandades
e experimentar a presença amante dos outros e da Trindade.
4. Persuade S. Pedro: «Venerai Cristo Senhor em vossos corações,
prontos sempre a responder, a quem quer que seja,
sobre a razão da vossa esperança» (1Pe 3,15).
Esta é a honra da nossa hora, que nos faz entrelaçar o passado ao futuro.
A prontidão para dar razões da esperança cristã, segundo o repto petrino,
deu origem, no século XIII, ao período da Escolástica,
com o método da dialética e a adoção das categorias filosóficas aristotélicas.
Foi o tempo das ‘Sumas’ e do nascimento dos ‘Tratados’ sistemáticos,
segundo as escolas monásticas e conventuais, e das primeiras universidades.
As circunstâncias atuais caracterizam-se, também, por grandes pedidos da razão,
por uma esperança que busca ‘entender-se’, mais que excessos de sentimento,
capaz de fazer viver à sombra benéfica do futuro, tornando-se uma ‘atração’.
Pelo que há cada vez mais pessoas, crentes ou não, a perguntar-nos:
― Porque acreditas em Jesus e na sua mensagem, aparentemente, esgotada?
Como responder, branda e respeitosamente, na forma de ‘sínteses’ claras,
com fundamentos dignos de gerar ‘atenção’ e ‘respeito’ em quem nos pergunta?
5. Recentemente, o nosso arcebispo, D. José Cordeiro, disse que,
desde que assumiu a diocese de Braga, ele e os bispos auxiliares
já tinham crismado milhares de jovens.
Por certo, mais do que Pedro e João entre os samaritanos.
Porém, perguntava-se ele: ― Por onde andarão eles agora?
Esperava que, segundo o impulso do Espírito do Pentecostes,
no seu fragor de tempestade e descida em línguas de fogo,
abrisse não só as portas de casa, para saírem dos seus medos e dos sofás,
mas também suas bocas e mãos, para testemunharem a esperança cristã.
Sim, que será feito deles? Da sua alegria e ardor…
Temos acompanhado alguns nas iniciativas preparatórias das JMJ.
Porém, será que, segundo a letra acima citada, esta é a «hora de assumir»,
― sim, de ‘assumir’! ―, a solicitude para oferecer a razão da esperança?
E, como Filipe, descer ao encontro dos malvistos e mal-afamados,
como eram outrora os samaritanos para os judeus, e outros hoje para nós?
Ou será, como infelizmente se vai constatando,
a hora de «sumir» das comunidades cristãs, sem se ‘sumir’ da casa dos pais?
Tal situação leva-nos à pergunta de fundo, que nos responsabiliza e faz doer:
― Porque, na hora da receção do dom do Espírito do Pentecostes,
a larga maioria dos jovens aproveita as portas abertas para ‘debandar’?

“As famílias católicas em França são as mais fracas transmissoras da fé, quando comparadas com outras religiões no território gaulês.” Foto © Joaquim Félix
6. Desde março deste ano, ficámos a saber que,
― fruto do inquérito ‘Trajetos e Origens’ realizado, entre 2019 e 2020,
pelo Instituto Público de Estatísticas Francês (INSSE) ―,
as famílias católicas em França são as mais fracas transmissoras da fé,
quando comparadas com outras religiões no território gaulês.
Não estará a suceder algo de semelhante entre nós? Porquê?
Bem, se isto acontece com a fé,
que pensar da transmissão ou da ‘gestação’ da esperança?
Charles Péguy, em «Os portais do mistério da segunda virtude»,
compara a esperança a um cachorrinho e, também,
a uma menina, a mais pequenina, frágil e graciosa,
irmã de duas outras, adultas já, a fé e a caridade.
E diz que é ela, a esperança, quem, baloiçando ao meio, as conduz,
quer pelos jardins das cidades, quer na procissão do Corpo de Deus.
Porque, atualmente, se privam tantas crianças do património da esperança?
Não será ela valioso património espiritual a partilhar com os filhos?
7. Como depreenderemos, a esperança é para todos, sem exceção.
Sim, para todos, desde as crianças às pessoas mais idosas.
De facto, o «cansaço da vida» como assim se designa o fenómeno,
está a tornar-se uma epidemia nas sociedades ocidentais.
Uma recente notícia dá-nos conta de narrativas da perda do sentido da vida.
Els van Wijngaarden, professora de ética assistencial, refere que, na Holanda,
muitos idosos (não doentes) desejavam acabar com as suas vidas.
Entre as várias notas deste ‘cansaço da vida’ contam-se:
a ‘morte do desejo’ e o desaparecimento do ‘luto por um futuro’.
8. Helena Larson e vários outros professores suecos têm escrito
sobre aquilo que designam «apagamento das luzes» entre os idosos,
que os leva a abandonar as razões de viver e a desejar a morte.
Será só porque, como sugere o cirurgião e professor Atul Gawande,
as pessoas passaram a ter uma maior «evidência do custo»
associado ao «desvanecimento longo e lento» da velhice?
Nós, porém, temos um antídoto para esta primeira morte: a esperança cristã.
Pena é que a lei da eutanásia tenha sido aprovada em Portugal.
A Associação de Médicos Católicos Portugueses lamentou tal aprovação.
E ontem, por sua vez, foi o Papa Francismo a dizer abertamente:
«Hoje estou muito triste, porque no país onde apareceu Nossa Senhora
foi promulgada uma lei para matar» (Ecclesia).
Para combater a eutanásia, a morte medicamente assistida, ou o suicídio,
― repito ― temos o salutar fármaco-do-sentido-da-vida: a esperança.
Que o digam os jovens do Ano Propedêutico, aqui do Seminário,
que, juntamente com a Prof.a Alzira Fernandes e o Pe. Pedro Sousa,
visitaram, esta semana, o Poverello, junto ao convento de Montariol.
Realmente, vieram de lá transformados pelo testemunho dos doentes!
9. Bom seria que, como o salmista, pudéssemos dizer:
«Todos os que amais a Deus, vinde e ouvi,
vou narrar-vos quanto Ele fez por mim.» (Sl 65,16)
Cada um de nós deveria saber fazer da sua vida um ‘conto’,
como se narra uma história, sim, a «narrar o humano» (Chico Buarque),
a partir da esperança e das próprias preces escutadas por Deus.
Termino com o poeta Rui Almeida, que dedicou a Rita Lee uma ‘atenção’,
intitulada «Uma oração de Rita Lee», publicada no 7MARGENS,
que sintetiza também o nosso cuidado pela esperança:
«Para mim, a alegria contagiante de Rita Lee transborda de esperança.
Uma esperança que, independentemente dos formalismos teológicos
com que possam colidir, não consigo deixar de associar
à Esperança cristã em que creio».
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia do passado Domingo, dia 14 de maio, Domingo VI do tempo pascal na liturgia católica, 2023.










