AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

20 monges fizeram caminhada pela paz nos EUA. Foto Walk for peace
Envergando as suas túnicas laranja, os 20 monges atravessaram nove Estados, percorrendo cerca de 32 quilómetros por dia Foto © Walk for Peace.

Inspirando milhares

Vinte monges budistas (e um cão) caminharam 3.700 quilómetros nos EUA… pela paz

| 12/02/2026

Duas dezenas de monges – e um cão adotado – partiram de um templo budista em Fort Worth, Texas (EUA), a 26 de outubro, e chegaram esta quarta-feira, 11 de fevereiro, à capital, Washington D.C. Percorreram 3.700 quilómetros, enfrentaram temperaturas negativas, sofreram um atropelamento, mas também tiveram milhares a agradecer-lhes e a incentivá-los ao longo do percurso. Porque esta não era “só” mais uma peregrinação. Era “uma forma de resistência não violenta à violência do mundo de hoje”, uma Caminhada pela Paz.

Envergando as suas túnicas laranja, os 20 monges atravessaram nove Estados, percorrendo cerca de 32 quilómetros por dia. Umas vezes de sandálias ou ténis, outras descalços, prosseguiram acompanhados por Aloka, a cadela que um deles resgatou durante uma peregrinação na Índia e que agora ganhou fama nas redes sociais como #alokathepeacedog (“a cadela da paz”).

20 monges fizeram caminhada pela paz nos EUA. Foto Walk for peace

Umas vezes de sandálias ou ténis, outras descalços, os monges prosseguiram acompanhados por Aloka, a cadela que um deles resgatou durante uma peregrinação na Índia. Foto © Walk for Peace

Percorrer longas distâncias a pé é uma tradição meditativa comum em países do sul da Ásia. Na década de 1990, Maha Ghosananda, um monge cambojano, liderou várias marchas através de áreas devastadas pela guerra e repletas de minas terrestres para promover a cura nacional após a guerra civil e o genocídio no seu país. Agora, a prática parece ter encontrado eco nos EUA e funcionado como um bálsamo no meio dos muitos conflitos e divisões que as políticas de Trump têm gerado.

É verdade que as tensões continuaram a crescer dentro e fora do país, mas não à passagem deste grupo de peregrinos. Tendo disponibilizado online um mapa com a sua localização em tempo real, os monges foram sempre esperados nas localidades por onde passavam por centenas (em alguns casos, milhares) de pessoas. Umas levando cartazes de gratidão pela iniciativa, outras pedindo bênçãos, outras ainda ajoelhando-se à sua passagem e rezando com eles.

Em Charlotte, na Carolina do Norte, há cerca de três semanas, aguardava-os uma pequena multidão, alinhada nos passeios, com flores para lhes oferecer. “Ao recebermos as suas flores, virámo-nos e oferecemo-las a outra pessoa. As flores permaneceram as mesmas, mas a paz e a felicidade multiplicaram-se a cada entrega”, explicaram depois os monges nas suas redes sociais. “Esta é a bela verdade sobre a paz: quando a oferecemos, ela não diminui — ela multiplica-se. Quando partilhamos a alegria, não a perdemos — criamos mais.”

20 monges fizeram caminhada pela paz nos EUA. Foto Walk for peace f

“Esta é a bela verdade sobre a paz: quando a oferecemos, ela não diminui — ela multiplica-se.” Foto © Walk for Peace

E muitos são os testemunhos de pessoas que foram ao seu encontro e o comprovam. “A mensagem dos monges, enraizada na presença em vez do protesto, mostrou-me uma maneira adicional e mais silenciosa de invocar a paz na minha própria vida, na minha comunidade e no meu país”, partilha no jornal The Guardian a escritora e educadora ambiental Mallory McDuff, que conduziu duas horas e meia para poder ver os monges passar durante cinco minutos.

“[À sua passagem] inclinei a cabeça e juntei as palmas das mãos em oração, assim como os operários da construção acima de mim, a família com três crianças ao meu lado e as mulheres mais velhas enroladas em cobertores. Um agente da polícia baixou o olhar e eu desabei em lágrimas”, conta McDuff. “Sei que cinco minutos de bondade amorosa podem parecer insignificantes diante de um regime autoritário, mas eu olhava para aqueles ao meu redor, em comunidade, como uma só nação, uma só Terra, uma só paz”.

Umas semanas antes, em Opelika, Alabama, o pastor Patrick Hitchman-Craig quis receber os monges na sua congregação metodista unida. Era noite de Natal e não sabia se muitas pessoas iriam juntar-se a eles, mas foram mais de mil os que apareceram, criando a atmosfera de uma grande festa de rua. “Os monges pareciam os Reis Magos, a chegar ao aniversário de Cristo!”, disse o pastor à Associated Press, acrescentando: “qualquer pessoa que trabalhe pela paz no mundo de forma pública e altruísta está próxima do coração de Jesus, independentemente de partilhar ou não a nossa tradição”.

20 monges fizeram caminhada pela paz nos EUA. Foto Walk for peace g

“Os monges pareciam os Reis Magos, a chegar ao aniversário de Cristo!”, disse o pastor metodista de Opelika. Foto © Walk for Peace

Permanecer em paz depois de uma perna amputada

Com idades compreendidas entre os 29 e os 68 anos, os monges que encetaram esta caminhada são originários de mosteiros budistas Theravada de países tão diversos como a Tailândia, França, Vietname, e EUA. Ao longo dos 110 dias de peregrinação, não abandonaram as suas tradições ancestrais: faziam apenas uma refeição por dia e dormiam ao ar livre, contando com a boa vontade e donativos daqueles que iam encontrando pelo caminho.

Alguns confessaram sentir as pernas cansadas e os pés doridos. No dia 19 de novembro, dois deles ficaram mesmo feridos quando um camião colidiu com o veículo de apoio, que foi embater no grupo. Um deles perdeu a perna, que acabou por ter de ser amputada. Mas ainda assim manteve uma atitude positiva, conseguindo ver algo de bom no seu infortúnio. “Antes do acidente, o movimento Caminhada pela Paz ainda era desconhecido, mas depois da minha lesão, despertou muito interesse em diversas comunidades e chamou a atenção não só para a Caminhada pela Paz, como também para o budismo. Agora, estou em paz com o que aconteceu”, afirmou à Houston Public Media. E conseguiu voltar a juntar-se ao grupo na chegada a Washington.

20 monges fizeram caminhada pela paz nos EUA. Foto Walk for peace b

O monge que viu uma das pernas ser amputada na sequência de um acidente conseguiu juntar-se ao grupo na chegada a Washington. Foto © Walk for Peace

Os monges rumaram à capital também com o objetivo de pedir o reconhecimento do Vesak, o dia em que se celebra o nascimento e a iluminação de Buda, como feriado nacional. Mas Bhikkhu Pannakara, porta-voz do grupo, enfatiza que essa não foi a principal meta da caminhada: o grande objetivo era “ajudar as pessoas a alcançar a paz nas suas vidas”. 

Becki Gable, que no início de janeiro fez quase 640 quilómetros desde Cullman, Alabama, para ir ao encontro dos monges em Saluda, Carolina do Sul, garantiu à Associated Press que os monges estão mesmo a cumprir esse objetivo. Criada na fé metodista, Gable decidiu ir ao encontro deles porque procurava algum alívio da dor de ter perdido a sua filha e pais. “Senti no meu coração que isso me ajudaria a ter paz”, disse ela. “Talvez eu pudesse seguir em frente um pouco na minha vida.”

Desde então, levou a sério um dos ensinamentos que o monge Pannakara partilhou consigo. Prometeu a si mesma que, todas as manhãs, assim que acordasse, pegaria num pedaço de papel e escreveria cinco palavras nele, exatamente como o monge prescreveu: “Today is my peaceful day” (“Hoje é o meu dia de paz”. E essa paz começou a tornar-se real.

20 monges fizeram caminhada pela paz nos EUA. Foto Walk for peace

À passagem dos monges, uma mulher enverga um cartaz com um dos seus lemas: “Today is my peaceful day” (“Hoje é o meu dia de paz”). Foto © Walk for Peace

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This