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T'ruah. Cisjordânia
Um drone paira sobre um grupo de rabinos pelos direitos humanos que ajudava agricultores palestinianos na apanha da azeitona na Cisjordânia. Foto © T'ruah

Cisjordânia

Violência contra agricultores palestinianos testemunhada por rabinos americanos e israelitas

| 13/11/2025

 

Ninguém foi morto. “Tivemos sorte” – reconhece a rabina Jill Jacobs, dirigente da T’ruah (The Rabbinic Call for Human Rights), que, com outros oito rabinos americanos se deslocou este mês à Cisjordânia para, acompanhados de membros da organização israelita Rabinos pelos Direitos Humanos, apoiar e proteger agricultores palestinianos na apanha da azeitona. “Se o nosso grupo não fosse composto por rabinos e ativistas americanos e israelitas, é provável que aquele dia tivesse terminado com ferimentos graves ou mortes”, afirma Jacobs.

O testemunho da rabina sobre os dias passados na Cisjordânia para, pensavam eles, proteger os agricultores palestinianos da violência dos colonos e das forças armadas israelitas foi divulgado no site Religion News Service de 12 de novembro de 2025 e merece ser lido na íntegra.

O objetivo da “missão” era claro: “acompanhar agricultores e pastores palestinos pobres na apanha da azeitona para dissuadir a violência dos colonos israelitas.” Durante alguns dias tudo correu com normalidade, mas “no último dia, enquanto ajudávamos uma família a colher azeitonas nas suas terras perto de Deir Istiya, na Cisjordânia, um drone sobrevoava o local, presumivelmente capturando fotos e vídeos”.

“Com o passar das horas, o drone tornou-se mais agressivo, descendo até a altura dos nossos olhos e pairando a poucos centímetros das nossas cabeças. De repente, caiu, atingindo com força o braço de uma colega rabina israelita abrindo um profundo corte na sua pele” – escreve Jill Jacobs que, apesar da agressão, admite: “Não sabemos se os operadores do drone a atacaram deliberadamente, ou se perderam o controle.”

Os paramédicos levaram a rabina ferida à pressa para o hospital para lhe suturarem a ferida, enquanto os voluntários chamavam a polícia para relatar o incidente. “A polícia nunca chegou. Mas, minutos depois – prossegue a narrativa de Jacobs – dois homens armados com uniformes das Forças de Defesa de Israel desceram a colina em direção à multidão para recuperar o drone.”

“Abrimos caminho para que passassem. Embora se recusassem a identificar-se, acreditamos que fossem membros da defesa local de um colonato próximo. Enquanto recuavam, os homens uniformizados voltaram-se para a multidão e apontaram suas armas para nós. Um deles disparou para o ar — felizmente sem atingir ninguém — e os dois fugiram.”

Se pensavam que tudo estaria terminado, enganavam-se: “Logo depois, um terceiro homem, um líder da defesa do colonato, chegou acompanhado por soldados, alegando que havíamos roubado o drone e agredido os homens de uniforme que tinham vindo recuperá-lo. Mostrámos aos soldados as imagens que tínhamos gravado, o líder do colonato pediu desculpas e conseguimos deixar o local sem mais incidentes.”

A família cujas azeitonas a equipa ajudou a colher não tinha conseguido aproximar-se das suas oliveiras durante toda a temporada de colheita. “Se o nosso grupo não fosse composto por rabinos e ativistas americanos e israelitas, é provável que aquele dia tivesse terminado com ferimentos graves ou mortes. Tivemos sorte.”

 

Ataques diários na Cisjordânia

Colonos israelitas na Cisjordânia.

Homens armados recuperam um drone de uma quinta palestiniana na Cisjordânia. Foto © T’ruah

A T’ruah, a organização dirigia pela rabina Jill Jacobs, tem mais de 2.300 rabinos e cantores e é muito crítica do Governo de Netanyahu que acusa de ser o mais extremista da história do país”e de estar a “executar rapidamente a agenda do movimento de colonatos, que busca exercer controlo sobre toda a Cisjordânia e Gaza e concentrar os palestinos em áreas isoladas e suburbanas”.

No testemunho que escreveu para o Religion News Service Jacobs sublinha que “desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, com a atenção mundial voltada para Gaza, a violência na Cisjordânia aumentou drasticamente, incluindo vandalismo, violência e frequentes apropriações de terras”. Agricultores e pastores palestinos, como os que acompanharam na apanha da azeitona, “sofrem ataques quase diários e são impedidos regularmente de chegar às suas terras”. Jacobs cita o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários que, desde o início da colheita de azeitonas deste ano (outubro), documentou 86 incidentes de violência em que ficaram feridos 112 palestinos e 3.000 árvores foram danificadas.

Esta não foi a primeira viagem da rabina à Cisjordânia. Ela relata anteriores viagens em que encontrou a destruição provocada pela violência dos colonos israelitas. “Em maio de 2024 – relata Jacobs – levei um grupo de rabinos para visitar a vila de Khirbet Zanuta, na Cisjordânia. Os seus moradores palestinianos haviam sido recentemente expulsos por colonos locais, que destruíram a vila para impedir o retorno dos palestinianos. Estávamos no meio dos escombros de uma antiga escola, com cartazes rasgados de ‘aprende a contar’ aos nossos pés.”

Alguns meses depois, em dezembro de 2024, ela voltou às ruínas de Khirbet Zanuta com um grupo diferente de rabinos. Nesse ínterim, o Supremo Tribunal de Israel havia ordenado que os moradores pudessem retornar. “Mas quando os residentes palestinianos, juntamente com ativistas israelitas, voltaram para reconstruir a vila, os colonos expulsaram-nos novamente, apesar da ordem do Supremo Tribunal. Com o exército relutante em proteger a vila, as decisões judiciais não têm força. Desde então, o Supremo Tribunal decidiu novamente que os moradores podem retornar, mas poucos se atrevem a arriscar as suas vidas para fazê-lo.”

 

Impunidade total dos colonos

Alice Kisiya, Terra Santa, Belém, Cisjordânia, Israel

Alice Kisiya, cristã palestiniana de Al-Makhrour (Belém, Cisjordânia), cuja casa foi ocupada por colonos israelitas com o apoio do exército entre Julho e Setembro 2024. Foto © Mosab Shawer, cedida pelo autor.

Para Jacobs não restam quaisquer dúvidas que “os colonos realizam os seus ataques com toda a impunidade” e cita a organização israelita de direitos humanos Yesh Din, a qual apurou que “mesmo quando a polícia abre investigações sobre a violência dos colonos, cerca de 94 por cento dos casos terminam sem qualquer pronunciamento contra os agressores”. Com base nessa experiência, que em mais de 60 por cento dos casos documentados pela Yesh Din entre janeiro de 2023 e o final de setembro de 2024, as vítimas palestinianas optam por nem sequer apresentar queixa.

Esta semana, segundo informações recolhidas pela rabina, dezenas de colonos invadiram uma zona industrial palestiniana, incendiando edifícios e camiões e ferindo palestinianos e até mesmo soldados das Forças de Defesa de Israel. Até o momento, “apenas três dos agressores foram presos, e somente um permanece sob custódia”.

A violência a que foi sujeita, ela e o grupo de rabinos e palestinianos, foi tratada de modo diferente pelas autoridades israelitas: “Em resposta às perguntas de jornalistas sobre o ataque ao nosso grupo de rabinos na semana passada, as Forças de Defesa de Israel (IDF) divulgaram um comunicado condenando o comportamento ‘incomum’ e não profissional dos agressores e prometendo investigar o caso. Por fim, o homem que disparou os tiros foi expulso da reserva e o outro foi repreendido. Essa resposta foi importante, mas também muito incomum. Sabemos que a única razão pela qual as IDF emitiram esse comunicado foi porque um rabino israelita ficou ferido e havia rabinos israelitas e americanos presentes.”

 

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