A criança é aquela que fala em terceira pessoa
porque fala por meio dos adultos.[1]
O amor ama a justiça.
Joana, 10 anos.
Olhos tímidos, beirando a tristeza. Corpo franzido. Atitudes servis. Não parece uma criança! Joana aprendeu muito cedo que deveria se responsabilizar, antes mesmo dos adultos. Responsabilizar-se pelo humor da mãe, pela exaustão do pai, pelo choro dos irmãos. A louça lavada, o chão varrido, a papinha aquecida – todas essas eram maneiras de controlar o clima hostil que, de outra maneira, se instalaria entre aquelas paredes escuras que ela conhecia como lar. De vez em quando, Joana queria fugir, encontrar-se com a irmã mais velha, a única que parecia vê-la como criança, como uma menina que precisava de cuidados e atenção. Foi em um desses dias que sua mãe lhe tacou um tapa no rosto, fazendo seus lábios sangrarem. Joana não tinha cumprido com suas obrigações domésticas e foi, além disso, bocuda – como relatou sua mãe; primeiro para o pai de Joana e, depois, para o pastor da igreja que frequentavam. No posto de saúde, a mãe disse que ela caíra. Ouvindo a história, perguntei-me: por que a mãe se sentiu confortável para dizer a verdade ao pai e ao pastor, mas não à enfermeira que atendera a menina? Joana permaneceu em silêncio na enfermaria. De volta à casa, quando o pai chegara, não teve tempo de explicar sua versão; já foi logo ouvindo que responder à mãe é um pecado: “honrar pai e mãe é o único mandamento com promessas”, disse ele. Dias depois, foi levada ao gabinete do pastor e, embora sentisse muito medo, conseguiu articular, em tenras palavras, sua versão dos fatos.

Matthias Stom (fl. 1615–1649), O julgamento de Salomão (1640), Museu de Belas Artes, Houston, EUA. / Wikimedia Commons.
Nessa história, não faltarão vozes dispostas a justificar a mãe de Joana e até a reconhecer no pai uma figura bem-intencionada, empenhada em educá-la. Esse tipo de leitura se apoia, contudo, em uma cultura de normalização da violência ainda muito presente entre nós. Os adultos que falham em reconhecer a violência na história de Joana geralmente se baseiam em crenças de que “o amor parental, sobretudo materno, é incondicional, mesmo quando violento”, “crianças são punidas porque merecem”, “o lar é um ambiente seguro para todos”. O que vemos na história de Joana – e na de cerca de mil milhões de crianças e adolescentes ao redor do mundo – é o contrário. Dados divulgados pela OMS em 2022 mostram que, a cada ano, crianças e adolescentes sofrem alguma forma de violência, além de negligência.[1] Embora haja desconhecidos entre os agressores, é perturbador que a violência também seja perpetrada por pais, cuidadores e outras figuras do convívio, percebidas como dignas de confiança.
No “lar” de Joana, ela não é criança; é, antes, um meio para se realizarem as vontades parentais. Ainda no século XXI, para muitos, os “filhos” são tratados como prole, reiterando a lógica presente na Roma antiga de que o valor dos mais vulneráveis depende de sua utilidade; nela, a criança não é reconhecida em sua infância, tampouco em sua humanidade e em seus direitos. A mãe de Joana não negou ao pai e ao pastor que agrediu a filha, mas não se sentiu à vontade para fazer a mesma confissão à enfermeira; essa manipulação dos fatos mostra, de um lado, a consciência e a injustificabilidade do seu ato; de outro, a existência de redes de autoridade mais dispostas a encobrir o agressor ou, ao menos, atenuar sua agressão.
Em violências que ocorrem em núcleos familiares – estendendo-se aqui à rede de parentesco –, ao menos um dos pais ou cuidadores prefere não se indispor com seu parceiro ou outros familiares para preservar esses laços, mesmo que isso signifique a desproteção da criança. Essa decisão é, muitas vezes, baseada nos mitos de que crianças inventam estar sendo agredidas, violadas ou de que, com os anos, elas esquecerão a experiência. Novamente, vemos aqui um olhar que as desumaniza, colocando os interesses e direitos dos adultos acima dos seus.
Em nossa cultura, aceitamos passivamente a ideia de que amor e violência, amor e dominação podem coexistir. Isso se deve, em parte, à influência da tradição cristã na idealização do amor parental, sobretudo materno, com a figura de Maria, mãe de Jesus. Não se trata aqui de negar que Maria é um símbolo de entrega à maternidade, mas de lembrar que essa não é uma aptidão natural do gênero feminino; é, sobretudo, matéria de aprendizado que depende da individualidade de cada mulher. Contudo, quando se pensa que toda mãe é, naturalmente, como Maria, torna-se difícil confrontar as mães agressoras, negligentes ou mesmo permissivas. As permissivas são, porventura, as mais toleradas em nossa sociedade, sobretudo porque pensamos que a abnegação e a compaixão produzem sempre o bem; enganamo-nos, porém, nesse ponto, pois essas virtudes, em excesso, não fazem mais do que banalizar o mal, levando essas mulheres-mães, muitas vezes, a proteger o agressor e a silenciar a vítima.
Tratando-se do amor paterno, a tradição cristã não fez de José um símbolo tão forte; sua discrição, na verdade, encontra paralelos com a ausência do pai em nossa cultura, se não literal, ao menos em termos de disponibilidade emocional para a criança. Dos homens-pais espera-se que estejam por aí, nas ruas, e que seu único papel seja o de “prover”: prover um kichute[2] gasto para a criança ir à escola, um pacote de bolacha de água e sal para ela segurar o estômago enquanto aprende matemática: “Isso tudo já tá bom, o resto posso gastar com bebida. E, se eu chegar em casa e quebrar tudo, esse é o meu direito!”, brada ele.
Também operaram ali, na história de Joana, a idealização da maternidade e a naturalização da ausência paterna. Joana terminou desamparada no gabinete do pastor, ouvindo um sermão privado sobre os “frutos do Espírito” e sendo ensinada a pedir por domínio próprio quando, diante dos gritos e das agressões da mãe, sentisse uma vontade impetuosa de retrucá-la. A conversa não só não produziu nenhum alívio, como perpetuou anos de culpa, violência e injustiça. Essa história reafirma que, enquanto adultos, sobretudo quando estamos em posição de autoridade – como o pai e o pastor –, temos o dever de proteger, acolher e legitimar a voz daqueles cuja fala ainda depende de nós para alcançar justiça.
[1] OMS 2022. Violence against children. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/violence-against-children. Acesso em 18 de abril de 2026.
[2] Uma combinação de tênis e chuteira que, pelo material simples e resistente, tornou-se muito popular entre a classe média baixa brasileira entre as décadas de 1970 e 1980, embora ainda fosse usada por muitas crianças nos anos 1990 e 2000.
Maria Angélica Martins é socióloga e doutoranda em Estudos de Religião. É fundadora da apply, empresa de pesquisa aplicada a organizações, e coordenadora do Núcleo de investigadoras Negras Abayomi, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Brasil. O seu trabalho articula investigação e escrita ensaística para pensar religião e espaço público, subjetividade, trabalho e organizações, em perspectiva atenta às relações de género e de raça.
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