Violência contra as Mulheres: origens

| 1 Jun 20

Mais uma vez a violência doméstica surge como um dos fenómenos potenciados pela pandemia da covid-19, tendo como fator explicativo o confinamento e a coexistência em permanência de agressores e vítimas no mesmo espaço, por vezes espaços exíguos, muitas horas por dia.

O Estado tem procurado prevenir criando um e-mail e um SMS específico para onde se pode pedir ajuda, cartazes que apelam à denuncia por familiares, amigos e vizinhos e a abertura de mais 100 vagas em casas-abrigo, uma no Norte e outra na Área Metropolitana de Lisboa.

Olhando para os dados neste contexto de pandemia, mais uma vez dei por mim a pensar de onde virá a persistência estrutural do fenómeno da violência doméstica e de género, esta violência que assenta num exercício de poder exacerbado, descontrolado, total, de alguns homens em relação às suas companheiras, em que elas não são mais do que um objeto de posse sobre o qual se pode tudo.

Quando olhamos para os femicídios, o nível de violência é sempre brutal e odioso. São sempre muitas facadas, cadeiradas que desfazem cabeças, asfixia com as próprias mãos, degolações, queimaduras com fogo ou com ácido. Tenho sempre presente, como o paradigma máximo da destruição e do ódio, um caso ocorrido no final de 2015 em que, depois de disparar com arma de fogo sobre a mulher, ao perceber que ela continuava viva, o homicida lançou uma granada que fez explodir o corpo.

Encontrei nos primórdios do cristianismo e em autores como Santo Agostinho algumas explicações milenares que moldam profundamente a sociedade e que a cultura judaico-cristã assimilou de tal forma que hoje, no século XXI, continuam no mais profundo das nossas representações do que é ser homem e mulher e onde encontro alguma resposta para esta violência extrema.

A interpretação feita do mito de origem, de Adão e de Eva, leva à fundamentação do que está na origem do pecado e essa origem está em Eva, quando dá a maçã a comer a Adão depois de ter sido tentada pela serpente que simboliza o Diabo, ou seja, o mal. E assim, com esta falta que condenou a humanidade, a mulher tornou-se a própria essência do mal. Todas as mulheres descendem de Eva; logo, todas encarnam o pecado original.

E aqui é trazido outro conceito que, na perspetiva maniqueísta do bem e do mal, do certo e do errado, integrando a dualidade entre o puro e o impuro, o último traduzido nas dores de parto, no sangue menstrual, que são o castigo pelo pecado original.

É neste princípio originário do mal e do impuro que se constrói o papel das mulheres na sociedade. Assim, as mulheres existem para tentar os homens, porque são a própria essência do pecado, ou seja, a própria essência do mal. E por isso devem ser dominadas e controladas, porque encarnam a tentação, o desvio.

É verdade que, no mundo clássico, não existia igualdade entre mulheres e homens, estando as mulheres numa posição de inferioridade social, mas tal como em quase tudo, o Cristianismo na sua origem condenou todo o ato de prazer e bem-estar e exacerbou a clivagem dos papéis de género.

O controlo social das mulheres é feito pelos homens, é aos homens que cabe o papel de as vigiar, de as conter dentro de uma hierarquia que tem Deus no topo, a baixo os homens e só depois as mulheres, como podemos ler na I Epístola de S. Paulo aos Coríntios.

Esta doutrina de S. Paulo que justifica a submissão das mulheres aos homens, é claramente visível em Santo Agostinho. Na obra As Confissões, o autor enaltece as qualidades da mãe enquanto esposa e a crítica que esta faz às mulheres que dizem mal dos maridos que lhes batem, sendo o filósofo referenciado por outros autores, mesmo já no séc. XVIII, quando discorrem sobre a violência contra as mulheres e a sua justificação.

A violência conjugal só deixou de ser de caráter privado, tornando-se de caráter público na década de 70 do século XX com o surgimento do feminismo de segunda vaga. Contudo, a submissão da vítima (mulher) ao agressor (homem) nas relações de intimidade, continua a persistir sendo um problema endémico nas sociedades atuais, sendo a vítima vista pelo agressor, não como um ser humano igual, mas como um objeto que Mónica, a mãe de Santo Agostinho traduz, numa passagem da obra As Confissões, da seguinte forma: “A leitura do contrato de matrimónio faz das mulheres escravas.”

A interpretação feita ao livro de Génesis pelos pensadores dos primeiros séculos depois de Cristo, onde se inclui Santo Agostinho como um dos principais pensadores e arquitetos desta ideologia, vem criar uma estrutura mental de expiação constante e de um erro inicial que as mulheres carregarão para sempre. Elas são a encarnação do mal do mundo e essa condição legitima até ao presente, mesmo contra as regras legais e éticas, mesmo sem que seja de forma consciente, o modo como a sociedade ocidental lida com a violência contra as mulheres e o flagelo do femicídio que, só em 2019, matou 35 mulheres no nosso país.

 

Catarina Marcelino é deputada do Partido Socialista e ex-secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade

 

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