Violência doméstica cresceu com a pandemia, conclui estudo

| 29 Jan 21

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Um terço dos casos diz que foi vítima de violência doméstica pela primeira vez. Ilustração © Catarina Barbosa

 

Um estudo sobre violência doméstica em tempos de covid-19, com uma amostra de 1062 respostas, concluiu ter havido 159 casos de violência, ou seja, 15% do total de respostas. Na esmagadora maioria (86,7 dos casos) tratou-se de situações de violência psicológica e um terço foi vítima deste crime pela primeira vez.

Os resultados, de caráter preliminar, integram um projeto de investigação (VD@COVID19) que procurou analisar a violência doméstica psicológica, física e sexual autoreferida através de questionário online, durante a pandemia, entre abril e outubro de 2020.

O projeto foi coordenado pela Escola Nacional de Saúde Pública, em parceria com várias outras instituições de ensino superior de Lisboa e do Porto.

Ainda que as mulheres (com 15,5% dos respondentes) tenham sido quem mais relatou situações de violência doméstica, os homens ficaram numa posição não muito distante, com 13,3%.

Violência doméstica

Fonte: Escola Nacional de Saúde Pública.

 

“Este fenómeno, ainda que transversal a todos os grupos etários e níveis de escolaridade, tem especial relevo nos mais jovens e menos escolarizados”, diz um comunicado dos coordenadores do estudo. São também as pessoas que mencionam “dificuldades económicas ou cuja atividade profissional foi prejudicada pela pandemia quem mais refere ser vítima de violência doméstica”.

Segundo a investigadora Sónia Dias, coordenadora do estudo, os resultados indiciam um aumento de casos não relatados oficialmente, em tempos de covid-19, já que a maioria das vítimas (72%) nem procurou ajuda nem denunciou o ocorrido (70% as mulheres e 80% os homens). Os motivos aduzidos sugerem que as vítimas consideraram isso “desnecessário”, que “não alteraria a situação”, além de se sentirem constrangidas com a situação. O facto de o abuso “não ser grave” levou a que também não tenham participado a situação às autoridades.

Estes resultados podem ter relação com o facto de a amostra ter por base o meio universitário, visível no número de mais de 80 por cento serem de titulares de curso superior. Este viés comporta, por outro lado, uma vantagem, uma vez que segundo os investigadores do estudo, este segmento da população tem menor participação em pesquisas sobre a violência doméstica.

 

Violência doméstica têm caraterísticas pandémicas, diz psicóloga da Cáritas de Braga

Também sobre a violência doméstica, a Cáritas Arquidiocesana de Braga, através do Centro de Informação e Acompanhamento a Vítimas de Violência Doméstica (CIAVVD), em parceria com a Escola de Direito da Universidade do Minho, realizou, esta terça-feira, uma conferência digital sobre “Um olhar multidisciplinar sobre o fenómeno” integrada no ciclo que decorre este ano, subordinado ao tema “Violência Doméstica: compreender para intervir”.

Em declarações à agência Ecclesia, a psicóloga Raquel Gomes, coordenadora do CIAVVD e uma das intervenientes na conferência, disse que a pandemia de covid-19 “agravou o nível de vulnerabilidade das vítimas de violência doméstica” e também de “outros públicos-alvo, mais vulneráveis noutras dimensões”.

As vítimas de violência doméstica “podem ter mais dificuldade” de denunciar a situação que “estão a viver, por se encontrarem num quadro muito mais limitado e supervisionado”, realçou a coordenadora.

Os dados veiculados pela Guarda Nacional Republicana (GNR) apontam “para um aumento de violência doméstica”, apesar de não ter sido “um aumento significativo face ao esperado”, salientou Raquel Gomes.

Depois de uma primeira conferência dedicada à perspetiva da justiça, a próxima, prevista para os finais de março, “provavelmente, vai abordar a questão dos menores enquanto vítimas de violência doméstica”, frisou a responsável.

Em pleno século XXI, “é difícil entender e justificar” a violência doméstica que tem “também características absolutamente pandémicas”, segundo Raquel Gomes.

“Só com a mudança de mentalidades” a situação se altera porque “os conflitos podem ser resolvidos através de outras formas”, afirmou.

O contexto da casa “não é seguro para muitas mulheres, homens e muitas crianças”, denunciou.

 

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