Violência e ébola ameaçam populações na RD Congo, denunciam religiosos

| 17 Jun 19 | Cooperação e Solidariedade, Destaque 2, Estado, Política e Religiões, Sociedade - homepage, Últimas

Há jovens que, para sobreviver, carregam as suas bicicletas com 500 quilos de mercadorias para vender no Ruanda, diz Christine du Coudray. Foto © Emeric Fohlen/ACN Portugal

 

Mais de 1.300 pessoas terão morrido vitimadas pelo vírus Ébola na região do Kivu-Norte, no nordeste da República Democrática do Congo (RDC), segundo as informações mais recentes avançadas pela Cáritas Congo. O facto está a assustar as populações da área, de acordo com relatos de missionários católicos citados pelo serviço informativo das Obras Missionárias Pontifícias (OMP).

Visitación Calahorra, que integra o Instituto Secular Magdalena Aulina, acrescenta que o maior receio da população da zona, situada perto das fronteiras com o Ruanda e o Uganda, são os ataques nocturnos de grupos armados que sequestram, violam e assassinam indiscriminadamente.O padre Robert Ngongi diz também que os constantes ataques já levaram a que 100 mil pessoas tenham abandonado as suas casas por receio de perderem a vida.

“Os rebeldes ugandeses que entram no Congo desde 2016 estão a massacrar as populações. Há pouco tempo houve um massacre na localidade de Mbau e 18 pessoas foram assassinadas”, denuncia, ainda de acordo com as OMP.

Estes grupos armados, que vêm do Uganda pela fronteira leste do Congo, têm campos de cultivo em que utilizam as pessoas aprisionadas. O padre Ngongi questiona: “Como se pode entender que, numa zona tão militarizada [pelo governo congolês], com operações militares contínuas nos últimos quatro anos, os rebeldes tenham a possibilidade de cultivar, se passeiem livremente dia e noite, matem civis, roubem, aniquilem os animais dos camponeses, tudo isto sem serem incomodados, apesar dos alertas da população?”

Também Francesco Segoni, dos Médicos Sem Fronteiras, citado ainda pelas OMP, indica também a existência de ataques aos próprios médicos e agentes sanitários daquela organização, o que aumenta a dificuldade de actuação eficaz no terreno.

Num país devastado pela guerra civil, vagas de refugiados e epidemias, também a região de Kasaï (a norte da fronteira do Congo com Angola) tem sido cenário de graves problemas. Christine du Coudray, responsável dos projectos da Ajuda à Igreja que Sofre na RDC, que acabou de regressar de uma visita de duas semanas à região, diz que tem havido episódios de violência tribal com uma “inusitada crueldade”, que mistura política com crenças tradicionais. A milícia Kamwina Nsapu, refere, assassinou entre quatro mil e 23 mil pessoas, levando à deslocação forçada de cerca de 1,4 milhões de pessoas. Aqui, o conflito terminou com a eleição do novo Presidente, Félix Tshisekedi, oriundo da região, em Janeiro de 2019.

Há, no entanto, sequelas enormes, conta ainda a responsável, numa entrevista ao departamento de informação da AIS: muitas estruturas, incluindo da Igreja Católica, foram destruídas e há relatos de crianças que, sob o efeito de drogas, decapitaram pessoas. Muitos jovens, acrescenta Christine du Coudray, tentam sobreviver empurrando as suas bicicletas com cargas de 500 quilos de mercadoria para vender no Ruanda.

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