Violência e saque continuam em Cabo Delgado: “Esta é a dor de um povo”, diz missionário refugiado em Pemba

| 25 Nov 20

A igreja da Missão de Muidumbe (Moçambique) depois dos ataques terroristas. Foto: Direitos reservados/ ACN Portugal.

 

“As lideranças [das aldeias] relatam que, pelos caminhos, estão encontrando muitos corpos já em decomposição e que aconteceram massacres. As acções dos terroristas são violentas, muitas pessoas foram decapitadas, casas queimadas e derrubadas. Esta (…) é a dor de um povo. Gente que continua sem localizar seus familiares. Pessoas que tiveram suas casas queimadas. Muitas pessoas assassinadas. Fala-se de massacres e de 500 mil deslocados. Vidas e vilas destruídas.”

É desta forma que o missionário brasileiro Edegard Silva Júnior, dos padres Saletinos na Missão de Muidumbe (Moçambique) descreve, num testemunho publicado no Vatican News, os últimos desenvolvimentos na província de Cabo Delgado, no Norte do país.

Na semana passada, a missão onde estavam – a segunda mais antiga da diocese de Pemba – foi destruída pelos grupos terroristas que têm ameaçado aquela província, tendo já provocado centenas de vítimas mortais, centenas de milhares de deslocados e a destruição de várias aldeias e localidades.

A missão, fundada em situa-se na região conhecida como Planalto do Povo Maconde, e por lá já passaram missionários Franciscanos Capuchinhos, Irmãs Missionárias da Consolata, padres e freiras da diocese. Os Missionários Saletinos estavam ali desde 2017, precisamente o ano em que se registaram os primeiros ataques, ainda esporádicos, na província mais setentrional de Moçambique.

Nas 26 comunidades que se aglomeram à volta da missão, funcionam escolas para três mil alunos, uma creche para 80 crianças, um centro de formação, ambulatório dentário, uma rádio comunitária e um poço para fornecimento de água. E na acção dos missionários e missionárias, a atenção voltava-se para as questões da saúde, da água, da criação de emprego na área da costura…

O mais correcto será dizer, agora, funcionavam: com a destruição da missão, tudo foi reduzido a cinzas. “Uma grande dor perpassa nosso coração! Não pelas coisas”, diz o padre, mas “pelo esforço de cada passo dado nessa missão”.

No passado dia 19, chegou a Pemba o telefonema que deu conta de mais uma tragédia. Alguns líderes locais foram à missão, depois de os grupos terroristas a terem abandonado, ao fim de vinte dias de ocupação. “Mesmo correndo perigo” esses responsáveis de comunidades foram até à aldeia de Muambula e ligaram para os missionários em Pemba: “Está tudo destruído… a casa onde residíamos se transformou em cinzas… todos os equipamentos foram queimados. O templo onde fica a sede da paróquia destruído… a sala da rádio comunitária queimada. A casa das irmãs destruída…”

 

Situação incontrolável e ajuda é muito pouca
Missão de Muidumbe (Moçambique) destruída por ataques terroristas

Na igreja da missão de Muidumbe (Moçambique) restaram as paredes. Foto: Direitos reservados/ACN Portugal

 

Este foi o segundo ataque à missão de Nangololo, em Muidumbe, recorda a fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), depois de um primeiro ataque em Abril. Mas, agora, foi muito mais violento. “É um ataque, posso dizer assim, de uma proporção muito maior do que em Abril”, explica o padre.

A situação continua incontrolável. Apesar de várias promessas, nem o Governo de Moçambique nem a comunidade internacional mobilizaram qualquer acção que combata com eficácia o terrorismo. Na semana passada, o Presidente moçambicano, Filipe Jacinto Nyusi, encerrou o 11º curso de Formação dos Sargentos e o segundo curso complementar dos Sargentos do Quadro Permanente, diante dos quais afirmou que estes têm a obrigação de responder sem hesitação nem contemplações aos actos terroristas de Cabo Delgado. Esta situação deveria mesmo funcionar como estudo de caso para os militares moçambicano, acrescentou, citado no Portal do Governo de Moçambique.

Também na semana passada, o eurodeputado Paulo Rangel (PSD), que tem acompanhado a situação em Cabo Delgado, disse à AIS que o agravamento da situação humanitária naquela província moçambicana poderá levar o Partido Popular Europeu (PPE), que Rangel integra, a propor a audição do bispo de Pemba na Comissão dos Assuntos Externos do Parlamento Europeu (PE).

D. Luiz Fernando Lisboa tem sido a voz mais activa na defesa das populações atingidas. A sua audição pelo PE seria “altamente inspiradora”, dizia Rangel. Uma reunião do grupo do PPE debateu a situação em Moçambique e a audição do bispo pela comissão do PE seria uma forma de completar o debate que já houve no plenário – que aprovou uma resolução – e que não deverá ser possível repetir, pelo menos em breve.

Paulo Rangel também criticava, na mesma ocasião, o pouco que tem sido feito a nível internacional no apoio às populações vítimas dos ataques. “A União Europeia tem feito pouco. O governo de Moçambique também tem aqui responsabilidades, porque tem sido muito lento, muito fechado, sempre a tentar não dar a esta situação o relevo que ela tem. Mas pediu ajuda aos EUA, ao Reino Unido, à África do Sul e pediu ajuda em particular à União Europeia, e isso devia ter já originado uma espécie de organização estruturada de apoio humanitário à região de Cabo Delgado. E isso ainda não aconteceu”, lamenta, criticando ainda o facto de o Governo português não ter feito “o suficiente”, chamando a atenção da União Europeia.

A fundação AIS, que tem denunciado a situação através dos seus canais internacionais, decidiu entretanto apoiar as estruturas envolvidas no acolhimento aos deslocados com uma ajuda de emergência no valor de 100 mil euros. Uma ajuda que, diz Regina Lynch, chefe de Departamento de Projectos da AIS a nível internacional, “procura aliviar o sofrimento e trauma” das populações afectadas, tanto cristãs como muçulmanas.

 

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