Visitar e conhecer o passado para o viver no presente

| 4 Fev 2024

Sé Catedral de Bragança projetada por projetada pelo arquiteto Vassalo Rosa e inaugurada em outubro de 2001. Foto @ M. Peinado / Wikimedia Commons

 

Da minha passagem por Bragança, aproveitei para visitar a Catedral nova que nunca tinha visto. Não tive sorte. Não sendo segunda-feira, era domingo, estava fechada; movimentei-me pela frente e pelos lados. A frente, a servir de placar aos ainda estandartes da JMJ, salientando-se a frase “A Caminho”. Não gostei do principio desse caminho, a começar pelo uso da Catedral, para tal suporte, ou outro que seja; continuando pela envolvência, apreciei a cascata e o seu significado; desiludiu-me: suja e seca. A um lado, que não sei definir, uma cripta? -suja. Invejei as oliveiras cheias de boa, grande e já preta e apetitosa azeitona, caída no chão – “podia ser uma boa ajuda para o Banco Alimentar local”!  ” A Comunidade Paroquial, se a há, poderia dinamizar esta iniciativa e fazer com que esta azeitona não se estragasse”.

A reflectir sobre a expressão imperativa “A Caminho”, – que novos caminhos se abriram após a JMJ? -continuei o meu caminho, a pensar em outras “catedrais” que já tinha visitado, em Grupo organizado por Agência Turística.

“Catedrais”, sim, não no seu sentido literal, mas de outras catedrais que também são pela sua história, pelo seu passado: laboral, comunitário, solidário, social e sociológico, económico e… até “litúrgico”.

Tal, como aquela, também têm altares, ministros e fiéis de culto próprio e específico, à mistura com o culto artístico, lírico, dramático, e até, tantas vezes épico. Por exemplo, as Eiras, em particular, “catedrais” que se erguem em todas as Aldeias…

E por que não, também, um culto noticioso que veio a ser substituído pelos órgãos de divulgação hodiernos:  jornais, revistas, até Paparazzi, rádio e TVs, tais como a fonte, a fonte de mergulho, a bica, o tanque de lavar roupa – “onde se lava tudo, menos a língua” –  as portas de janela e gateira, a que junto, também, pelo seu estilo, pelo seu material de construção, varandas e janelas.

A todos estes ministros e fiéis do passado, se juntam os do presente que teimam em recrear “tantum quantum” esse mesmo passado, mas, como se costuma dizer, “para turista ver”… no aspecto laboral, gastronómico, cultural, lúdico e tantas vezes sem jeito, sem “atitude”, como artisticamente se diz, mas desprezando o aspecto espaço, ambiente, local.

Hoje há, felizmente, Agências de Turismo que fomentam e orientam visitas às nossas Aldeias, para verem determinadas Festas, eventos e acontecimentos do passado, como sejam os “Caretos”, os Pauliteiros, determinadas localidades, como “Rio de Onor”, aproveitando a estadia, a passagem, para degustar as especialidades, as iguarias locais, por vezes, servidas, até, em espaços e ambientes o mais possível tradicionais, mas que pouco ou nada têm a ver com o que já foram…Nota bem a diferença quem, antanho, saboreou tais manjares… Por exemplo, as alheiras – “tabafeias”, como nas nossas terras se chamam, sem os tradicionais elementos e, sobretudo, com o invólucro de “plástico”.

Não basta que o Grupo de Pauliteiros se limite a dançar; pelo menos algumas danças têm, além da música, uma letra, por exemplo a dos “Ofícios”, “Mirandum”, “Laurindinha” e outras. Antes de cada dança, seria bom e cultural que se desse uma pequena explicação. Não se apercebeu disso um repórter espanhol, mas ficou maravilhado em saber e que irá transmitir.

É aqui que eu quero chegar. Pelo que eu tenho visto e reparado, nessas visitas, só se olha e, por vezes, nem se olha. Passa-se a olhar para o telemóvel.

Não basta que o Guia da Agência que acompanha o Grupo, ou o convidado local, o leve pela Aldeia a um determinado evento, por exemplo onde os Pauliteiros ou os Caretos actuam. É preciso que se mostrem e se expliquem, quer os espaços, quer os “cultos” que aí se celebraram e concelebraram… As Eiras, por exemplo, que deviam ser mantidas em todas as aldeias;  que se explique o espaço, a vida humana, social, laboral, solidária, comunitária, da entreajuda e de intriga mesmo,  que ali se desenvolveu, bem como os instrumentos ou utensílios  de trabalho, o próprio trabalho em si, a diversidade deste, como se desenrolava, desde a terra, onde a espiga se criou, a vinda e a sua transformação na eira, até, dali,  escorrer para a tulha.

É preciso chamar a atenção para o que está patente nas ruas: aquela varanda, aquela porta de janela e gateira, este tanque onde se lavava a roupa, esta Fonte de Mergulho – tantas vezes abandonadas – fazendo até referência às Cantigas de Amigo, onde este tema é bem focado e que terá sido estudado na Escola. “Digades, filha, mia filha velida, por que tardastes na fontana fria?”

Era, sobretudo, junto e em volta destes espaços que estavam a  “Banca de jornais e revistas”, as antenas de Rádio e TVs da época, de que já fiz referência. Os mais distraídos e os aparentemente menos interessados, ficam extasiados ao saberem estas coisas, como tive ocasião de experimentar, inclusive, junto do mesmo repórter atrás referido, bem como de pessoas por perto.

Em todas as Aldeias, muitas destas portas, de carvalho ou de castanheiro, já foram substituídas pelas mais fáceis e baratas portas de alumínio. Que inestético, senão aberrante casamento do alumínio com o frontal de granito! Evidentemente, estes restauros tornam-se incomportáveis para os seus proprietários. Os Presidentes das Juntas de Freguesia e das Câmaras só passam, ou nem isso? Seria impossível um subsídio para as restaurar e manter? O dinheiro que se gasta em infraestruturas que nunca são usadas, aparentemente contruídas, porque “é moda, porque todos têm “…daria para tal.

Isto é História, Cultura, Herança…. Podemos tratar mal uma árvore, desprezá-la até; mas se mantiver as raízes, ela resiste; as árvores genealógicas de hoje, rebentos dessas raízes, se lhas cortarmos… secam.

Tanta coisa para reparar! Até nos dois sentidos do vocábulo!

 

Serafim Falcão é professor aposentado do Ensino Secundário e autor de A Alegria do Evangelho na nossa Paróquia, baseado, motivado e inspirado na exortação apostólica do Papa Francisco. Contacto: s.m.falcao@gmail.com

 

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