Vítimas de abuso sexual queixam-se ao Vaticano contra o núncio apostólico em França

| 12 Jul 19

As queixas de dois franceses chegaram ao Vaticano, que levantou a imunidade diplomática do núncio apostólico em Paris. Foto © AntónIo Marujo

 

Dois homens apresentaram denúncias no sistema judicial do Estado do Vaticano acusando o arcebispo e núncio apostólico em França, Luigi Ventura, de agressão sexual. Este facto levou a Santa Sé a decidir levantar a imunidade diplomática ao arcebispo. Juntamente com outra vítima, Mathieu de la Souchère, um funcionário da prefeitura de Paris acusou Ventura de comportamento inadequado e repetido durante uma recepção de Ano Novo, em Janeiro deste ano.

O incidente foi relatado à presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, e o núncio Ventura foi posteriormente proibido de estar presente em qualquer iniciativa da autarquia, noticiou o La Croix International.

De acordo com esta fonte, o queixoso diz que Ventura o tocou de forma imprópria, repetidamente. As autoridades locais tinham aberto uma averiguação ao caso em Janeiro, mas não tinham ainda questionado o arcebispo até aqui.

A queixa foi apresentada directamente ao padre Hans Zollner, presidente do Centro para a Proteção de Crianças, na Universidade Pontifícia Gregoriana. “Ele foi muito atencioso”, afirmou De la Souchère. “Embora nos recordasse que está a trabalhar principalmente no abuso de crianças, disse que não queria minimizar o que tinha acontecido.”

O núncio argumenta com uma “conspiração”, alegando que, por causa das nomeações de bispos que tem feito, haverá quem queira vingar-se dele.

 

Um padre excomungado em Lyon

A Igreja Católica tem sido, em França, afectada nos últimos anos por diversos casos de abusos sexuais e conduta inapropriada de membros do clero. No fim-de-semana passado, o padre Bernard Preynat, condenado por abuso sexual de menores sobre mais de sete dezenas de escuteiros nas décadas de 1970 e 80, foi excomungado pela arquidiocese de Lyon, na sequência do veredicto de 4 de Julho emitido pelo seu tribunal eclesiástico.

Esta é “apena máxima prevista pela lei da Igreja em tal caso”, disse o tribunal eclesiástico (composto de três padres e responsável pelo estudo do caso criminal), citado numa outra notícia do La Croix International.

A sanção justifica-se, acrescenta a declaração, “em vista dos factos e sua recorrência, o grande número de vítimas, o facto de o padre Bernard Preynat ter abusado da autoridade que lhe é conferida a ele pela sua posição dentro do grupo de escuteiros que ele fundou e liderou desde a sua criação”.

Preynat, 74 anos, encontrava-se já suspenso de exercer o ministério presbiteral. Tem agora cerca de um mês para recorrer da decisão para o tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, no final de um processo que dura há já mais de um ano.

O julgamento civil deve começar em meados do próximo ano civil e cada vítima deve vir a pretender uma indemnização de 10 mil euros, segundo testemunhos recolhidos pelo Mediapart e que, segundo uma das vítimas, deve ser destinado a associações católicas de apoio social.

Em Março, na sequência da condenação a que o tribunal o sujeitou por encobrimento das acções de Bernard Preynat, o cardeal Philippe Barbarin, na altura arcebispo de Lyon, pediu ao Papa a resignação do cargo, em consequência da condenação por encobrimento.

Outro bispo francês, Hervé Gaschignard, resignara em 2017 do lugar de bispo de Dax (sudoeste do país) devido a “atitudes pastorais inapropriadas” em relação a menores, exercendo actualmente funções de serviço na diocese de Grenoble.

Os relatos de situações relativas a agressões sexuais têm abrangido várias comunidades católicas em França. Na comunidade monástica de Taizé, como o 7MARGENS noticiou, o prior foi comunicar às autoridade a existência de casos antigos e houve mesmo situações em que o sucedido motivou o suicídio de vários padres.

O Papa Francisco presidiu em Fevereiro a um encontro extraordinário de bispos em Roma, para discutir a forma como a Igreja Católica deve abordar e posicionar-se perante os casos de abusos sexuais em todo o Mundo, pouco depois de ter sido tomado conhecimento de uma ordem religiosa em França que fazia das freiras “escravas sexuais”.

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