"Colaboração histórica"

Vítimas de abusos e padres unem-se para propor novas leis de proteção de menores na Igreja

| 17 Jun 2024

Reunião de sobreviventes de abusos com especialistas da Igreja. Foto Simone PadovaniEnding Clergy Abuse

Foi na semana passada que os líderes da organização internacional de vítimas Ending Clergy Abuse (ECA) se reuniram com o padre jesuíta Hans Zollner e outros especialistas em proteção de menores. Foto © Simone Padovani/Ending Clergy Abuse

É uma parceria inédita: pela primeira vez, uma rede global que representa sobreviventes de abusos sexuais no seio da Igreja Católica em todo o mundo está a unir forças com alguns dos maiores especialistas em proteção de menores dentro da própria Igreja. Em conjunto, começaram já a desenvolver uma proposta de novas regras a implementar na instituição para que a “tolerância zero” anunciada pelo Papa Francisco se torne, verdadeira e definitivamente, uma realidade.

Foi na semana passada que os líderes da organização internacional de vítimas Ending Clergy Abuse (ECA) se reuniram pela primeira vez com o padre jesuíta Hans Zollner (que dirige o Instituto de Antropologia da Pontifícia Universidade Gregoriana e que em março do ano passado se demitiu da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores), o bispo Luis Manuel Alí Herrera (atual secretário da referida comissão), o também jesuíta Ulrich Rhode (especialista em direito canónico), e ainda diversos embaixadores junto da Santa Sé, bem como vários consultores jurídicos ligados às associações de vítimas.

Após três dias de debate e reflexão, o grupo conseguiu chegar a “um consenso em torno de mudanças radicais nas leis, políticas e práticas da Igreja Católica, incluindo: a remoção permanente do ministério de qualquer clérigo que tenha abusado de uma criança ou de um adulto vulnerável; a criação de uma agência independente com autoridade para conduzir investigações e emitir recomendações e relatórios públicos; a transparência obrigatória em todo o processo; e penalidades severas para qualquer bispo ou funcionário da Igreja Católica que não cumpra esta política”, pode ler-se no comunicado divulgado pela ECA.

O texto oficial da proposta será ainda trabalhado e concluído ao longo do verão, “com a intenção de apresentá-lo antes da fase final do Sínodo sobre a Sinodalidade do Papa Francisco, em outubro”, adianta a rede internacional de associações de vítimas.

 

Em Portugal, “em algumas dioceses há progresso, noutras não”, diz Zollner

Pedro Strecht, coordenador da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais Contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa; e o padre jesuíta Hans Zollner, responsável da Protecção de Crianças no Vaticano, no colóquio organizado pela comissão na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, 10 de Maio 2022. Foto © Ecclesia/HM

Pedro Strecht, coordenador da Comissão Independente, e o padre Hans Zollner, em maio de 2022. O jesuíta mantém o contacto com a realidade portuguesa. Foto © Ecclesia/HM

A ideia de organizar este encontro surgiu na sequência de uma reunião entre alguns elementos da ECA e o padre Hans Zollner, em setembro do ano passado, conta o jesuíta ao 7MARGENS, a partir de Roma. “Os membros da ECA vieram levantar as suas vozes no início do Sínodo sobre a Sinodalidade e solicitaram um encontro comigo. Nessa ocasião, entregaram um rascunho do seu pedido de ‘tolerância zero’, ao qual respondi com a ajuda de especialistas jurídicos, e depois concordámos que seria útil discuti-lo em profundidade”, explica.

Para Zollner, esta foi “uma interação muito boa e de confiança ao longo de três dias densos e frutíferos”. O ex-membro da Comissão Pontifícia de Proteção de Menores considera “compreensível” o facto de ainda existirem “muitas queixas sobre a falta de transparência, responsabilização e conformidade na forma como a Igreja lida com alegações de abuso e de encobrimento de abusos”.

E reconhece que, da parte da Igreja, há ainda muito a fazer. “Muitos bispos e provinciais compreenderam a profundidade das feridas das vítimas e dos sobreviventes depois de ouvirem as suas histórias de traição, desesperança e raiva. Contudo, não há garantias de que, depois de tal encontro, um bispo faça sempre o que é certo. A mudança de mentalidade não ocorre num só momento, mas apenas se o impacto penetrar e transformar a mente e o coração”, afirma o jesuíta.

Quanto à situação em Portugal, Zollner diz manter o contacto com alguns dos membros da Comissão Independente, que elaborou o relatório apresentado em fevereiro do ano passado. “O que ouço deles indica um quadro misto, como acontece sempre após esses relatórios: em algumas dioceses há progresso, noutras não”, partilha. “O que é mais necessário – defende – é um cuidado eficaz para com aqueles que foram afetados por abusos: muitas vítimas dizem que ser ouvidas é mais importante do que dinheiro”.

No entanto, sublinha ainda o especialista em proteção de crianças, “por vezes entrar verdadeira e continuamente num processo de escuta parece, para alguns líderes e fiéis da Igreja, ser mais dispendioso e difícil de conseguir do que pagar dinheiro”.

E conclui: “a verdadeira conversão – sobre a qual São João Paulo II e Bento XVI falaram logo no início em relação à crise dos abusos – só acontece quando se está preparado para caminhar com as vítimas”.

 

Grupo Vita divulga novo relatório 

Na tarde desta terça-feira, 18 de junho, o Grupo Vita irá divulgar o seu segundo relatório de atividades. O evento está agendado para as 14h30, em Fátima, e contará com transmissão em direto no canal de Youtube da agência Ecclesia.

Criado em abril de 2023 pela Conferência Episcopal Portuguesa para acolher denúncias de abusos, acompanhar vítimas e agressores, e promover a sensibilização e formação sobre a problemática da violência sexual no contexto da Igreja, o organismo recebeu, nos primeiros 12 meses de funcionamento, 105 denúncias, com 39 pedidos de reparação financeira, adiantou já a sua coordenadora, a psicóloga Rute Agulhas, em entrevista emitida este domingo no programa 70×7.

A psicóloga destacou que, “na grande maioria das situações”, as vítimas “falam na primeira pessoa” sobre os abusos que sofreram. “Há aqui uma mudança de paradigma que é importante, esta cultura de desocultar o tema, tirá-lo da gaveta dos tabus e passarmos a falar dele de uma forma clara”, referiu.

 

Texto com o contributo de António Marujo.

 

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