Carta aberta à Conferência Episcopal

Vítimas de abusos indignadas com “inação” dos bispos

| 8 Nov 2023

Abusos

Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens

 

Quase nove meses depois da apresentação do relatório da Comissão Independente sobre os abusos sexuais no seio da Igreja Católica em Portugal, há vítimas que se dizem “indignadas” com a inação da instituição. Enviaram, por isso, uma “Carta Aberta aos Bispos Portugueses”, na qual dizem continuar à espera de “um pedido de perdão humilde e sincero” e pedem “reparações e compensações económicas”.

“Muito poucas foram as ações desenvolvidas e as atitudes concretas levadas a cabo” relativamente aos abusos sexuais na Igreja desde a apresentação daquele relatório, pode ler-se na missiva, escrita pela Coração Silenciado – Associação de vítimas de abuso na Igreja em Portugal, e à qual o 7MARGENS teve acesso.

“Dos Senhores esperamos um pedido de perdão humilde e sincero. Não daqueles publicados nos sites das vossas dioceses sob a pressão da Comunicação Social face ao relatório da Comissão Independente, mas sim dos que têm a capacidade de transparecer sincero arrependimento envolto em ações concretas”, dizem as vítimas aos bispos portugueses.

E questionam: “Quantos de vós já se reuniram, ao jeito do Papa Francisco, com as vítimas das vossas dioceses? Quantos de vós já entraram em contacto com a nossa Associação? (…) Quantos de vocês já se reuniu com as nossas famílias e lhes pediu perdão?” No texto, adianta ainda a Coração Silenciado que “a CEP até hoje não formalizou nenhum convite para diálogo, para saber o que sentem as vítimas, o que precisam, o que esperam da Igreja em Portugal”.

Mas “mesmo que os pedidos de desculpa se possam vir a multiplicar”, as vítimas não terão forma de saber se estes são sinceros “ou apenas estratégias para abafar o assunto”, assinala a carta. E por isso a associação de vítimas defende que a “reparação” passe também por “compensações económicas”, que considera ser “um assumir público de que reconhecem cada vítima enquanto tal”, e “a materialização da verdade até agora não assumida pela Igreja Portuguesa”. Ou seja: “Cada compensação terá como significado: eu te reconheço como vítima, não liderei de modo a proteger-te, o pecado cometido contra ti cai também sobre mim porque fui conivente”, explica a missiva.

 

Grupo Vita insuficiente e a repensar

Conferência Episcopal Portuguesa

Assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, no ano passado, em Fátima: “tristeza, desagrado e indignação”, diz a Associação sobre os bispos. Foto © Agência Ecclesia/PR

 

A carta aberta, enviada já na semana passada sem que até ao momento tenha sido obtida qualquer resposta, refere-se ainda ao Grupo Vita, para defender que o compromisso dos bispos “de erradicação deste crime” não pode passar “apenas” pela criação do mesmo.

“E já agora, colocarem vítimas e abusadores com o mesmo Grupo deixa todas as vítimas desconfortáveis e é uma atitude de revitimização”, escreve a associação Coração Silenciado, aproveitando para questionar: “podem esclarecer se vão trabalhar com todos os que são denunciados ou só com os que são condenados?”

Recordando que, segundo as informações de que dispõe, os padres “que foram afastados após a saída do relatório voltaram a ser integrados passado pouco tempo”, à exceção dos da diocese de Braga, a associação reconhece que esta é “a vários níveis”, a “diocese que está a ter um procedimento mais digno para com as vítimas”.

O grupo manifesta, por isso, “tristeza, desagrado e indignação” pelo modo como a generalidade dos bispos portugueses “têm lidado com o tema dos abusos sexuais”, citando várias vezes o recente documento da Pontifícia Comissão de Proteção de Menores na Igreja [ver 7MARGENS], e terminando com uma das conclusões referidas na Carta da 16ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos ao Povo de Deus: “Acima de tudo, a Igreja do nosso tempo tem o dever de escutar, em espírito de conversão, aqueles que foram vítimas de abusos cometidos por membros do corpo eclesial e de se empenhar concreta e estruturalmente para que isso não volte a acontecer”.

 

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