
Ao fazer esta peregrinação até ao Vaticano, o grupo, cujo elemento mais velho acaba de cumprir 80 anos, quer “ajudar a garantir que as vítimas de abuso sejam reconhecidas, na Igreja ou em qualquer outro lugar na sociedade”. Foto © Arquidiocese de Munique e Freising.
É impossível ficar indiferente à passagem deles e quem sabe quem são e ao que vão aplaude-os e incentiva-os a continuar: cerca de 50 pessoas – das quais 15 foram vítimas de abusos sexuais no seio da Igreja Católica quando eram menores, e as restantes são familiares, amigos e conhecidos que apoiam a sua causa – partiram de bicicleta no sábado, 6 de maio, de Munique, e contam estar na Praça de Sâo Pedro, em Roma, no dia 17, para a audiência com o Papa. Farão 720 quilómetros e subirão 4.500 metros de altitude para irem perguntar a Francisco: “Quem cura os nossos corações?”.
Na bagagem, estes peregrinos levam uma carta e uma pequena escultura em forma de coração, que pretende ser símbolo dos seus corações e dos de todos aqueles que foram abusados. Richard Kick, uma das vítimas que é hoje porta-voz do Conselho Consultivo para Vítimas de Abusos de Munique e foi um dos mentores desta iniciativa, descreve assim o estado em que se encontra o seu próprio coração: “rasgado, destruído, pontiagudo, partido e transparente”, tal como o da escultura que levam com eles.
Mas a pequena escultura de 20 centímetros (inspirada numa maior, com cinco metros de altura, concebida pelo artista Michael Pendry) representa também o coração da própria Igreja, que tantas vezes esteve e está “gelado” ou foi e ainda é “de pedra”. Ao fazer esta peregrinação até ao Vaticano, o grupo, cujo elemento mais velho acaba de cumprir 80 anos, quer “ajudar a garantir que as vítimas de abuso sejam reconhecidas, na Igreja ou em qualquer outro lugar na sociedade”, explica Richard Kick, citado pelo site Katholisch.de.

O grupo leva na bagagem uma pequena escultura, em forma de coração, concebida pelo artista Michael Pendry (na imagem à direita). Foto © Arquidiocese de Munique e Freising.
“Estamos a caminho. Igreja, estás connosco?” é o lema da peregrinação e a frase que este grupo alemão espera repetir várias vezes ao longo do trajeto, à medida que for parando em diversas igrejas para conversar com os respetivos responsáveis sobre o modo como estão a lidar com o tema dos abusos e a fazer para apoiar as vítimas e impedir que novos casos se repitam.
A iniciativa conta com o apoio financeiro e logístico da arquidiocese de Munique e Freising. “Estou impressionado com este projeto de peregrinação em bicicleta e tenho grande respeito por todos os envolvidos”, disse o vigário geral da arquidiocese, Christoph Klingan, ao despedir-se dos participantes no passado sábado. “Os afetados enfrentam o que lhes foi feito a eles e a muitos outros na Igreja. Estão muito empenhados em garantir que haja uma discussão mais aprofundada e trabalham, juntamente connosco, no desenvolvimento de processos de prevenção. Somos muito gratos às vítimas por este diálogo e intercâmbio”, concluiu.
As dez etapas da peregrinação, cada uma com cerca de 70km, podem ser acompanhadas através das redes sociais da iniciativa e os organizadores convidam todos aqueles que possam e queiram a juntar-se ao grupo durante uma parte do percurso.
No dia após a audiência com o Papa, antes do regresso a Munique, os peregrinos têm ainda previsto um encontro com o padre jesuíta Hans Zolner, que no passado mês de março se demitiu do cargo que ocupava há nove anos na Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores (CPPM) e tornou pública uma cerrada crítica ao modo de funcionamento daquele organismo do Vaticano.










