O Grupo VITA apresentou um “relatório estratégico” elaborado com o contributo de vítimas de violência sexual, exigindo à Igreja Católica o fim de uma cultura de “secretismo” e alterações estruturais na prevenção de abusos.
“A proteção é entendida como o resultado de regras claras, estruturas verificáveis e ambientes que reduzam oportunidades de secretismo, assegurando que a segurança das crianças, jovens e pessoas vulneráveis não depende de fatores informais ou imprevisíveis”, pode ler-se no documento divulgado no sábado em Coimbra e enviado à Agência ECCLESIA.
Já em declarações à TSF, a coordenadora do Grupo Vita, Rute Agulhas, explicou que as vítimas pedem um “acompanhamento” de todas as pessoas que “colaboram” com a Igreja Católica, desde logo durante a seleção e formação das mesmas. E um “maior escrutínio e transparência” durante os processos. “A Igreja ainda é muitas vezes pautada por alguma opacidade na forma como os procedimentos decorrem”, denunciou.
O relatório dirigido à Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e à Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP) propõe uma mudança de paradigma nas dinâmicas de poder e a adoção de políticas de transparência em todos os espaços pastorais. “Em matéria de prevenção, os participantes defendem uma abordagem sistémica, visível e coerente, que ultrapassa a lógica da boa vontade individual”, pode ler-se.
Os participantes defendem a implementação de critérios rigorosos na seleção dos agentes pastorais. “A proteção de crianças, jovens e adultos vulneráveis exige transparência, coerência, formação rigorosa, supervisão contínua e práticas verificáveis. Exige também que a Igreja reconheça que a confiança só se reconstrói com gestos concretos, decisões consequentes e compromisso visível com a verdade e com a dignidade humana”, indica o documento.

Apresentação do relatório englobou a inauguração da exposição A Arte de Sobre.VIVER, composta por obras artísticas da autoria dos próprios sobreviventes. Foto © Agência ECCLESIA/HM
A estrutura hierárquica “vertical” e o “distanciamento” do clero são identificados no documento como fatores organizacionais que inibem as denúncias e intensificam a vulnerabilidade das vítimas perante eventuais agressores. “O que emerge é um apelo claro a uma Igreja mais responsável, mais escrutinável e mais alinhada com a dignidade humana e a proteção efetiva das pessoas vulneráveis”, assinala o texto.
O trabalho de reflexão desenvolvido ao longo dos últimos oito meses resultou igualmente na criação de diretrizes práticas para a organização de encontros restaurativos com representantes eclesiais. “Nenhuma reparação verdadeira será possível sem coragem para olhar a realidade de frente”, sublinha o testemunho de uma vítima incluído na publicação, exigindo o reconhecimento claro do dano provocado.
Salvaguardar apenas a “imagem pública” da Igreja
A apresentação decorreu no Pavilhão Centro de Portugal e englobou a inauguração da exposição A Arte de Sobre.VIVER, composta por obras artísticas da autoria dos próprios sobreviventes.
Esta mostra expõe o sofrimento dos sobreviventes de abusos sexuais, que reclamam uma transformação efetiva e célere das instituições católicas.
Uma das vítimas presentes no evento lamentou a inação estrutural, acusando algumas autoridades eclesiásticas de procurarem apenas salvaguardar a “imagem pública” da Igreja e de limitar a auscultação de quem sofreu abusos.
“Começa a mudar, mas está a mudar muito lentamente. Eu estava mesmo com esperança de que isto mudasse mais rapidamente, que houvesse um reconhecimento de que as coisas têm de mudar mesmo”, considerou o entrevistado, criticando a rejeição de pedidos de compensação. “São situações em que é difícil arranjar provas”, insistiu.
“Compromisso que se traduza depois em ações”
Já a coordenadora do Grupo VITA assinalou a urgência de uma alteração de procedimentos, advertindo que, mais do que palavras, é necessário “um compromisso que se traduza depois em ações”.
“Há ainda muita falta de transparência, muita falta de prestação de contas, muita opacidade na forma como alguns processos são conduzidos e, naturalmente, é preciso abrir, é preciso esta transparência, esta visibilidade, esta verdade, é uma palavra que as vítimas e sobreviventes falam muito, a verdade, a transparência, a genuinidade e a acessibilidade”, exigiu Rute Agulhas.
Quanto ao futuro do organismo, a coordenadora disse aguardar “com serenidade a decisão da Conferência Episcopal Portuguesa e também dos Institutos Religiosos”.
O magistrado judicial Paulo Guerra juntou-se à iniciativa para apelar à superação das falhas do passado através de novas lógicas de proteção. “É a altura de emendar a mão, é a altura de dizer ‘o nosso ADN não é este’”, declarou o especialista em direitos da infância.










