AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Rute Agulhas, José Ornelas, Manuel Barbosa e Célia Cabecinhas em congresso sobre abusos na Igreja organizado pelo Grupo Vita em Fátima, nov 2025. Foto Agência ECCLESIAMC
Na passada quinta-feira, decorreu em Fátima um congresso promovido pelo Grupo Vita. Foto © Agência ECCLESIA/MC

Abusos na Igreja Católica

Vítimas “indignadas” com processo de compensações, Grupo Vita nega acusações

| 02/12/2025

A Associação Coração Silenciado, que reúne vítimas de abuso sexual na Igreja Católica, publicou esta segunda-feira, 1 de dezembro, um comunicado em que manifesta “preocupação e indignação” com o processo de atribuição de compensações financeiras, tecendo duras críticas ao modo como este tem decorrido. O Grupo Vita – organismo da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) – reagiu, ao final do dia, com uma nota enviada aos jornalistas, na qual nega as acusações feitas pela associação.

Segundo o comunicado da associação de vítimas, “a cada nova etapa [do processo de análise e compensação das vítimas de violência sexual no contexto da Igreja Católica Portuguesa] torna-se mais evidente um padrão de opacidade, lentidão e desrespeito pelas pessoas que sofreram abusos, contrariando frontalmente os princípios de verdade, transparência e responsabilidade
que a CEP anuncia defender”.

A Coração Silenciado lamenta, em particular, que não tenha sido ainda divulgada “qualquer informação quanto ao montante global disponível para a reparação das cerca de 90 pessoas já reconhecidas pela Igreja” e que não seja dado às vítimas em causa “acesso imediato e integral aos pareceres que lhes dizem respeito”, de modo a que o processo de compensação “se torne plenamente transparente, digno e
centrado nos sobreviventes”.

“Estes pareceres serão conhecidos pelos bispos e integrarão a base de decisão para determinar os valores compensatórios. A vítima, porém, continua impedida de saber o que é escrito sobre a sua vida, o seu sofrimento e a sua credibilidade”, sublinha a associação, recordando que “o Vaticano já alertou para a necessidade de incluir representantes das vítimas nos processos nacionais; ainda assim, em Portugal persiste um modelo fechado sobre si próprio, que decide em causa própria e sem escrutínio”, numa alusão às recomendações feitas em outubro pela Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores [ver 7MARGENS].

No comunicado, a associação critica ainda o facto de todo o processo estar a avançar “com uma lentidão que, para as vítimas, se traduz em ansiedade, desgaste e retraumatização” e especifica que “as entrevistas foram conduzidas de forma excessivamente inquisitorial: sem acesso a telemóveis, caneta ou papel por parte das vítimas, obrigando a repetir os mesmos relatos em sessões que chegaram a prolongar-se por oito horas”.

O comunicado surge depois de, na passada quinta-feira, ter decorrido em Fátima um congresso promovido pelo Grupo Vita, durante o qual o organismo divulgou que o número de pedidos de indemnizações aumentou para 93 e que o processo de análise e entrevistas deverá estar concluído no início de 2026 para que depois a CEP avance para a atribuição das compensações. Neste congresso, foi notada a ausência da voz das vítimas, ao que Rute Agulhas, coordenadora do Vita, argumentou que não se pretendeu ali expô-las publicamente. A mesma coordenadora referiu que a associação Coração Silenciado esteve lá representada, mas de acordo com o comunicado “tal não corresponde à verdade. A Associação não foi sequer convidada para o evento. De facto, esteve lá uma pessoa desta
associação meramente a título individual”.

 

“Muitas vítimas não se reconhecem na forma como a Associação Coração Silenciado tem atuado”

É também Rute Agulhas que assina a nota do Grupo Vita aos jornalistas, e na qual começa por relembrar que “o processo de atribuição das compensações financeiras é da responsabilidade da CEP, sendo que o Grupo Vita apenas colaborou na redação do regulamento e integrou as Comissões de Instrução”.

“No entanto, e tendo em conta que as afirmações colocam em causa o trabalho desenvolvido, não pode o Grupo Vita deixar de se pronunciar, uma vez que não se revê no comunicado da referida Associação”, prossegue o texto, reiterando que “o Grupo Vita cumpriu o prazo definido para a elaboração dos pareceres (31 de agosto de 2025)” e que “desde então, o processo tem estado a decorrer com o Grupo de Fixação de Montantes e com a CEP”.

Sobre as entrevistas realizadas pelas Comissões de Instrução, Rute Agulhas assegura que “em caso algum, uma entrevista teve a duração de oito horas”. “Existiram, sim, situações em que foi necessário realizar mais do que uma entrevista (duas). De uma forma geral, e em média, as entrevistas duraram cerca de duas horas e meia”, esclarece a coordenadora do Grupo.

“Importa ainda clarificar que, durante todo o processo, foi sempre permitido o uso de telemóveis. Apenas após o lamentável incidente em que o Sr. António Grosso tentou gravar a sua entrevista sem conhecimento e sem consentimento dos demais participantes, os elementos da Comissão de Instrução passaram eles próprios a desligar os telemóveis e a solicitar às pessoas entrevistadas que também o fizessem, como forma de salvaguarda da privacidade e da segurança de todos”, acrescenta.

Na nota, Agulhas assegura também que “nunca foram as vítimas impedidas de usar papel e caneta. Pelo contrário, várias pessoas escreveram e tiraram notas durante as entrevistas, o que demonstra a total liberdade e autonomia que sempre lhes foi assegurada”.

A psicóloga informa ainda que “no passado dia 26 de outubro, o Grupo Vita contactou, por e-mail, a Associação Coração Silenciado, reconhecendo a relevância da sua missão e convidando-a a integrar o projeto Sobre.VIVER. Até ao momento, não recebemos qualquer resposta por parte da referida Associação”.

“Queremos também sublinhar que muitas vítimas e sobreviventes não se reconhecem na forma como a Associação Coração Silenciado tem atuado. Por isso, deixamos um apelo sincero: que possamos construir juntos uma abordagem positiva e construtiva, feita de diálogo e de trabalho em parceria, sempre com o foco em apoiar quem mais precisa e merece ser acolhido”, conclui a nota.

O Grupo VITA pode ser contactado através da linha de atendimento telefónico (91 509 0000) ou do formulário para sinalizações, disponível no site www.grupovita.pt.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This