A Associação Coração Silenciado, que reúne vítimas de abuso sexual na Igreja Católica, publicou esta segunda-feira, 1 de dezembro, um comunicado em que manifesta “preocupação e indignação” com o processo de atribuição de compensações financeiras, tecendo duras críticas ao modo como este tem decorrido. O Grupo Vita – organismo da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) – reagiu, ao final do dia, com uma nota enviada aos jornalistas, na qual nega as acusações feitas pela associação.
Segundo o comunicado da associação de vítimas, “a cada nova etapa [do processo de análise e compensação das vítimas de violência sexual no contexto da Igreja Católica Portuguesa] torna-se mais evidente um padrão de opacidade, lentidão e desrespeito pelas pessoas que sofreram abusos, contrariando frontalmente os princípios de verdade, transparência e responsabilidade
que a CEP anuncia defender”.
A Coração Silenciado lamenta, em particular, que não tenha sido ainda divulgada “qualquer informação quanto ao montante global disponível para a reparação das cerca de 90 pessoas já reconhecidas pela Igreja” e que não seja dado às vítimas em causa “acesso imediato e integral aos pareceres que lhes dizem respeito”, de modo a que o processo de compensação “se torne plenamente transparente, digno e
centrado nos sobreviventes”.
“Estes pareceres serão conhecidos pelos bispos e integrarão a base de decisão para determinar os valores compensatórios. A vítima, porém, continua impedida de saber o que é escrito sobre a sua vida, o seu sofrimento e a sua credibilidade”, sublinha a associação, recordando que “o Vaticano já alertou para a necessidade de incluir representantes das vítimas nos processos nacionais; ainda assim, em Portugal persiste um modelo fechado sobre si próprio, que decide em causa própria e sem escrutínio”, numa alusão às recomendações feitas em outubro pela Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores [ver 7MARGENS].
No comunicado, a associação critica ainda o facto de todo o processo estar a avançar “com uma lentidão que, para as vítimas, se traduz em ansiedade, desgaste e retraumatização” e especifica que “as entrevistas foram conduzidas de forma excessivamente inquisitorial: sem acesso a telemóveis, caneta ou papel por parte das vítimas, obrigando a repetir os mesmos relatos em sessões que chegaram a prolongar-se por oito horas”.
O comunicado surge depois de, na passada quinta-feira, ter decorrido em Fátima um congresso promovido pelo Grupo Vita, durante o qual o organismo divulgou que o número de pedidos de indemnizações aumentou para 93 e que o processo de análise e entrevistas deverá estar concluído no início de 2026 para que depois a CEP avance para a atribuição das compensações. Neste congresso, foi notada a ausência da voz das vítimas, ao que Rute Agulhas, coordenadora do Vita, argumentou que não se pretendeu ali expô-las publicamente. A mesma coordenadora referiu que a associação Coração Silenciado esteve lá representada, mas de acordo com o comunicado “tal não corresponde à verdade. A Associação não foi sequer convidada para o evento. De facto, esteve lá uma pessoa desta
associação meramente a título individual”.
“Muitas vítimas não se reconhecem na forma como a Associação Coração Silenciado tem atuado”
É também Rute Agulhas que assina a nota do Grupo Vita aos jornalistas, e na qual começa por relembrar que “o processo de atribuição das compensações financeiras é da responsabilidade da CEP, sendo que o Grupo Vita apenas colaborou na redação do regulamento e integrou as Comissões de Instrução”.
“No entanto, e tendo em conta que as afirmações colocam em causa o trabalho desenvolvido, não pode o Grupo Vita deixar de se pronunciar, uma vez que não se revê no comunicado da referida Associação”, prossegue o texto, reiterando que “o Grupo Vita cumpriu o prazo definido para a elaboração dos pareceres (31 de agosto de 2025)” e que “desde então, o processo tem estado a decorrer com o Grupo de Fixação de Montantes e com a CEP”.
Sobre as entrevistas realizadas pelas Comissões de Instrução, Rute Agulhas assegura que “em caso algum, uma entrevista teve a duração de oito horas”. “Existiram, sim, situações em que foi necessário realizar mais do que uma entrevista (duas). De uma forma geral, e em média, as entrevistas duraram cerca de duas horas e meia”, esclarece a coordenadora do Grupo.
“Importa ainda clarificar que, durante todo o processo, foi sempre permitido o uso de telemóveis. Apenas após o lamentável incidente em que o Sr. António Grosso tentou gravar a sua entrevista sem conhecimento e sem consentimento dos demais participantes, os elementos da Comissão de Instrução passaram eles próprios a desligar os telemóveis e a solicitar às pessoas entrevistadas que também o fizessem, como forma de salvaguarda da privacidade e da segurança de todos”, acrescenta.
Na nota, Agulhas assegura também que “nunca foram as vítimas impedidas de usar papel e caneta. Pelo contrário, várias pessoas escreveram e tiraram notas durante as entrevistas, o que demonstra a total liberdade e autonomia que sempre lhes foi assegurada”.
A psicóloga informa ainda que “no passado dia 26 de outubro, o Grupo Vita contactou, por e-mail, a Associação Coração Silenciado, reconhecendo a relevância da sua missão e convidando-a a integrar o projeto Sobre.VIVER. Até ao momento, não recebemos qualquer resposta por parte da referida Associação”.
“Queremos também sublinhar que muitas vítimas e sobreviventes não se reconhecem na forma como a Associação Coração Silenciado tem atuado. Por isso, deixamos um apelo sincero: que possamos construir juntos uma abordagem positiva e construtiva, feita de diálogo e de trabalho em parceria, sempre com o foco em apoiar quem mais precisa e merece ser acolhido”, conclui a nota.
O Grupo VITA pode ser contactado através da linha de atendimento telefónico (91 509 0000) ou do formulário para sinalizações, disponível no site www.grupovita.pt.










