“Infelizmente, há muitos católicos na extrema-direita política, esquecendo que alguns dos seus princípios e práticas são anticatólicos e contrários à Doutrina Social da Igreja e ao Evangelho”, denuncia o padre Vítor Melícias, franciscano cujo percurso de vida se desenvolveu pelas áreas da solidariedade social e do mutualismo, no novo episódio do programa Rostos e Rumos, do 7MARGENS e da TSF.
Melícias, que foi provincial dos franciscanos portugueses e esteve na presidência da União dos Frades Menores da Europa, assinalou que isso está a acontecer atualmente no nosso país, onde “aparecem pessoas que se dizem católicas, que até levam o fotógrafo consigo para tirar a fotografia na missa” e ao mesmo tempo “estão a defender coisas que são anti-católicas”, a espalhar “mensagens de ódio, de expulsão, de esquecer o outro, de ignorar a pessoa humana e ignorar a sua dignidade”.
Na entrevista, o frade franciscano defende por isso que todos os portugueses que têm “a fé de Jesus Cristo” deverão “suportar mais a cultura de acolhimento”. “Nós que emigrámos e desejámos ser bem acolhidos temos a obrigação, não só de consciência, mas também histórica, de ser um povo de acolhimento”, apela.
Vítor Melícias nasceu no seio de uma família pobre, a 25 de Julho de 1938, na freguesia de Ramalhal, em Torres Vedras. Foram o ambiente religioso da aldeia e o apoio de um tio, franciscano e académico ilustre, que lhe sugeriram a vocação na ordem de Francisco de Assis.
Tinha 11 anos quando ingressou no Seminário de Montariol, em Braga. Fez Filosofia e Teologia no Seminário da Luz, em Lisboa, e foi ordenado padre em 1962. Licenciou-se depois em Roma, em Direito Canónico, em 1966. Como bolseiro da Fundação Gulbenkian, viria a concluir a licenciatura em Direito Civil na Universidade Clássica de Lisboa, em 1973.
Hoje, preocupa-o o afastamento dos jovens da Igreja Católica e responsabiliza a instituição por isso. “A meu ver, o nosso próprio clero – e eu sou clérigo – não tem tido suficiente sabedoria para motivar as pessoas, e designadamente os mais jovens, que se refugiam nos telemóveis”, afirma nesta entrevista. E reconhecendo que “os jovens, quando são bem motivados, aparecem e participam” – como foi possível verificar na Jornada Mundial da Juventude – o frade franciscano considera que “quem tem de rever alguma coisa neste tipo de problema é antes de mais a Igreja como organização e sobretudo os formadores, e sobretudo o clero. E talvez começar por dentro, porque hoje há clero jovem que precisa de ser reformado!”, acrescenta.

O padre Vítor Melícias e o padre e jornalista Manuel Vilas Boas, no final da gravação do programa. Foto José Guerreiro/TSF
O franciscano – que dirigiu a Liga dos Bombeiros Portugueses e a União das Misericórdias Portuguesas e foi ainda Comissário para o apoio à transição para a Independência de Timor-Leste – confessa-se ainda “em expetativa” relativamente ao Papa Leão XIV e sente que este “está a ser cuidadoso demais” quanto à “dinâmica de sinodalidade lançada pelo Papa Francisco”, talvez “por receio do que eles chamam um cisma”. “Sinto que o Papa Leão é um homem de valor, é um homem com os pés assentes na terra, mas eu gostaria que já fosse mais à frente”, assume Vítor Melícias.
A entrevista completa irá para o ar neste domingo, 14 de dezembro, às 10h00, e poderá ser ouvida novamente na terça-feira, 16, às 23h00. Ficará também disponível na página da TSF, em https://www.tsf.pt/programa/rostos-e-rumos.










