
“Se a palavra “unabated” constar dos relatórios finais da COP28, o mais provável é que as companhias petrolíferas encontrem justificação para continuarem a produzir e vender combustíveis fósseis, culpando a incapacidade das tecnologias de captura de dióxido de carbono de fazerem a sua parte (sabendo de antemão que estão ainda longe se serem implementadas com a mesma intensidade).” Foto: Direitos Reservados
Um dos maiores problemas ambientais e dos mais negligenciados é a nossa linguagem. Numa recente Newsletter do jornal britânico The Guardian, o jornalista George Monbiot escrevia que — «Um dos problemas que enfrentamos ao convencer as pessoas a amar e proteger o mundo vivo é a linguagem na qual esse amor é expresso.» — Palavras como “ambiente” ou “alterações climáticas” não se vêem, nem se sentem e começam a soar como se chamássemos a um exército invasor de “visitas inesperadas”. A linguagem muda o nosso cérebro e através da linguagem podemos condicionar a nossa capacidade de agir.
Durante a COP28, o seu presidente, o Sultão Al-Jaber afirma ser necessário transitar para «um sistema de energia livre de combustíveis fósseis intensos.», ou na versão original — “unabated fossil fuels” — o que implica segundo a leitura da jornalista Somini Sengupta para o The New York Times — que «a produção de combustíveis fósseis pode continuar desde que as suas emissões sejam capturadas. O problema é que a adopção em larga escala desse tipo de tecnologia de captura de carbono ainda é uma possibilidade distante por enquanto.» — Ou seja, a linguagem é manipulada para que ninguém nos diga que não dissemos alguma coisa sobre o assunto, apesar daquilo que dissemos não significar grande coisa.
Numa aula que dei, havia uma dedução que tinha repetido várias vezes em casa e o resultado não dava o mesmo que encontrava nos livros de texto. Referi esta situação aos mais de 60 alunos naquele anfiteatro, e diante de todos repeti a dedução. Todos acreditaram que os livros de texto estavam errados porque o Prof. Miguel Panão acabava de nos demonstrar com a sua linguagem persuasiva como estavam errados. Nem um só aluno notou que somei algo uma vez, quando devia ter somado duas vezes. Sem ter essa intenção, as minhas palavras haviam alterado a percepção que aqueles alunos tinham da realidade. Ao aperceber-me do meu erro, partilhei-o com eles e usei aquela experiência para justificar-lhes a importância de questionarem mais aquilo que as pessoas que consideram ter mais autoridade na matéria lhes dizem. O mesmo se passa com as questões relacionadas com a influência humana sobre as dinâmicas planetárias que começarão em breve a afectar cada vez mais as nossas comunidades.
Se a palavra “unabated” constar dos relatórios finais da COP28, o mais provável é que as companhias petrolíferas encontrem justificação para continuarem a produzir e vender combustíveis fósseis, culpando a incapacidade das tecnologias de captura de dióxido de carbono de fazerem a sua parte (sabendo de antemão que estão ainda longe se serem implementadas com a mesma intensidade). O uso de palavras como “unabated” possui o efeito de desviar a atenção dos participantes no debate na COP28. Mais claras pretendem ser as palavras do Papa Francisco quando procura aproximar o seu discurso do coração das pessoas referindo — «Escutemos os gemidos da terra, demos ouvidos ao grito dos pobres, …», «O clima enlouquecido…», «… saiamos da noite das guerras» — Mas a terra não geme. Muitos pobres não têm sequer voz para gritar. As guerras também têm dia, não apenas noite. Porém, todos sabemos que o gemido se associa à dor e à destruição; que é imperativo ser a voz dos pobres que não podem gritar; e que a escuridão das guerras é um efeito cultural destruidor do sentido da nossa existência. Por isso, as palavras que apelam ao coração pretendem despertar-nos para as consequências de nada se fazer. Aliás, o grande problema político do adiar a acção é a entrada naquilo que chamaria de tempo da Grande Inércia que vivemos desde os Acordos de Paris em 2015 (e talvez antes disso). Mas esta Grande Inércia estende-se também à pessoa comum como o leitor e eu.
Quem tem dificuldade em sustentar a vida neste momento, pensa em tudo menos em trocar de carro para uma viatura que seja elétrica. Porém, não deixa de ser chocante ver carros novos em folha de grandes marcas movidos a combustíveis fósseis e a circular na estrada. Seguramente que essas pessoas podiam ter investido num carro elétrico, mas o desconforto de terem de pensar antecipadamente nas viagens, o esforço de andar mais devagar para poupar bateria, e a pouca preparação das redes de abastecimento dos carros eléctricos nas estradas e cidades, são algumas das muitas razões usadas para justificar o tempo da Grande Inércia que estamos neste momento a viver.
A Grande Inércia é alimentada: por interesses políticos e económicos; pela burocracia das instituições e justificada com a complexidade dos relacionamentos entre as nações; pela resistência à mudança induzida pela pouca consciência de como o problema é sério; pela dificuldade em abrir mão da tecnologia desenvolvida, transferindo-a para quem mais precisa; e pela necessidade de uma coordenação global que deveria ser assumida por todos como parte da mesma família, independentemente da cultura ou nação. Se tivesse que oferecer três palavras-chave que alimentassem antes um tempo de Grande Agir seriam: consumo, mobilidade e educação. Palavras que se ligam à sobriedade, suficiência e consciência que tanto precisamos neste momento.
Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro palavras (publicação de Autor); pode acompanhar o que escreve pela sua newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao










