Viver a Fraternidade: testemunho sobre a Irmãzinha Maria Montserrat de Jesus

| 2 Dez 2023

Numa palavra: em tudo Jesus em Nazaré”
Carlos de Foucauld, 1905

Foto: retirada do boletim nº 8, “Notícias das Fraternidades. Centenário da morte do Padre de Foucauld”, dezembro 2016.

 

Há pessoas que marcam em definitivo a nossa vida. A Irmãzinha Montserrat marcou a minha. Com a sua partida para Deus, a 13 de março do corrente ano, surgiram claras as recordações de tanto caminho andado em conjunto. Aqui fica um pequeno testemunho sobre tão grande amiga e mestra.

A Irmãzinha Maria Montserrat de Jesus era catalã e viveu uma grande parte da sua vida em Lisboa, como religiosa da Fraternidades das Irmãzinhas de Jesus de Carlos de Foucauld. Esta congregação, fundada pela Irmã Madalena de Jesus, em 1939, na Argélia, inspira-se no exemplo de São Carlos de Foucauld, conhecido por “irmão universal”, que assumiu radicalmente como missão imitar Jesus, na sua vida escondida em Nazaré, e para tal partiu sozinho para o Saara, onde viveu e morreu entre os Tuaregues, e cuja festa se celebra no dia 1 de dezembro.

Foi por volta do ano de 1971 que conheci a Irmãzinha Montserrat. Era, então, uma adolescente, mergulhada em interrogações sobre como viver com coerência o caminho que a fé em Jesus me apontava, numa realidade transbordante de injustiças que me aparecia como quase inalcançável a partir do meu pequeno mundo.

De facto, nasci e cresci na redoma de uma família privilegiada, ainda que, pela fé, aberta à realidade e aos mais pobres. Os meus sete irmãos e eu fomos também privilegiados pela vivência cristã em família porque os nossos pais, ambos membros ativos da Ação Católica, viveram com compromisso a renovação da Igreja iniciada pelo Concílio Vaticano II. Nós, pequenos, participávamos nas reuniões que se realizavam em nossa casa, na zona do Bairro Alto, e seguíamos com interesse as ações da nossa mãe com pessoas de alguns dos bairros de lata que nessa época se multiplicavam em Lisboa e n’O Ninho, instituição que tem como objetivo a promoção humana e social de mulheres vítimas da prostituição, entretanto criado e do nosso pai, em tantos contextos eclesiais, como o Fórum Abel Varzim ou a Junta Central da Ação Católica e de ambos na equipa de casais de Nossa Senhora, através da qual a família se alargou. Em casa, uma mesa com lugar para todos.

Todo esse ambiente e o entusiamo resultante rodearam a nossa educação, que apesar de aberta ao Mundo foi, no entanto, muito protegida. Como exemplo, a nossa escola, uma cooperativa de ensino que os pais criaram com outros casais cristãos e onde também frequentávamos a catequese, segundo os novos catecismos franceses, até à Primeira Comunhão. Os meus irmãos mais velhos seguiram, depois, a catequese paroquial mas, por não ter sido a melhor experiência, eu e os mais novos já não. A decisão de nos prepararmos para o Crisma passou a ser nossa. Na mesma altura, a família integrou a comunidade paroquial de Santa Isabel, onde o Padre Armindo seguia com determinação as orientações conciliares com que os meus pais se identificavam. Pela primeira vez, o padre não estava de costas para nós na Missa, os bancos circundavam o altar e a Liturgia da Palavra era separada para as crianças, de modo a poderem participar plenamente. Foi aí que crescemos e onde, mais tarde, dei catequese e aderi, com dois dos meus irmãos, ao grupo de jovens. Através deste grupo, conhecemos e viemos a integrar a comunidade da Capela do Rato, então encabeçada pelo Pe. Alberto Neto.

Perto de nossa casa, viviam as Irmãzinhas de Jesus, na Fraternidade de Santa Catarina e nós, não só as conhecíamos por fazerem a venda de Natal de rua dos belos Meninos Jesus, se vestirem com enorme simplicidade e nos falarem sempre com amabilidade mas também porque o nosso pai falara-nos da vida e obra do Irmão Carlos. Mas foi na Capela do Rato, onde três de nós, entretanto, passámos a participar no coro, que, no fim da missa, a Irmãzinha Montserrat se nos dirigiu. Com a sua forma de abordar direta e incisiva, falou-nos do bairro da Curraleira onde tinham aberto uma nova Fraternidade, da quantidade de crianças que andavam por ali, ao abandono nas ruas e desafiou-nos a aparecer lá, levar as violas e dinamizar atividades para aquelas crianças. Aceitámos o desafio e começámos a ir à Curraleira aos fins de semana. Teria, nessa época, cerca de catorze ou quinze anos e uma enorme vontade de empenhar-me em ações concretas junto dos mais pobres.

Curraleira

“A casa das Irmãzinhas era uma barraca igual e apertada entre as outras, ou seja, construída com tábuas e chapas de diversos materiais, ocupando um espaço exíguo, sem qualquer tipo de conforto, numa ruela enlameada onde corria o esgoto a céu aberto.” Foto: Rui Trancoso (Portugal Velho) e Augusto de Jesus Fernandes (Arquivo Fotográfico da CML), Lisboa 1972.

 

O primeiro contacto com a Fraternidade da Curraleira mudou literalmente a minha vida. Abriu-me a uma dimensão da Igreja comprometida como fermento na massa do mundo que não podia imaginar. A casa das Irmãzinhas era uma barraca igual e apertada entre as outras, ou seja, construída com tábuas e chapas de diversos materiais, ocupando um espaço exíguo, sem qualquer tipo de conforto, numa ruela enlameada onde corria o esgoto a céu aberto. As únicas diferenças eram a porta sempre aberta a todos os que quisessem entrar, um chá ou uns biscoitos oferecidos sobre a mesa, à volta da qual sempre encontrámos moradores, e a pequena capelinha onde Jesus sorria para nós e, de braços estendidos, queria abraçar-nos. Nesse minúsculo espaço, além dessa imagem de puro acolhimento amoroso, uma pequena mesa a fazer de altar, um sacrário, uma vela acesa e um tapete com pequenos bancos à volta. Entrei na casa, vi e senti um espaço simples e único de acolhimento, oração e comunhão.

Tornava-se por demais evidente que as Irmãzinhas não procuravam catequizar ninguém mas, tão só inserir-se no meio, com empregos idênticos aos das outras pessoas e estar em total disponibilidade e entrega aos vizinhos, numa vida COM eles. Se num bairro as mulheres trabalhavam nas limpezas, era nas limpezas que as irmãs procuravam trabalho, se fosse numa fábrica, lá iríamos encontrar as irmãs, em tarefas de, por exemplo, descascar batatas durante toda a jornada. Viviam realmente a fraternidade: dar testemunho pelo exemplo; o DOM completo de si, com um sorriso na cara, e as mãos calejadas nuns braços dispostos ao abraço; simplicidade, acolhimento e proximidade aos mais pobres.

Aos poucos, começou para mim o que viria a ser uma grande sintonia e amizade com a Ir. Montserrat, as crianças no centro das nossas conversas e do nosso agir. Foi ela que me abriu para um novo modo de rezar a vida e de evangelizar pelo exemplo e a imersão, enraizado na noção de plena dignidade de todo o ser humano. Aprendi com ela e com os mais pequeninos, a altíssima DIGNIDADE das pessoas e famílias mais pobres e excluídas e, por oposição a toda uma cultura dominante da discriminação disfarçada de pena vs. ‘caridadezinha’, o seu viver focado no presente, alimentado pela PARTILHA quotidiana de tudo-o-tão-pouco-multiplicado.

Hoje, também consciente da falta de vocações, é-me impensável imaginar uma Igreja sem a influência radical e o enorme legado do Irmão Carlos e da Irmã Madalena de Jesus e um mundo sem a presença das fraternidades das irmãzinhas e irmãozinhos de Jesus.

Já depois da revolução de 1974, a entrar na idade adulta, tudo o que vivera na Curraleira, com os mais pobres dos pobres, influenciou, em muito, as minhas opções de vida. Quero referir dois campos: a nível profissional, em vez de seguir o esperado percurso universitário, optei pelo curso do Magistério Primário e exerci anos a fio em escolas das periferias; a nível eclesial, fazendo parte da JEC e através de contactos dos movimentos estudantis católicos internacionais, conheci, desafiei um grupo e, em conjunto, iniciámos em Portugal o Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças (MAAC, membro do MIDADE – Movimento Internacional de Apostolado das Crianças ).

Atividade do MAAC, em 1985, em Lisboa ( arquivo pessoal). DR

 

Nos seus primórdios, em 1978/79, uma das primeiras pessoas que contactámos foi, não podia deixar de ser, a Ir. Montserrat. Na altura, ela e outras duas irmãzinhas tinham aberto a nova Fraternidade do Prior Velho, uma casinha minúscula, inserida numa ‘ilha’, onde os vizinhos conviviam no pátio comum, cheio de vasos de flores, à entrada do bairro operário. Viviam e acolhiam, então, na fraternidade, a grande mudança social motivada pelo enorme fluxo de famílias de imigrantes, reagrupadas, vindas dos PALOP para a antiga zona de hortas desse bairro, a denominada Quinta da Serra. Foi para lá, onde a pobreza mais imperava que, mais tarde, se mudaram as irmãzinhas. Ali foram acolhidas, com alegria e reconhecimento por muitas famílias oriundas de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, que as ajudaram a construir, com o pouco que tinham e o seu trabalho, uma nova Fraternidade de pedra e cal (a fraternidade e o pouco que restava da Quinta da Serra foi demolida em 2009/2010).

Imediatamente, a Ir. Montserrat agarrou a ideia do MAAC e pôs-nos em contacto com a futura grande dinamizadora, sua vizinha na vila da Fraternidade inicial, a Fátima Matos, outra grande amiga que já partiu para Deus. Em todos os passos que se seguiram, nunca mais nos largou: a dar-nos ânimo, a envolver novas crianças e jovens, a empenhar-se profundamente em todas as dimensões do Movimento, com a sua persistência inigualável, o seu olhar intensamente crítico, pragmático e focado. Nunca me esqueço das nossas conversas, da sua frontalidade e transparência, do apoio que sempre nos deu e da convicção – que desde a primeira hora partilhámos – da importância do papel das crianças no mundo e na Igreja e da necessidade de as ouvirmos, de lhes darmos o protagonismo e de aprendermos delas.

Tudo o que o MAAC foi e conseguiu atingir no Prior Velho – e foi muito – deve-se à presença, apoio, constância e perseverança da Ir. Montserrat. E não só ali, como ao nível nacional. Nós, nem sempre estivemos, nem sempre acreditámos ou nos dedicámos ao projeto. Mas a Ir. Montserrat esteve sempre presente, sempre acreditou, sempre nos desinstalou e, até há bem pouco tempo – antes de a doença a amarrar a uma cama – participou com sucessivas gerações, às quais sempre encorajou a avançar, a recomeçar, nos momentos sucessivos de crise por que o MAAC passou.

Ao nível pessoal, a Ir. Montserrat foi (e é) aquele pilar na minha vida. Gostava de saber expressar a profundidade deste elo mas há coisas que a amizade não consegue pôr em palavras e a saudade já aperta. Esteve no nosso casamento, no nascimento e crescimento dos três filhos. Acolheu-me de braços abertos (com toda a Fraternidade, as irmãzinhas Mónica e Glória), quando decidi fazer a tese sobre as crianças filhas de imigrantes cabo-verdianos, a partir da recolha das histórias de vida, lá na Quinta da Serra. Entre tantos e tantos outros momentos. Aos 44 anos, tendo finalmente encontrado a disponibilidade necessária, comecei a preparar-me para o Crisma, passo que dei em conjunto com a minha filha Rita, de 20 anos. Mas, a meio do processo, a Rita faleceu. Sem precisar de muitas palavras, a Ir. Montserrat esteve sempre ali para mim. Telefonava-me e perguntava logo com a sua voz de dar alento: “Então? Como vais? Quando apareces?” … e eu aparecia. No meio dos seus muitos afazeres, ela tinha sempre tempo para estar e ouvir. Sem qualquer hesitação, convidei-a para minha madrinha de Crisma. Por todas as razões. E a maior foi por ser quem era, absolutamente autêntica, direta e transparente, sem rodeios, sem nunca tentar sobressair, mas sem nunca baixar os braços, os pés assentes no chão, as antenas apontadas à realidade e aos sofrimentos dos mais pequeninos. Se há uma palavra que a possa caracterizar, essa palavra é Autenticidade.

Uma Pessoa Inteira, um exemplo cristão, uma Vida entregue por Amor, Jesus no centro.

Pouco tempo antes de morrer, mandou-me o cartão de Natal do presépio “Deus veio morar connosco”, no qual escreveu já quase só na sua Língua materna: “Deus parla através de la vida. Que Jesus ens ajudi e ens ampli el cort de pau e amor.

Sei que, em Jesus, sempre seguiremos juntas, mais unidas agora do que nunca. Obrigada, querida Montserrat.

Abraço, com amizade e gratidão, todas as Irmãzinhas de Jesus.

Presépio Irmãzinhas de Jesus.

Lisboa, 30 de novembro de 2023

 

Isabel Sassetti Paes (Mimi), nasceu em Lisboa, é mãe de três filhos e professora aposentada do 1º Ciclo.

 

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