Conhecer a atitude dos primeiros cristãos num mundo hostil e que se guiava por critérios existenciais, morais e culturais bem distantes dos seus, é o objeto do livro do historiador italiano Leonardo Lugaresi Vivere da cristiani in un mondo non cristiano – L´ esempio dei primi secoli (Lindau, Turim, 2020). Penso que maior interesse deste livro está na lição que pode dar-nos sobre a atualidade: qual deverá ser hoje a atitude dos cristãos num mundo que, sob muitos aspetos, deixou de ser cristão. É certo que talvez seja melhor falar de um mundo pós-cristão, que conheceu a mensagem cristã e dela ainda guarda alguma memória, pelo menos no plano cultural (não é exatamente o mesmo que o mundo pagão que pela primeira vez conhecia essa mensagem). Mas, com as devidas adaptações, a analogia existe e esse exemplo deve fazer-nos refletir.

Os primeiros cristãos foram durante muito tempo uma pequena minoria no Império Romano. Mas tal não significa que fossem uma minoria irrelevante. A sua relevância decorria, precisamente, da atitude que tiveram para com o mundo circunstante, um mundo que com eles contrastava quanto à mentalidade, à linguagem e às categorias religiosas e culturais, um mundo com uma outra visão antropológica. Segundo o autor deste livro, eles revelaram uma extraordinária capacidade de relacionamento com esse mundo, influenciando-o (suscitando reações de hostilidade, mas também de admiração e apreço) mesmo sendo minoritários, a ponto de levarem à conversão do imperador Constantino sendo ainda minoritários.
Lembrei-me, a este respeito, e ligando esse facto ao contexto atual, das afirmações do teólogo Joseph Ratzinger e Papa Bento XVI sobre as “minorias criativas” que deverão ser os cristãos nas sociedades e culturas secularizadas de hoje.
Duas poderiam ter sido as atitudes dos primeiros cristãos no confronto com o mundo pagão que teriam impedido essa capacidade de influência, mas que eles rejeitaram.
Uma poderia ter sido a da assimilação, a de se deixar influenciar pela mentalidade então corrente, para evitar a hostilidade e a marginalização. Teriam acabado por não se distinguir dos outros, por viver, pensar e ser como todos os outros. Se tivessem seguido essa via, não falaríamos hoje de cristianismo – afirma muito perentoriamente, com razão, o autor deste livro.
Outra atitude poderia ter sido a do fechamento: preservando acima de tudo a sua identidade, acentuando as suas diferenças numa postura de radicalização, quebrando os laços com as outras pessoas e grupos. Essa atitude também não teria contribuído para a incidência dos primeiros cristãos no mundo de então.
A atitude dos primeiros cristãos no confronto com o mundo que os rodeava não se enquadrou em nenhum desses modelos: nem o da assimilação, nem o do fechamento.
Os primeiros apologetas retratavam os cristãos como bons cidadãos, pessoas normais, não excêntricas ou antissociais, A primeira Carta de São Pedro aconselha o respeito pelas autoridades (1 Pt 2,13). Mas, sobretudo, numa perspetiva de afirmação de identidade em abertura para com os outros, exorta: «estai sempre pronto a dar as razões da vossa esperança» (1Pt, 5, 15).
“Estar no mundo sem ser do mundo” (de acordo com o pedido que Jesus dirigiu ao Pai antes de morrer – Jo, 17,14) – assim pode ser sintetizada a postura dos primeiros cristãos perante o ambiente social que os rodeava. São João Crisóstomo, por seu turno, recorre à imagem do fermento que se mistura com a massa para a levedar.

Uma boa ilustração dessa postura (ao mesmo tempo de proximidade e de distinção) encontramo-la na célebre Carta a Diogneto, por muitos designada como “pérola da literatura cristã”. Afirma esse texto que os cristãos não se distinguem dos outros homens, «nem pela terra, nem pela língua». «Toda «a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira». «Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas». «Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os recém-nascidos». «Amam todos e por todos são perseguidos». «São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam». «Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo. A alma está em todos os membros do corpo e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, não é, contudo, do corpo; também os cristãos, se habitam no mundo, não são do mundo.»
Os primeiros cristãos ajuizaram criticamente as instituições e costumes da sociedade em que viviam, distinguindo o que tinham de bom e o que tinham de mau. Seguiram a advertência de São Paulo na sua primeira Carta aos Tessalonicenses: «Examinai tudo, Guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal.» Leonardo Lugaresi analisa o modo como esse juízo crítico e seletivo foi elaborado no Império Romano no que se refere ao direito, à educação, à economia e aos espetáculos.
Hoje, a assimilação conformista perante a mentalidade corrente, por um lado, e o fechamento identitário, por outro, são duas tentações a que estão sujeitos os cristãos no confronto com o mundo que os rodeia. A postura dos primeiros cristãos, que não rejeitaram o diálogo, mas também souberam ir “contra a corrente” quando tal se impunha, que testemunharam o Evangelho antes de mais com a vida e desse modo transformaram a cultura e a sociedade do seu tempo, pode servir-nos de exemplo e de lição.
Pedro Vaz Patto é Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.
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