Viver em casa dos pais e sem perspectivas de futuro

| 29 Out 2023

“Não deixa de ser uma sensação de um certo falhanço ter de permanecer na casa dos pais, depois de ter tirado qualquer curso profissional ou outro, na perspectiva de se construir um futuro risonho e sustentável.”  Foto © Antenna | Unsplash

 

A vida não está fácil para os jovens portugueses. São dos mais mal pagos, mais tarde se emancipam da casa dos pais e têm mais baixos salários. Cerca de metade dos jovens até aos 34 anos vive com os seus pais. Estes são os dados de um recente estudo, um retrato bem negro que nos revela, de um modo cabal, como a juventude portuguesa se situa na nossa sociedade e encara a sua vida futura.

Se é a juventude mais bem preparada após o 25 de Abril de 1974, também é verdade que hoje, viver em Portugal, tem um elevado grau de dificuldade, para uma boa parte da nossa juventude. Razão pela qual muitos optam por emigrar e procurar noutras paragens resposta às suas vidas, na perspectiva de um futuro mais risonho. Deste modo, se poderão emancipar mais facilmente da casa dos pais, dizendo com mágoa adeus à sua terra, à família e aos amigos.

Com valores mensais à volta dos 800 euros nos seus primeiros empregos, como podem os jovens constituir família em Portugal? Mal dará para arranjar casa, onde possa viver. Com os preços praticados hoje, para se poder fazer uma vida normal e equilibrada no nosso país, os jovens deitam contas à vida e acabam por permanecer largos anos na casa dos seus pais, por vezes em condições pouco confortáveis. E se forem vários irmãos, como poderá haver resposta equilibrada e suficiente para todos?

Com o mercado de altas rendas, sobretudo nas cidades e terras de turismo, alugar uma casa para constituir família, com as suas despesas inerentes, não é nada fácil. Interrogações e mais interrogações que tiram o sono a qualquer jovem, mesmo com estudos.

Esta nossa realidade, com 54,4% dos jovens a viver na casa dos seus pais, dos 25 aos 34 anos, encontra-se muito acima da média da União Europeia que só atinge os 30,3%. Como se verifica, nos países mais ricos da Europa, geralmente, os jovens saem da casa dos seus pais muito mais cedo, para se emanciparem e constituírem a família. Portanto, é possível sair-se casa dos pais, desde que se pratiquem políticas amigas da juventude. Nomeadamente, praticando-se melhores salários e dando apoios sociais aos que deles mais necessitem. Deste modo se pode ver o grau de desenvolvimento sustentável de um país ao proporcionar melhores condições de vida.

Não deixa de ser uma sensação de um certo falhanço ter de permanecer na casa dos pais, depois de ter tirado qualquer curso profissional ou outro, na perspectiva de se construir um futuro risonho e sustentável.

Na verdade, são hoje muitos os jovens qualificados que vivem debaixo do teto dos seus pais ou que partilham apartamento com outras pessoas. E há até quem mantenha relações apenas por razões económicas. É que hoje, uma pessoa sozinha tem muita dificuldade em autonomizar-se, referem os jovens, em resposta a alguns inquéritos.

Como a realidade também nos revela, a formação académica já não é um passaporte para uma vida independente e confortável para sempre. Pelo contrário, o jovem é lançado na vida profissional depois de tirar o seu curso e acaba por, muitas vezes, ir ficando iludido, com as respostas que encontra no mercado. Neste momento, para avolumar o problema, 17% dos jovens estão desempregados.

Ainda há algumas dezenas de anos, ter-se um curso era um caminho quase certo para se poder arranjar um emprego para toda a vida. Mas hoje, a realidade demonstra-nos que, geralmente, já não há empregos com estas características. Os jovens, geralmente, terão de saltitar de emprego em emprego, desempenhando as tarefas mais diversas. Esta instabilidade faz parte da vida moderna, sempre em mudança e repleta de novos desafios.

Se bem ajuizamos, a questão estrutural destas dificuldades é o mercado de trabalho que hoje domina a nossa sociedade, bem como as dinâmicas de funcionamento cuja precariedade e baixos salários afectam mais os jovens do que os seniores.

Outro factor conhecido e muito discutido são as insuficiências do mercado da habitação. Afecta não só as grandes cidades, mas já também as pequenas cidades do interior. Espera-se que a polémica reforma da habitação, lançada recentemente pelo Governo, para responder a este problema social, venha a dar os seus frutos. A juventude necessita e merece melhores dias, com perspectivas de vir a construir um futuro mais auspicioso.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

 

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