
“O Volodymyr é bom homem. Saiu do país onde os filhos morreram e foi para o país das promessas. Ganhava dinheiro, tanto dinheiro nunca é suficiente para apagar a saudade de um filho morto.” Foto © RDNE Stock project / Pexels
Fazia calor. O suor, em gotas espessas, deslizava-lhe trémulo pela testa, nuca e fontes. O pescoço molhado pedia socorro.
Desculpe, senhor, perdoe-me, dizia ele. Não podemos continuar com o seu serviço, respondeu o homem. Prometo, senhor, não voltar a fazê-lo, insistiu.
Ouvi a conversa sem querer. Fiquei confusa. O melhor empregado da empresa – melhor no verdadeiro sentido da palavra. Humano e prático – acabara de ser despedido por consumir álcool durante o expediente.
A porta do escritório abriu-se e eu não devia estar ali, mas estava. Eu nunca vou ali a não ser nas raras vezes em que preciso de entregar o recibo. Foi mal.
Olhei o Volodymyr com vergonha. Há dias em que desacredito na humanidade. O peso dos seus olhos nos meus. As gotas misturadas, ambas amargas. Da testa, dos olhos cor de indiferença, da nuca, da boca entreaberta de cansaço. O calor do verão a derreter a humanidade por dentro e por fora. Os poros entupidos pelo fumo do carvão a borbulhar nas cinzas da grelha. O serviçal imundo. O inferno em descrição exata.
– Lamento, Volodymyr. – disse-o sem coragem de levantar a cabeça.
Quem terá sido o filho da puta que se chibou, pensei desconfiada.
Os 40 anos de idade do Volodymyr parecem de mentira. A vida gastou-lhe a idade mais do que o normal. Tem cara de 60.
O Volodymyr é bom homem. Saiu do país onde os filhos morreram e foi para o país das promessas. Ganhava dinheiro, tanto dinheiro nunca é suficiente para apagar a saudade de um filho morto. Comprava o apagar da dor com esse dinheiro. Cachaça, Vodka. Nesses países das promessas há um perigo eminente: o dos desiludidos pela promessa falhada. O Volodymyr foi assaltado e torturado durante seis horas em troca de abrir a boca do cofre. No dia seguinte apanhou um avião de regresso ao país da morte. Morrer é melhor do que ser torturado.
Quando os filhos nos morrem, qualquer país é a casa da tortura.
Escolheu o nosso, depois disso. O nosso – e o deles – país.
Em troca do ordenado mínimo passa oito horas de sol enfiado entre dois grelhadores industriais. Serve bem. Bebe cerveja nos entretantos porque não há homem que aguente o que ele aguenta e alguma razão há de haver.
É amigo. O Volodymyr age como agem os amigos.
Eu vi o Volodymyr beber às escondidas várias vezes. Mas o Volodymyr preparava a minha comida com o carinho dos amigos.
O Volodymyr trouxe uma mangueira de luzes para embelezar o meu espetáculo e estava muito feliz por isso.
O Volodymyr cuspia para o chão por tique ou vício; parecia que escarrava o nojo inteirinho da vida. Pedi-lhe que parasse, ele pediu desculpa e nunca mais o vi cuspir.
Eu vi o Volodymyr beber às escondidas várias vezes. Mas o Volodymyr tratava os clientes e os colegas como os amigos tratam.
Eu vi o Volodymyr beber às escondidas várias vezes. Mas o Volodymyr não era o único. O Volodymyr, mesmo bebendo, sempre foi o mais amigo dos estranhos à volta.
O Volodymyr é bom homem. O Volodymyr é melhor do que eu. O Volodymyr é melhor do que os que ele serve. O Volodymyr é melhor do que quem o despediu. O Volodymyr é melhor do que a vida lhe é.
O Volodymyr tem olhos de mais velho. Mãos de cansado. Treme muito. Sua sempre tanto, que eu acho que deve ser para disfarçar as lágrimas. O Volodymyr já não tem país.
O Volodymyr deixa-me confusa relativamente à espécie humana. Melhor dizendo, a espécie humana deixa-me confusa quando olho o modo como o Volodymyr é sabotado pelo mundo à sua volta.
O Volodymyr bebe às escondidas no trabalho.
O Volodymyr foi escravizado.
O Volodymyr foi despedido.
O Volodymyr cozinha bem.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024.










