Voltar a casa – limpeza de Primavera

| 29 Mar 2021

Regressar a casa. Escuteiros

Regresso a casa: “Terá sobrado tempo e cabeça para aprender a estar em casa?” Foto © Marta Saraiva

 

A Primavera vai dando uns sinais de não aparecer por aqui, num saudável desprezo pela data do calendário. Ainda assim, entre os dias mais claros e compridos, e mais umas horas de luz, as primeiras folhas nas árvores, vai apetecendo preparar a casa para a nova estação.

Nesta limpeza de Primavera de 2021, é impossível não regressar aos mesmos dias de 2020. Que podem ter sido ontem. Ou há seis meses. Assegurar compras essenciais, evitar beijos, abraços e toques, uma irresponsabilidade de última hora, ir reduzindo viagens e vida social até chegar ao zero. E, finalmente, recolher.

De um dia para o outro, a maioria dos gestos quotidianos – desde o ir ao multibanco ao pedir um café – tornou-se inútil. Sobraram os que geralmente passam despercebidos, ou seja, todos os gestos “domésticos”. Pelos vistos, ia passar o tempo da Quaresma com uma quase desconhecida: a casa.

Enquanto o mundo se reorganizava, houve umas semanas para reflectir na relação que mantemos com a casa onde moramos, com a ideia de casa, e em como essa relação afecta a vida espiritual. “Não temos aqui morada permanente”, é certo, mas também há algo de incómodo nos 40 anos que o povo de Israel precisa para chegar à Terra Prometida ou nas andanças de Jesus, Maria e José pelo Egipto.

Tendo vivido a vida toda em cidades, foi rápido reconhecer que passamos, por definição, muito tempo na rua. Horas a ir e vir de escolas, universidades e trabalhos, cargas lectivas e laborais pesadas, chegar tarde, trabalhos de casa, tarefas domésticas, jantar, algum tempo livre, dormir (pouco), e recomeçar na manhã seguinte. Ao fim- de-semana, espairecer, fazer programas. Não poucas vezes, toda esta coreografia dá-se em cidades atoladas em ruído e em trânsito, luz artificial e poucos espaços verdes. Terá sobrado tempo e cabeça para aprender a estar em casa?

Nos primeiros dias, o ritmo manteve-se mecânico e funcional, como se os horários rígidos e os compromissos inadiáveis que impõem despachar um almoço em vinte minutos ou arrumar a sala em quinze se mantivessem. Mais revelador foi perceber que uma imbecil série da Netflix aparentava ser mais urgente e mais importante do que o tratar e gozar a casa. Será que inconscientemente fomos formatados para não valorizar a casa e o estar em casa?

Assumindo o exagero da hipótese, a casa terá sido a grande perdedora da inevitável emancipação feminina e da entrada das mulheres no mercado de trabalho. O ter sido inevitável não significa que tenha sido isenta de perdas inconsequentes. Em paralelo, a vida foi-se orientando para o exterior, para o entretenimento e para o consumo, e a casa terá adquirido o estatuto de espaço sem história, mas que é necessário manter. Só que esse espaço sem história é, por excelência, o laboratório onde nos auto-impomos e testamos limites e nos confrontamos com necessidades tão elementares como a alimentação e o descanso. Será que cozinhamos o suficiente, para o nosso bem-estar espiritual?

Pelo meio da Quaresma, o frenesim acalmara e os horários estavam ajustados aos da luz do Sol (quelle surprise). Caiu a ficha de que o Evangelho está cheio de casas, a de Nazaré, a dos irmãos de Betânia, a de Zaqueu e, obviamente, a da Última Ceia – espanta sempre que tudo tenha começado num jantar –, a do Pai do Filho Pródigo. Não será por acaso que alguns dos episódios mais marcantes aconteçam em casas, como a disputa entre Marta e Maria, a refeição a seguir ao chamamento de Mateus, ou a que Maria interrompe com o perfume que se espalha pela casa. E a Anunciação, que acontece num dia igual a tantos.

O que quer que estes exemplos convoquem, apelam a uma vivência espiritual radicada no quotidiano, na relação consciente de intimidade com os espaços que habitamos, muito corpórea e sensorial. É fácil, nesta era digital, simultaneamente racionalista e sentimentalista, distrairmo-nos e cair numa religiosidade espiritualista e intelectualizada, simbólica, mas desencarnada.

Santa Teresa de Ávila dizia que Deus andava pelo meio dos tachos. Provavelmente, tinha razão.

 

Marta Saraiva é diplomata, exercendo actualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.

 

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia

Nos 77 anos do ataque atómico

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia novidade

“Apelo a todos os membros” do Parlamento japonês, “bem como aos membros dos conselhos municipais e provinciais” para que se “encontrem com os hibakusha (sobreviventes da bomba atómica), ouçam como eles sofreram, aprendam a verdade sobre o bombardeio atómico e transmitam o que aprenderem ao mundo”, escreve, numa carta lida nas cerimónias dos 77 anos do ataque atómico sobre Nagasaki, por um dos seus sobreviventes, Takashi Miyata.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Evento "importantíssimo" para o país

Governo assume despesas da JMJ que Moedas recusou

A ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, chegou a acordo com o presidente da Câmara de Lisboa sobre as Jornadas Mundiais da Juventude, comprometendo-se a – tal como exigia agora Carlos Moedas – assumir mais despesa do evento do que aquela que estava inicialmente prevista, noticiou o Expresso esta quarta-feira, 3.

Multiplicar o número de leitores do 7MARGENS

Em 15 dias, 90 novos assinantes

Durante o mês de julho o 7MARGENS registou 90 novos leitores-assinantes, em resultado do nosso apelo para que cada leitor trouxesse outro assinante. Deste modo, a Newsletter diária passou a ser enviada a 2.863 pessoas. Estamos ainda muto longe de duplicar o número de assinantes e chegar aos 5.000, pelo que mantemos o apelo feito a 18 de julho: que cada leitor consiga trazer outro.

Parceria com Global Tree

JMJ promove plantação de árvores

A Fundação Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e a Global Tree Initiative estabeleceram uma parceria com o objectivo de levar os participantes e responsáveis da organização da jornada a plantar árvores. A iniciativa pretende ser uma forma de assinalar o Dia Mundial da Conservação da Natureza, que se assinala nesta quinta-feira, 28 de julho.

Padres de Lisboa saem em defesa do patriarca

Abusos sexuais

Padres de Lisboa saem em defesa do patriarca

O Secretariado Permanente do Conselho Presbiteral do Patriarcado de Lisboa saiu em defesa do cardeal patriarca, D. Manuel Clemente, numa nota publicada esta terça-feira à noite no site da diocese. Nas últimas semanas, Clemente tem sido acusado de não ter dado seguimento a queixas que lhe foram transmitidas de abusos sexuais.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This