Voltar

| 11 Jan 19

Vamos. Mas não sem pensar em voltar. Pelo menos comigo, é assim. E diria que, para qualquer outro expatriado, como agora se lhes chama, será igual. Fazer planos, cenários; perceber as possibilidades. Faz parte da condição de o ser.

O primeiro-ministro do meu país até queria que eu voltasse. E concretizou uma série de medidas de incentivo no Orçamento de Estado deste novo ano. Ora eu, que não precisaria de nenhum incentivo para voltar para a minha terra, pus-me a pensar no assunto outra vez. Não por causa dos 50%, dos três ou dos cinco anos, mas porque gosto do meu país. Foi o “trigger”, digamos assim, que não me vem agora o termo certo em português.

Saímos, fez dois anos, numa altura em que achei que a mudança era benéfica para mim e para a minha família. Não vou mentir, as contrapartidas financeiras pesaram, mas não foi só isso. O desenvolvimento pessoal de cada um de nós, individualmente e como grupo familiar, seria o mais importante.

Lembro-me muitas vezes do meu tio Afonso e tento imaginar a vida que teve por estas bandas da Ásia em meados do século passado. Viver num país que não é o nosso obriga-nos a um ajustamento a novos códigos de que não é possível apercebermo-nos quando viajamos por pequenos períodos de tempo.

Perceber que existem muitas maneiras diferentes de ver o mundo e de estar neste mundo. Aprender isso. Aprender a ser mais tolerante, adaptarmo-nos a uma vida diferente e superar as exigências do dia-a-dia enriquece-nos e torna-nos mais resilientes. As minhas filhas hão de reconhecê-lo um dia, espero eu.

Como dizia Clara Ferreira Alves numa das suas crónicas, após uma viagem à Ásia, Portugal abandonou o Império que construiu por aí ao longo de muito séculos. Eu até gostaria de ficar mais tempo para ter a oportunidade de conhecer melhor os vestígios dessa presença. Bem, não são só vestígios e não são só os pastéis de nata, claro.

Mas também gostaria de voltar. A distância, que hoje se desvanece mais facilmente com as novas tecnologias e com a rapidez com que se viaja, não deixa de existir. Estar longe da família, dos amigos, perder os momentos de partilha do dia-a-dia, de alegria e de tristeza, de convívio, os momentos difíceis…

Voltámos no Natal, sabendo que é só uma panaceia para aliviar a vontade de voltar em definitivo. Voltar à nossa terra, perceber que está tudo no mesmo sítio, dá-nos, por outro lado, um sentimento de segurança.

Tentar recuperar a ausência de muitos meses junto da família e dos amigos é também um desafio impossível de ultrapassar. Regressamos ao trabalho após este período, que também deveria ser de descanso, com algum sentimento de frustração e com a sensação de que a nossa vinda e o tempo que estamos juntos dos nossos nunca são suficientes.

Vamos tendo a certeza de que voltar é sempre o objetivo último desta nossa aventura e já com os olhos postos no fecho do próximo ciclo de idas e vindas.

Porto, 3 de janeiro de 2019

André Vasconcelos Alves é arquiteto, expatriado no Sri Lanka

Breves

Boas notícias

O renascer da Ordem Cisterciense em Portugal

No Mosteiro Trapista de Palaçoulo

O renascer da Ordem Cisterciense em Portugal

Filha de Trás-os-Montes e Alto Douro, acolhi com muita alegria a notícia da construção de um Mosteiro Cisterciense Trapista no planalto mirandês. Monjas italianas escolheram Portugal e estabeleceram-se aqui. Neste lugar aberto às montanhas azuis, ao longe; terra ressequida de xisto: urze, estevas, plantas rasteiras, juntamente com velhos carvalhos e sobreiros. Terra amarela do centeio. Cabras, ovelhas, vacas – o que resta. Nas aldeias, casas fechadas, tantas…

Outras margens

Cultura e artes

Pessoas

Sete Partidas

Acolher sem porquês

Eu e o meu namorado vivemos na Alemanha e decidimos desde o início da guerra na Ucrânia hospedar refugiados em nossa casa. Pensámos muito: nenhum de nós tem muito tempo disponível e sabíamos que hospedar refugiados não é só ceder um quarto, é ceder paciência, muita paciência, compreensão, ajuda com documentos…

Visto e Ouvido

Agenda

[ai1ec view=”agenda”]

Ver todas as datas

Entre margens

Na ressaca da abundância

Fruir é o verbo do presente e andamos pelo mundo atrás de abundâncias: de coisas, de experiências, de bem-estar e de divertimentos, cada vez mais sofisticados e inacessíveis. Vivemos como se a felicidade estivesse fora de nós, nas coisas que corremos para comprar, nas pessoas com quem estamos, nas experiências que vivemos.

Férias — a alegoria das formigas

Hoje, e por estarmos no querido mês de Agosto, dou comigo a refletir sobre este lugar-comum da alegoria das formigas, que é o tempo de férias. Até temos a sorte de viver num país cuja esperança média de vida ronda os 80 anos; desses 80, somos forçosamente influenciados a trabalhar 48. E destes apenas três são tempo de férias.

É possível sonhar na velhice e alcançar

Sonhar?! Sonhos! Uns realizam-se, outros não, mas um homem sem sonhos é um homem pobre, sem visão, sem propósitos. Muitas pessoas têm a ideia de que sonhar é algo somente para os jovens, talvez porque naturalmente têm ainda muito tempo para viver. Mas será isso verdade?! Será possível sonhar na velhice? Entrar na velhice é parar de sonhar, projetar e avançar? Ou o que o impede ou lhe diz que não pode sonhar?

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This