“Os números de pessoas voluntárias têm diminuído, depois dos anos da pandemia”, diz ao 7MARGENS Eugénio Fonseca, presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado (CPV). Embora a instituição, com 50 organizações filiadas, não tenha dados numéricos sobre tal realidade, aquele responsável diz que, apesar de algumas excepções, essa é a tendência geral, não só em Portugal, como “um pouco por todo o mundo”.
“Se, durante um tempo, muitas pessoas se mobilizaram para ajudar em múltiplas frentes, sobretudo no período do isolamento social, depois do regresso à actividade normal percebeu-se que havia menos gente a fazer voluntariado”, explica Eugénio Fonseca.
O presidente da CVP identifica “várias causas” para esta realidade: “O estado de espírito e disponibilidade pessoal de muitas pessoas ficaram afectados; uma parte das pessoas voluntárias eram pessoas de idade avançada e não regressaram à sua actividade pré-covid; e algumas organizações da economia social optaram por contratar mais pessoas e ficou menos espaço e menos capacidade para acolherem voluntários.”
Há uma outra razão, acrescenta Eugénio Fonseca: “Os jovens vêm manifestando uma visão e envolvimento diferentes das gerações anteriores e muitas organizações não estão preparadas para lidar com o que entendem ser a sua ‘falta de compromisso’.”
Estas considerações vêm a propósito do lançamento do Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável, decretado pelas Nações Unidas para este ano de 2026. Numa sessão com jornalistas na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, responsáveis da CPV e de várias organizações de voluntariado falaram de uma realidade que envolve muita gente, mas não é reconhecida publicamente. Só no âmbito da CPV e das suas 50 organizações, falamos de 40 mil organizações em todo o país, que mobilizam entre um milhão e um milhão e meio de pessoas.
“É muito difícil apresentar números rigorosos”, diz o presidente da CPV. “As estatísticas oficiais do INE são parciais e pré-pandemia” – e esta é uma situação que está na agenda do sector, de modo que seja incluída na revisão da lei-quadro do voluntariado. Pretende-se que “haja obrigatoriedade de fazer esse levantamento com rigor e regularidade”, afirma.
“Entretanto, temos a percepção do que vamos obtendo junto das organizações promotoras do voluntariado, bancos locais e gestores de voluntariado”, acrescenta Eugénio Fonseca. “A conclusão principal é de que, em geral, há dificuldades no recrutamento dos voluntários necessários, embora também haja voluntários que têm dificuldade em encontrar organizações e projectos onde possam oferecer o seu tempo e capacidades.”
Trata-se de uma “descoincidência de interesses”, acrescenta Carla Ventura, vice-presidente da CASES (Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, que recentemente fez uma recolha de dados sobre a realidade do voluntariado em Portugal – um “ginásio de humanidade”, como caracterizava Alfredo Abreu, outro dos responsáveis presentes na sessão. Na CASES, por exemplo, há uma bolsa de 10 mil voluntários – com alguns a queixarem-se de que não são chamados.
Uma nova lei

Voluntárias preparam bens para famílias que vivem em situação de carência: a ONU Foto: Direitos reservados
Os diferentes intervenientes na sessão identificaram a falta de reconhecimento – social, estatal, mediático – como um dos problemas do voluntariado em Portugal. Apesar de Portugal aparecer sempre com baixas taxas de participação das pessoas, também há casos em que muitas acções de voluntariado não são contabilizadas – por exemplo, as associações de pais das escolas.
Neste sentido, o que se espera da revisão da lei que foi preparada por uma comissão da CPV e de algumas outras entidades? “Prevê-se uma actualização do conceito de voluntariado, nomeadamente para poder reconhecer como tal o voluntariado informal ou por iniciativa comunitária, bem como o reconhecimento do voluntariado corporativo e universitário, o voluntariado de pessoas menores de idade”, diz Eugénio Fonseca. “Também propomos um aprofundamento dos princípios, direitos e deveres ligados ao voluntariado, a obrigação de levantamento estatístico regular, e um investimento significativo do Estado no voluntariado.”
A CPV espera que o processo legislativo esteja concluído até Junho, mas isso dependerá fundamentalmente dos trabalhos do Parlamento. Seguir-se-á uma proposta de regulamentação da lei, que a Confederação está também a preparar, e que pretende ir ao detalhe dos vários aspectos do voluntariado.
Há ainda outro aspecto a preocupar a Confederação: “Até Novembro, a CASES era o interlocutor governamental no voluntariado, nomeadamente como promotor de políticas de voluntariado”. Mas nessa altura, o Governo decidiu retirar o Estado da parceria na CASES. Com essa medida, o voluntariado passou para a tutela da Secretaria de Estado do Trabalho. Agora, Eugénio Fonseca garante: “A CPV aguarda com grande expectativa a identificação de um novo interlocutor e indicação dos objectivos do Governo relativos ao voluntariado, de forma a darmos continuidade a uma colaboração próxima e frutífera que vínhamos tendo nos últimos anos com a CASES, em nome da sociedade civil.”
Mesmo sem esse elemento, a CPV tem já previsto um grande conjunto de actividades para este ano de sensibilização e promoção do voluntariado, que irão sendo apresentadas no site que está já disponível. E a urgência vem das próprias Nações Unidas. O secretário-geral António Guterres escreveu na sua conta da rede Linkedin sobre a “realidade difícil” que o mundo tem de enfrentar: “Apenas 35% das metas dos Objetivos Globais estão no caminho certo ou a progredir moderadamente. Quase metade está a avançar muito lentamente. E 18% estão a retroceder.”
Os cinco anos que restam até 2030, a meta dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, são para “converter as faíscas da transformação numa chama de progresso”, diz Guterres.
Também o administrador do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), Achim Steiner: “O Ano Internacional em 2026 é um apelo aos Estados-Membros da ONU para que tornem o voluntariado uma parte integrante dos seus caminhos de desenvolvimento para impulsionar os Objectivos Globais – e um reconhecimento de que só através da acção colectiva e da solidariedade podemos reunir forças para enfrentar os desafios que nos afectam a todos.”










