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Buchenwald
Entrada do campo de concentração de Buchenwald. Foto © Helena Araújo

Cem anos depois

Weimar e a Bauhaus: do apogeu cultural à queda nos braços do nazismo

 

A Bauhaus nasceu em Weimar em Abril de 1918, com o objectivo de renovar o modo de ensino, a arquitectura, os trabalhos oficinais e a arte. O curso, que combinava ensino teórico com formação prática nas oficinas, apostava num ensino diversificado, em métodos criativos e no desenvolvimento individual do talento dos alunos. Durante alguns anos, professores e estudantes viveram em Weimar momentos daquela alegria e daquele entusiasmo que advêm da convicção de ser parte de algo único, inovador e pleno de sentido.

Mas as eleições de Fevereiro de 1924 puseram fim a este movimento de modernidade em Weimar. A aliança entre partidos conservadores que pretendiam afastar a esquerda que, nesse estado alemão, estava no poder desde a proclamação da República em 1918, não conseguiu a maioria absoluta. Para governar, apoiaram-se num partido anti-semita recentemente criado para preencher o vácuo deixado pela proibição do NSDAP de Hitler, na sequência da sua tentativa de golpe de Estado em 1923. O novo governo reduziu de forma drástica os meios financeiros da escola, e anunciou a rescisão do contrato de trabalho dos seus mestres para o dia 1 de Abril de 1925, faz agora cem anos.

A escola mudou-se então para Dessau.

Vivi em Weimar entre 2002 e 2007, e ao longo desses cinco anos ouvi inúmeras histórias sobre a história da cidade, que agora partilho, numa vertigem à maneira de “as obras completas de Shakespeare em 90 minutos”.

Agarrem-se bem, cá vamos nós.

Weimar, Bauhaus

Na praça do teatro, o local onde foi escrita a constituição da república de Weimar, à volta da estátua de Goethe e Schiller: uma instalação a lembrar a tragédia dos refugiados. Foto © Helena Araújo

 

A minha Weimar começa com uma mulher. Já existia antes, é claro, mas era uma terra mais ou menos igual às outras.

[Mau! Ainda agora comecei e já estou a dizer asneiras. Antes desta mulher, já Weimar tinha muita História: Lucas Cranach pai morreu ali em 1553, no auge da fama das pinturas da sua oficina (as cenas de Adão e Eva e outras da mitologia clássica vendiam muito bem, eram uma espécie de calendários Pirelli do Renascimento), e no auge da riqueza ganha também graças à máquina de impressão que comprara a Gutenberg, com a qual imprimia os escritos do seu amigo Martinho Lutero. Bach também passou por Weimar, e até se demorou umas semanitas na bastilha junto ao palácio ducal, onde ficou preso por ter decidido mudar de empregador sem pedir autorização ao grão-duque, e onde aproveitou o sossego de não ter a choradeira de futuros compositores como Carl Philipp Emanuel Bach, criancinha de colo à época, aproveitou o sossego, dizia, para compor O Cravo Bem Temperado (pelo menos, é o que se conta em Weimar)]

Bahaus. Goethe

Vista do Parque projectado por Goethe, com o palacete de Charlotte von Stein ao fundo. Foto © Helena Araújo

 

…onde é que eu ia? Ah, já sei: Weimar seria uma terra mais ou menos igual às outras até ao dia em que uma muito culta Anna Amália, de dezasseis anos, foi apressadamente casada com o também muito jovem duque, para garantir descendência àquele nome antes que a frágil saúde do rapaz o levasse desta para melhor. E cumpriu: quando enviuvou, aos dezoito anos, já era mãe de um principezinho e estava grávida de outro. Tudo isto aconteceu por meados do século XVIII, quando andavam a introduzir o cultivo da batata na região. Muito ciosa da educação do filho, Anna Amália foi à universidade de Erfurt buscar um dos mais importantes autores do Iluminismo, Christoph Martin Wieland, que veio arejar a cabeça do príncipe adolescente e de caminho traduziu peças de Shakespeare para o dar a conhecer no teatro local e em terras alemãs.

E assim ia a vida, com Anna Amália a juntar à sua volta um belo conjunto de intelectuais, a fazer muito pela vida cultural da região, a tratar de criar uma excelente biblioteca feminista avant la lettre (entre os livros habituais naquela época, encontrava-se uma quantidade surpreendente de livros de mulheres, sobre mulheres ou para mulheres), a criar uma escola de artes para elevar o nível cultural da população.

Foi então que Wieland convidou Goethe a vir passar uns dias a Weimar, “parece-me que vais gostar”, terá ele dito. Goethe, que andava pelos 25 anos e já tinha escrito Os Sofrimentos do Jovem Werther, foi, encontrou uma corte a viver literalmente em cima de caixotes porque o palácio ducal tinha ardido quase todo (sobrou a bastilha de Bach, ao menos isso) – e ficou.

Uma dama da corte, Charlotte von Stein, deve ter sentido a atracção do abismo, porque andou décadas a tentar dar modos – lá está: corteses – àquele génio intempestivo. Acabou por desistir quando Goethe meteu em casa uma “barregã”, Christiane Vulpius, e quando partiu apressada e clandestinamente para Itália, mais que farto dos tantos espartilhos que lhe impunham. Pois Goethe lá partiu para a Itália, e lá voltou feliz e contente, lá recebeu das mãos do grão-duque (o Carl-August, sabem? Aquele dos cães de raça Weimaraner) uma casa muito jeitosa e mais central que a sua primeira propriedade, que ficava no parque do rio Ilm, bem longe do palácio e da cidade. Na realidade, a sua nova casa era composta por duas: tinha o edifício imponente, virado para a rua, uma autêntica casa de fachada onde ele recebia as visitas importantes, e por trás desse a casa mais simples, onde vivia com a sua companheira Christiane Vulpius e o seu filho August. Nas traseiras desta, havia um grande jardim onde o escritor fazia experiências botânicas, e os pavilhões onde guardava as colecções de pedras, esqueletos de animais, e o muito mais que suscitava a sua curiosidade universal.

Goethe

Sala da “casa da fachada” de Goethe. Foto © Helena Araújo

Goethe regressara tão cheio de boas impressões que a todos contagiou com a “febre da Itália” e, um a um, toda a corte foi conhecer esse universo tão diferente das terras de Weimar, e regressou a casa com muito mais mundo.

Eis que Schiller entra em cena. A princípio ficou-se por Jena, a 20 km de distância. Goethe devia achar que Weimar era demasiado pequena para ambos. Só ao fim de vários anos é que se dignou falar com “o outro”, acabando os dois por ficar amigos. Embora nunca se saiba o que significa “amigos” quando se trata de Goethe. Na terra, conta-se que terá tido o crânio do seu companheiro Schiller em cima da secretária. Eu cá não sei de nada, ouço coisas destas e lembro-me logo do museu que exibia o crânio de Napoleão aos sete anos de idade. Tanto mais que as dificuldades financeiras de Schiller obrigaram a que a família o enterrasse numa vala comum, e ainda hoje não se sabe a quem pertencem os ossos desencontrados que muitos anos mais tarde foram buscar a esse cemitério para depositar numa urna mais digna, ao lado da de Goethe, no solene túmulo da família ducal.

Schiller não demorou a sair de cena – demasiado cedo, como todos os que vêm ao mundo por bem. É então a vez de Napoleão chegar a Weimar e ser recebido – que remédio! – com todas as honras no palácio ducal novo, construído sobre as cinzas do incêndio. Foram tempos difíceis para a cidade, com os soldados franceses a saquear e destruir tudo o que podiam. Conta-se na terra que Christiane Vulpius, a mulher com quem Goethe vivia há mais de vinte anos, defendeu a sua casa – as duas, aliás, a da família e a da fachada – com unhas e dentes, e por isso Goethe decidiu casar com ela num ímpeto de Sturm und Drang. Também se diz que eles não defenderam nada, limitaram-se a albergar naquela famosa casa alguns dos comandantes franceses. E também se diz que Goethe terá decidido casar com a sua companheira porque, perante o devastador cenário de tantas mortes e destruição, terá pensado em fazer alguma coisa acertada na vida. Em todo o caso: em meia dúzia de dias tomou a decisão e consumou: casou com “a sua barregã”. O que provocou grande escândalo em Weimar. Mas a mãe do Schopenhauer abriu uma pequena brecha no muro de resistência da corte, dizendo: “Se Herr Goethe lhe deu o seu nome, nós seremos capazes de lhe oferecer um chá.” E recebeu a recém-casada Frau Goethe no seu salão.

Bauhaus. Oskar Schlemmer

Pintura mural de Oskar Schlemmer. Bauhaus. Foto © Helena Araújo

 

Pouco antes das invasões francesas e daquela vitória perto de Jena que abriu a Napoleão o caminho para leste, chegara a Weimar uma princesa russa, neta de Catarina, a grande, recentemente casada com o filho de Carl August. Este escrevera uma carta muito humilde ao czar, dizendo que sempre tivera esse sonho, sem que ousasse dizê-lo em voz alta, mas ao saber que um primo dele casara o seu filho com uma das princesas suas filhas, vinha agora temerariamente patati-patata. E foi assim que a pobre da Maria Pavlovna, coitadita, veio de São Petersburgo para Weimar. Ao chegar, pensou que o palácio ducal seria a residência familiar para as férias no campo. Mas não, era mesmo ali que faria o resto da sua vida, e lá tentou fazer o melhor que podia. Por sorte, pouco depois de casar teve de fugir às tropas francesas e regressou a casa durante algum tempo. Matar saudades da vida urbana, luxos assim. Mas não há guerra que sempre dure (“infelizmente…”, terá ela suspirado – isto sou eu a imaginar), e lá voltou para Weimar, onde assumiu as suas funções com dignidade e sentido de dever.

Quando a vida te dá limões em forma de um Herr Goethe já entradote, convidas Liszt para vir morar na tua província e tentas dar nova força à sua vida cultural, agora com música. Foi isso mesmo que a princesa russa fez, e correu bem: tal como anteriormente muitos escritores tinham procurado a proximidade de Goethe, em meados do século XIX vários compositores marcaram a vida cultural da cidade. O mais famoso será com certeza Wagner (e talvez viesse mais por causa da filha de Liszt que pelo colega propriamente dito), e aqui estreou Tannhäuser.

Para além de dar novo fôlego à vida cultural da cidade, Maria Pavlovna fez muito mais por Weimar: desde elevar o nível político do ducado e garantir uma protecção especial devido à aliança com a Rússia, até uma obra social muito abrangente, em grande parte paga do seu próprio bolso, que fez dela uma grã-duquesa muito amada pelo povo.

Na segunda metade do século XIX não acontece nada de realmente empolgante na cidadezinha, excepto em termos de marketing: reforça-se a ideia da importância histórica da cidade no panorama cultural alemão, põe-se em frente ao teatro uma estátua de Goethe e Schiller, ambos do mesmo tamanho e volume (na vida real, faziam a figura do Bucha com o Estica), com as mãos unidas por uma coroa de louros que Goethe entrega a Schiller, mas tendo cada um deles o olhar no seu próprio horizonte. A estátua foi feita com o bronze de canhões fundidos, oferecido pelo rei da Baviera. Canhões dos turcos, diga-se de passagem – e pergunto-me que diria Goethe, o do Divã Ocidento-Oriental, sobre esse detalhe.

Buchenwald, Nazismo

Memorial dos povos Sinti e Roma vítimas dos nazis. Foto © Helena Araújo

 

Damos agora um salto de várias décadas até ao fim da Grande Guerra 1914-1918. Em 1919, a pacata cidade é sacudida por duas enchentes: os estudantes que rumam à nova escola, a Bauhaus, onde se sentem parte de um movimento inebriante de modernidade; e os deputados que fogem aos violentos tumultos de Berlim para aqui escreverem com mais sossego a constituição da República recém-criada. A população de Weimar olha para toda esta gente com perplexidade. Desconfia em particular do pessoal da Bauhaus, essas raparigas de cabelos curtos que andam misturadas com rapazes, esse estranho Johannes Itten que faz no parque de Goethe cerimónias esotéricas com os seus (e as suas!) estudantes em trajes menores. Os deputados regressam a Berlim com a constituição da República de Weimar, escrita no teatro de Goethe e de Schiller, de Wagner e do Shakespeare de Wieland. A Bauhaus fica. As mães da cidade ameaçam os filhos: “Se não comes a sopa toda, vêm por aí os da Bauhaus!”

Talvez os meninos não tenham comido a sopa toda – e quem veio foram os nazis. A Turíngia, onde fica Weimar, é uma das primeiras regiões onde se implantam. Weimar adora Hitler, Hitler adora Weimar – e apropria-se da sua herança histórica, e manipula-a segundo as suas conveniências.

A Bauhaus é expulsa de Weimar e muda-se para Dessau. Junto à primeira casa construída pelos seus arquitectos, a Haus am Horn, aparecem casas novas, num estilo mais ao gosto dos nazis. Apesar de terem sido construídas vários anos depois, parecem cem anos mais antigas.

Pormenor do portão da entrada, com a expressão “a cada um o seu” (ou “a cada um o que lhe é devido”) com letras desenhadas por um antigo estudante da Bauhaus, ali prisioneiro, que escolheu para elas a estética moderna da sua escola como acto de tenaz resistência. Foto © Helena Araújo

 

Numa colina junto à cidade, na floresta onde Goethe tanto gostava de passear, nasce o campo de concentração de Buchenwald, e durante oito anos ali serão cometidos diariamente crimes hediondos. No centro da cidade constroem o Hotel Elefante “para mil anos”, como o Terceiro Reich, com uma única varanda virada para a praça onde fica também a casa de Lucas Cranach. É a varanda do Führer. Quando este vem de visita, a população da cidade enche a praça e chama o seu querido Führer em brados festivos: “Lieber Führer komm heraus, aus dem Elefantenhaus. Lieber Führer sei so nett, tritt zu uns ans Fensterbrett.” [Querido Führer, vem cá fora, sai do Elefante agora. Querido Führer, sê gentil, vem mostrar-te ao peitoril”]

E é aqui, precisamente aqui, que Weimar me provoca enorme tristeza, profundo desalento: depois dos escritos de Lutero que Cranach distribuía, depois da música de Bach nas igrejas, de inúmeras encenações das peças de Shakespeare e de Schiller no teatro, de todo o trabalho de Goethe, depois de tantos salões culturais, depois da biblioteca e da escola de artes de Anna Amalia, depois das obras de apoio social de Maria Pavlovna, depois de todo o esforço para implantar valores humanistas na sociedade e elevar o nível cultural e social da população, Weimar foi um dos primeiros lugares onde os nazis se conseguiram estabelecer.

Varanda. Hitler. Weimar

Na praça principal de Weimar há uma varanda arrepiante: foi feita de propósito para Hitler se mostrar à cidade e ser aclamado pela população que o adorava. Foto © Helena Araújo

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversa.

 

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