“When Love comes to town…”

| 24 Out 19

Comunidade cristã Sal, na Noruega. Foto © Marta Parada

 

Chegou o outono. E eu, que sou movida ao ritmo das estações, já trago comigo aquela melancolia dos ciclos. Chegou o tempo das rotinas que nos trazem estabilidade, mas nos retiram a espontaneidade do tempo sem tempo. E depois a vulnerabilidade do recomeço, essa de novo nudez onde tudo é possível.

Quando no outono de 2016 mudámos de cidade na Noruega procurávamos outros impulsos, mais histórias para contar, um recomeço. Era um outro ciclo que se abria. Vínhamos movidos por novos desafios, mas não conhecíamos uma única pessoa. A mudança foi extenuante, mas as longas e repetidas viagens com cenários inesquecíveis foram aquele tempo sem tempo de que estávamos a precisar para nos sintonizarmos.

Por fim instalados. Batem à porta. Dois rostos calorosos, uma flor e um cartão de boas vindas ao bairro foi o suficiente para já não nos sentirmos tão sozinhos. Chamam-se ele Truls Åkerlund e ela Gro Åkerlund. Têm três filhos já crescidos e são um casal enérgico, adorável e de uma imensa hospitalidade.

Viríamos um pouco mais tarde a saber que o Truls era teólogo e pastor e Gro professora primária, e que juntos implantariam em 2017, uma nova comunidade pentecostal de nome Salt (Sal).

Não tinha qualquer conhecimento sobre comunidades pentecostais, mas no contacto com aqueles dois seres humanos senti confiança, abertura e acolhimento.

O convite para experimentar fazer parte da Comunidade Sal surgiu de longas conversas sobre a minha tradição cristã/católica em Portugal e a participação activa como militante do MCE ( Movimento Católico de Estudantes). “Aparece se quiseres. São muito bem-vindos.” O convite foi pessoal e talvez por isso mais fácil de aceitar.

Sonho uma vida de tolerância, de abertura ao diferente, de liberdade e respeito por cada ser humano em todas as suas vertentes. Afasto-me das verdades absolutas e das fugas ao essencial. Porque não experimentar?

As comunidades, sejam elas religiosas ou de qualquer outro teor, se cumprirem valores essenciais como a liberdade de expressão, afastando dogmas e aceitando a diferença como lugar comum, podem ser espaço de um imenso crescimento pessoal e comunitário, e desse modo ter um impacto positivo na sociedade em geral. Com estas premissas pessoais, arrisquei procurar esse lugar e aceitei o desafio.

Quis, pois, saber mais sobre o Salt e disponibilizei algum tempo para ir a algumas apresentações.

A primeira foi organizada no andar de cima de um conhecido café da cidade, reservado para o efeito. Fim de tarde, depois do trabalho. O espaço era acolhedor e à entrada ofereciam pequenos copos com uvas e o clássico café em copo. O convidado era o pastor Øystein Gjerme, fundador da primeira comunidade na Noruega, em Bergen. Øystein falava energicamente e num discurso muito novo e actual. As palavras-chave que retive foram a vida de Jesus entendida nos dias de hoje, encontro com cada ser humano e a sua história e comunidade aberta a todos. Identifiquei-me com o discurso.

Estruturalmente, entendi que os principais momentos se dividiam nos Lifegrupper (grupos de vida), em que mulheres e homens se juntam, em semanas alternadas, numa casa definida previamente, para partilhar, reflectir e rezar; e o Gudstjeneste (Serviço de Deus/Celebração), uma celebração a cada quinze dias onde toda a comunidade se reúne para celebrar a Vida em Jesus e onde as crianças têm também um lugar privilegiado na Barnekirke ( Igreja das crianças).

No documento sobre o Sal lê-se: “A igreja com que sonhamos: uma nova igreja, uma igreja que segue Jesus, uma igreja em crescimento, uma igreja que festeja, uma igreja do dia-a-dia, uma igreja de relação, uma igreja de missão, um igreja em aprendizagem, uma igreja de serviço, uma igreja rica de conhecimento.”

Participar nos Lifegruppe tem sido uma experiência renovadora. Tenta-se trazer para a vida de cada um a vida radical de Jesus transcrita em passagens bíblicas previamente preparadas, partilham-se pontos de vista. Reza-se por todos e cada um e agradecem-se as subidas e descidas trazidas pela vida.

Comunidade cristã Sal, na Noruega. Foto: Direitos reservados

 

Dois anos volvidos e a sala de teatro estava composta. Era o primeiro Gudstjeneste naquele novo espaço – o Parkbiografen – um pequeno e charmoso teatro local construído em 1920, com lugar sentado para cerca de 300 pessoas.

À entrada as prolongadas e calorosas boas vindas a que já nos habituaram. Servia-se café e bolinhos. Para os miúdos, um copinho de doces ou batatas fritas. O palco estava bem iluminado. “When Love comes to town” era o mote. Nenhum ícone. Quatro guitarristas, um baterista, um pianista e três cantores, todos talentos do Salt postos ao serviço. Muitos rostos jovens. Éramos cerca de 200. Tudo a postos.

Do alto da sua imensa ternura, a Gro iniciava a celebração de sorriso aberto convidando a que nos sentíssemos em casa e escolhêssemos a nossa forma própria de participar. A letra passava no ecrã e a música era forte, profunda e emocionante. Havia quem cantasse de olhos fechados e elevasse as mãos, outros apenas escutavam. Alguns dançavam.

E depois os sermões do Truls. Como sempre, eloquentes, brilhantes e humorados. Comoventes e actuais.

“As pedras foram largadas e cada um foi saindo até ficarem apenas Jesus e aquela mulher.

Foi o Amor que chegou à cidade naquela manhã de outono há cerca de 2000 anos atrás.

When love comes to town, tudo se transforma” (Truls Åkerlund).

Chegou o outono e aninho-me numa chávena de chá enquanto ouço um podcast do Salt.

Lá fora chove a cântaros.

Os miúdos cresceram. Já não são os mesmos de antes do verão. Eu também não.

O que nos une no planeta é tão mais do que o que nos separa!

Comunidade cristã Sal, na Noruega. Foto © Marta Parada

 

Marta Parada Carvalho é médica pediatra e vive em Skien, Noruega

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