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autores - Silas de Oliveira

Entre Margens

“With God on our side”: O regresso das guerras de religião

| 02/07/2025

 

Os mais velhos entre nós, os que tínhamos vinte anos nos anos 60 do século passado, alguma coisa aprendemos nas canções de protesto desse tempo. Como escreveu Bob Dylan: “A cavalaria atacava / e os índios caíam. / A cavalaria atacava / e os índios morriam. / Mas o país era jovem / com Deus do seu lado.”

Pôr as “guerras de religião” em título parece hoje abusivo. Podemos sempre dizer que a verdadeira causa de todas as guerras é a posse de território e das riquezas que ele contém; mais a localização geoestratégica – há sítios que serão sempre disputados por todas as potências à sua volta: por exemplo, os canais de navegação, ou as planícies que se prestam a ser grandes campos de batalha.

Mas a religião fornece à guerra dois contributos fundamentais: sentimento de identidade “sagrada” e capacidade de martírio. E eles são assumidos nas guerras a que assistimos hoje, pela televisão; são declarados por combatentes e por comandantes, mesmo no espaço dos três monoteísmos históricos da herança abraâmica – por sua ordem, o judaísmo, o cristianismo e o islão.

Um dos casos extremos mais chocantes é o da Igreja Ortodoxa Russa, em que o Patriarca Cirilo definiu como “guerra santa” a “operação militar especial” do Presidente Putin contra a Ucrânia, para proteger o mundo russo “do ataque do globalismo e da vitória do Ocidente, que caiu no satanismo.” O problema é que este Patriarcado da Igreja Ortodoxa Russa considera que a Ucrânia faz parte do seu “território canónico”. [ver 7MARGENS]

Outro, ainda no espaço do cristianismo, é o do “evangelicalismo” populista que abençoa Donald Trump como “ungido” por Deus para salvar a América, com cerimónias de bênção e “imposição de mãos” na Casa Branca, tanto no dia da posse como na primeira reunião do novo Executivo. Não era isto que desejavam os “pais fundadores”. Leia-se a Primeira Emenda da Constituição, que exige a liberdade de religião, mas condena qualquer religião “oficial”.

Os EUA ainda não são uma teocracia, mas vão por esse caminho, e o Presidente Trump cai em tentação teocrática todos os dias, nas chamadas “guerras da cultura”; e nas guerras do exterior, a sua base de apoio MAGA está cheia de “sionistas cristãos”, de que já aqui falámos. [ver 7MARGENS]

Nos casos piores, à nossa volta, já não é só a imposição de uma fé exclusiva, à custa de todas as outras e sob a protecção do Estado: há mesmo clérigos no poder, cuja pregação define a natureza “sagrada” do verdadeiro patriotismo.

No Irão, há muito pouco tempo, uma mulher podia ser morta na rua, ou na esquadra para onde fora levada, por cortar ou expor o cabelo contra as regras do extremismo islâmico local. No Afeganistão está em vigor uma obsessão pelo apagamento do corpo da mulher, que não pode ser vista em nenhuma parte do seu corpo, nem escutada a sua própria voz na rua.

Em Israel, os ultra-ortodoxos dos partidos de extrema-direita que sustentam o Governo de Benjamin Netanyahu já não escondem o propósito de despovoar a Palestina. E dão um fundamento bíblico: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel, como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egipto. Vai, pois, agora e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de mama, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos.” (I Livro de Samuel 15: 2-3)

“Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé será vosso; desde o deserto, e desde o Líbano, desde o rio, o rio Eufrates, até ao mar ocidental, será o vosso termo. Ninguém subsistirá diante de vós; o Senhor vosso Deus porá sobre toda a terra que pisardes o vosso terror e o vosso temor, como já vos tem dito.” (Deuteronómio 11: 24-25)

O principal campo de batalha, neste caso, é o Monte do Templo, onde está a Mesquita de Al-Aqsa. Ora, não será possível construir o Terceiro Templo, desejado por uns, sem demolir a Cúpula do Rochedo, defendida pelos outros. De um lado e de outro, haverá muitos milhares de candidatos a mártires, dispostos a matar ou a morrer pela sua causa.

Em Jerusalém, no coração da Terra Santa – como escreveu o historiador e diplomata Aaron David Miller no título do seu livro, uma “terra demasiado prometida”…

 

Silas Oliveira é membro da Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa

 

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