Novo livro apresentado em Lisboa

Wladimir Kaminer: da Páscoa para o mundo

| 6 Abr 2024

A Incredulidade de São Tomé (1601-02), de Caravaggio

A Incredulidade de São Tomé (1601-02), de Caravaggio: “Transmitir a alguém a fé cristã é uma tarefa muito difícil.” Foto © Domínio público, via Wikimedia Commons.

 

“O que é a Páscoa? Sei que morreu alguém – mas quem era essa pessoa?”

Quem fazia tais perguntas era um jovem inglês, finalista do liceu na Escola Europeia de uma cidade do sul da Alemanha, em finais do século XX. Depois de superar o meu próprio espanto, falei-lhe do Natal (um Deus que se faz humano), de Jesus (“oh, esse era um tipo cool, toda a gente o conhece”, comentou ele com um sorriso enorme) e por fim narrei a traição, a morte na cruz e a ressurreição. Olhou-me como se tivesse acabado de lhe contar uma história delirante. “Vocês acreditam nisso?!”, perguntou ele, e no seu rosto espelhou-se uma tolerância benevolente.

Transmitir a alguém a fé cristã é uma tarefa muito difícil. Especialmente quando os valores e os simbolismos são transportados por uma Igreja que se revela de mãos sujas ao longo da História – e, por desgraça, também no presente. A sede de espiritualidade e transcendência continua a existir no ser humano, mas os caminhos dessa busca são cada vez mais diversos e, nomeadamente no contexto social europeu, deixaram de ser um monopólio das igrejas. Ao mesmo tempo, a cultura e os valores mais essenciais da nossa Europa assentam no cristianismo. Sem um conhecimento básico da tradição cristã, ninguém entenderá o essencial de muitas obras de Bach ou Da Vinci, por exemplo. E, no que diz respeito aos valores, reconhecemos a maior grandeza àqueles que agem movidos por imenso amor aos outros – o que é, afinal de contas, o essencial da mensagem de Jesus Cristo.

Num mundo onde convivem cada vez mais o ateísmo, o agnosticismo e múltiplas espiritualidades alternativas, qual será o lugar do cristianismo e da sua interligação com a nossa cultura? Será que, em algum momento, as imagens da cultura cristã passarão a ser vistas e entendidas do mesmo modo que as da antiguidade clássica? “A Anunciação” equiparada a “Leda e o Cisne”? “O Rapto das Sabinas” ao lado de “A Matança dos Inocentes”? Será que frases como “atire a primeira pedra” e “mais facilmente passa um camelo pelo buraco de uma agulha…” serão usadas com a mesma ignorância sobre o contexto original com que hoje dizemos “o dinheiro não tem cheiro” ou “in vino veritas”?

E se outra fé vier ocupar o lugar do cristianismo, e se sociedades futuras misturarem novos simbolismos às nossas datas maiores: quem ressuscitará no domingo de Páscoa?

Não sei, mas estou certa de que se tratará sempre de um Ser que apela ao melhor que há em nós, e que nos convida a ir além da nossa imperfeição humana, com vista à construção de um mundo melhor para todos. O que quer que seja que isso significa: caberá sempre a nós descobrir.

***

Wladimir Kaminer: “Fiquei a admirar ainda mais o ser humano que existe por trás dos seus livros.” Foto: Direitos reservados.

 

Como todos os outros, também este texto tem uma história. Começou num lago em Brandeburgo, num dia primaveril. Estávamos num barquito com Wladimir Kaminer, o escritor alemão de origem russa que vive há mais de trinta anos em Berlim, e queríamos espreitar os castores no seu afã de construção. “Desde que tenho este motor eléctrico no barco, o lago tornou-se muito mais interessante, porque vou a todo o lado sem fazer barulho, os animais não se assustam”, comentou.  Os animais deviam estar a fazer a sesta, porque não vimos nenhum. Ficámos por ali a saborear o sol e a paz, e a conversar amenamente. Wladimir Kaminer tinha de escrever um texto sobre a Páscoa, a pedido de uma organização das Igrejas Evangélicas alemãs que distribui textos para publicação nos jornais das comunidades locais, e faltavam-lhe ideias.

Num impulso, disse-lhe que me ocorriam duas ou três frases sobre o assunto, e que depois lhe enviaria. De regresso a casa, escrevi este texto e enviei-lho. Só muito depois me dei conta do desplante e da ousadia: que escritor aceita sem melindre que alguém lhe sugira o que escrever sobre um tema?

Wladimir Kaminer leu, e respondeu logo, elogiando imenso o meu texto, e que merecia ser publicado em todos aqueles jornais e revistas, e que o ia enviar à organização evangélica. Estou convencida que nem lhe passou pela cabeça, ou pelo coração, sentir-se ameaçado no seu orgulho de criador e de escritor famoso. E eu, que já gostava muito do que ele escreve, fiquei a admirar ainda mais o ser humano que existe por trás dos seus livros.

De facto, não era novidade. Já me tinha dado conta da sua humanidade dez anos antes, quando assisti a três entrevistas consecutivas que lhe fizeram por ocasião do lançamento do Viagem a Tralalá [ed. port. Tinta-da-China].

Cada jornalista fazia praticamente as mesmas perguntas, mas, de cada vez, Wladimir Kaminer abria um sorriso enorme, como se tivesse estado toda a vida à espera daquele momento e por fim aparecia alguém para falar sobre o tão almejado assunto. E, de cada vez, a resposta era diferente.

 

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Conheci Wladimir Kaminer em 2011, quando estava a traduzir o Viagem a Tralalá. Tinha dúvidas em relação a algumas passagens do livro, que queria esclarecer com ele. Picuinhices do género “quando usa a palavra ‘bode’ como insulto num diálogo, está a pensar em russo ou em alemão? Que animal devo usar para um insulto correspondente em português?” De férias numa ilha do Mar Báltico, descobri que ele ia ter uma sessão de leitura no teatro local. Comprei bilhete, falei com a organizadora, que era também a jornalista da terra e ficou muito satisfeita por poder acrescentar mais uma frase empolgante ao seu artigo sobre o evento (“a tradutora portuguesa de Wladimir Kaminer também estava presente na sessão”), e foi assim que nos conhecemos, fizemos uma fotografia para o jornal, e eu pude esclarecer todas as dúvidas.

O lançamento do Viagem a Tralalá foi assinalado com uma “Russendisko” épica na Pensão Amor, em Lisboa, que obrigou a fechar as portas porque o chão estava em risco de ceder com tantas pessoas a dançar ao ritmo daquelas músicas russas e ucranianas. E foi também ocasião de dar a conhecer ao casal Kaminer alguns lugares especiais de Portugal: Óbidos, onde já em 2012 brindámos com tristeza à memória dos tantos que Putin enviava para a morte; a biblioteca de Mafra e um concerto extraordinário com os quatro órgãos; Marvão e Estremoz, onde estávamos a passear quando a filha telefonou e, ao ouvir a descrição da mãe (“Dormimos numa pousada onde há uma torre toda feita de mármore, numa cidade onde até os passeios são de mármore branco!”), perguntou se os pais tinham ido parar sem querer ao País das Maravilhas.

Mais tarde, tiveram oportunidade de conhecer outros lugares encantados de Portugal. Alguns deles fizeram o seu caminho até um livro. A feira de Barcelos, por exemplo: “um mercado do outro lado dos montes”, que aparece em “Duas ou três coisas que sei sobre a minha mulher”, onde Wladimir Kaminer conta a história dos guardanapos bordados que Olga comprou (“e foi nesse dia que uma família portuguesa se tornou milionária”), que no final de Dezembro são tirados do armário para pôr na mesa da festa de passagem de ano, olhados longa e amorosamente, e de novo guardados no armário porque são demasiado bonitos para se sujarem naquela festa cheia de excessos. Moral dessa história sobre o sentido da existência: “Todos precisamos de alguém que nos dê amor.”

Da feira de Barcelos passámos à famosa Russendisko berlinense de Wladimir Kaminer, onde o meu marido e eu trabalhávamos com o prazer de voluntários: ele chegou a dar os primeiros passos como DJ, eu ficava na caixa e recebia centenas de sorrisos por noite. O ambiente era alegre e descontraído. Ao contrário de todos os outros clubes de Berlim, onde os seguranças usam e abusam do seu lugar de poder, a função dos seguranças à porta do Kaffee Burger, junto à Rosenthaler Platz, era apenas verificar se as pessoas não estavam demasiado embriagadas, a ponto de provocarem distúrbios. Os outros, todos os outros, eram bem-vindos naquele lugar profundamente democrático e livre.

 

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Doze anos mais tarde, traduzo novo livro de Wladimir Kaminer: Pequeno-almoço à Beira do Apocalipse, editado pela Zigurate.

Um livro que olha com humor e amor para nós e para as respostas que vamos encontrando perante as múltiplas crises e perplexidades do tempo em que vivemos.

Foi um prazer enorme traduzir cada uma daquelas frases. Também foi um trabalho intenso, porque as frases de Wladimir Kaminer só aparentemente são simples. Ele serve-se da língua alemã com uma mestria que torna particularmente difícil recriar noutra língua frases igualmente curtas e tão plenas de sentidos. Um trabalho desafiante.

As linhas que se seguem vão parecer publicidade, mas eu entendo-as como serviço público. Depois me dirão.

O lançamento de Pequeno-almoço à Beira do Apocalipse vai ser em Lisboa, no dia 9 de Abril, às 18h30, na Escola Alemã. Ricardo Araújo Pereira apresenta o livro. No final, para a alegria ser completa, Wladimir Kaminer vai mostrar o seu lado DJ para nos oferecer ali mesmo um pouco da famosa Russendisko do Kaffee Burger. Devido à invasão da Ucrânia, a Russendisko anda à procura de outro nome. Em Portugal, no dia 9 de Abril de 2024, será, como não podia deixar de ser, a nossa Aprildisko.

No dia 10 de Abril, às 19h00, haverá no Goethe Institut, também em Lisboa, uma conversa de Wladimir Kaminer com Aurora Rodrigues, Irene Pimentel e Leonor Rosas sobre “O charme discreto da ditadura – o que leva as pessoas a glorificar ditadores?” Joana Manuel será a moderadora. É a resposta a um interesse manifestado pelo escritor, que quer aprender mais sobre a ditadura portuguesa e tentar responder à questão do misterioso poder apelativo das ditaduras e dos ditadores. Todos conhecemos o fenómeno em Portugal (“ah, se Salazar aqui estivesse…”), e Wladimir Kaminer conhece-o bem na Rússia: desde Estaline quase ter sido eleito “o melhor de nós” num concurso televisivo (que foi interrompido para impedir o facto consumado), até jovens russas que todos os anos posam para calendários eróticos que oferecem a Putin, sem que alguém as obrigue a isso, apenas porque gostam realmente do seu ditador.

Dada a importância deste tema, mais pertinente ainda no ano em que comemoramos o cinquentenário do 25 de Abril, e no momento político que atravessamos em toda a Europa, foi organizado um streaming com tradução simultânea, que permite assistir em todo o mundo à sessão do Goethe Institut. Mais informações aqui (em português) e aqui (em alemão).

 

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Para terminar, e a propósito da viragem à extrema-direita a que temos assistido no mundo, passo a palavra a Wladimir Kaminer: “Não podemos soçobrar no mar da loucura. Temos de manter a razão e o humor, continuar confiantes. Estamos perante ‘obras do diabo’, que se destruirão a si próprias. Não devemos demonizar os confusos. O Bem acaba por prevalecer, por formas que não sabemos explicar.”

Por formas que não sabemos explicar, diz ele. Talvez seja, afinal, a acção do tal Ser desconhecido de que falava no final do meu texto sobre a Páscoa: que apela ao melhor que há em nós e nos convida a ir para além da nossa imperfeição humana, com vista à construção de um mundo melhor para todos.

 

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