Xeque saudita de Meca saúda Portugal como “uma das fontes da civilização islâmica”

| 31 Out 18

Painel de azulejos na Mesquita Central de Lisboa (foto Maria Wilton)

O xeque Saleh Bin Abdullah Himeid, imã da Mesquita de Al-Haram, em Meca (Arábia Saudita), enalteceu em Lisboa o papel de Portugal como “uma das fontes da civilização islâmica”, que deixou “traços marcantes na cultura e na ciência”. Ao mesmo tempo, referiu que, quando estava em Medina, o profeta Maomé “não incluiu qualquer referência à exclusão de nenhum grupo na sociedade” do islão nascente, tendo antes feito uma “abordagem pluralista, que incluía a vivência em comum”.

Saleh Bin Abdullah Himeid foi o convidado de honra, sexta-feira passada, 26 de Outubro, na sessão solene de encerramento das comemorações dos 50 anos da criação da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), que decorreram  na Mesquita Central de Lisboa. A Mesquita de Al-Haram é a mais importante do mundo, já que é ali que se encontra a Caaba, que contém a relíquia mais sagrada do islão.

Na sua intervenção de sexta-feira, o xeque Himeid, que é também conselheiro do Palácio Real saudita, recordou ainda pensadores importantes do islão que viveram no território que hoje é Portugal, nomeadamente em Beja e Santarém, e onde os muçulmanos foram dominantes entre os séculos VIII e XIII, deixando um legado artístico e cultural (como algumas centenas de palavras de origem árabe) assinalável.

Na plateia, entre outras personalidades, estavam o primeiro-ministro António Costa, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, e o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, José Vera Jardim. Representantes de diversas confissões religiosas, entre os quais o núncio apostólico (representante do Vaticano) em Lisboa, Rino Passigato, bem como o presidente da CIL, Abdool Vakil, o imã da Mesquita Central, xeque David Munir e o xeque Zabir Edriss, que acompanha não muçulmanos convertidos, também estavam presentes.

O xeque Saleh Bin Abdullah Himeid, imã da Mesquita de Al-Haram, de Meca, na sessão solene em Lisboa (foto © Maria Wilton)

Antes, o xeque saudita presidira à oração de Jumah (oração do meio-dia de sexta-feira, a mais importante da semana islâmica). No seu sermão, o imã de Al-Haram afirmou: “Alá criou os seres humanos diferentes nos seus gostos, percepções, caracteres, natureza, inteligência e convicções. Cada pessoa tem a sua própria convicção, visão, compreensão e consciência. Assim, a diferença entre as pessoas não significa que alguns são melhores do que outros quanto às suas raças, tribos e classes, mas é uma diferença pelos benefícios, criatividade e multiplicidade de formas de conhecimento e cultura.”

“Construir pontes”

As diferenças, acrescentou o xeque Himeid, devem ser apenas as da “competição por coisas boas e positivas e pela corrida à dignidade” e também “para as pessoas se conhecerem umas às outras e nunca menosprezarem outras”.

Na mesma linha, insistiria ainda: “Entender o outro não implica acreditar no que ele diz. Se não fores diferente, o outro não o teria sido. E se duas pessoas concordam em tudo, não há necessidade de nenhuma das duas.”

Perante muitas centenas de crentes que acorreram à oração, enchendo mesmo o pátio da mesquita, o xeque Himeid acrescentou ainda que a igualdade entre as pessoas “nega a discriminação” e que “a coexistência é a vida comum entre as pessoas de diferentes naturezas e propósitos”.

Já no final, o imã de Al-Haram acrescentou uma referência que pode ser lida como uma alusão velada ao caso do jornalista Jamal Khashoggi, assassinado no consulado da Arábia Saudita na Turquia: “A unidade e convergência de posições (…) representam a força da nação e da preservação do país. Mas, nas actuais circunstâncias, repletas de inimigos, agressores e traidores, tornam-se cada vez mais necessárias e de uma maior importância. Por isso, é dever de cada responsável – seja qual for a sua responsabilidade, político, jornalista, professor ou outro, do sector público ou privado – meditar na situação, viver a realidade e absorver as consequências.”

No parágrafo seguinte, uma outra afirmação podia ser vista como uma menção e condenação da publicação das caricaturas de Maomé, ocorrida em Setembro de 2005 no jornal dinamarquês Jyllands-Posten: “É necessário (…) evitar tudo o que possa causar males, em vez de repará-los, contribuir para a criação de divisões em vez de unir, seja através de artigos, tweets, desenhos.”

O xeque Himeid acrescentaria, na sua intervenção na sessão solene da tarde, que é importante “construir pontes para promover positivamente a comunicação científica e cultural” entre povos diferentes. E defendeu que se deve dispensar o uso de termos como “minoria” ou “refugiados” pois eles contêm em si a ideia de “exclusão”.

Ser compassivo é alimentar quem precisa

Convidado para fazer a conferência de fundo, o xeque Ibrahim Mogra, do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha, falou das questões da compaixão, das preocupações ambientais e da visão muçulmana sobre a vida para além da morte.

Imã Ibrahim Mogra: Fé, Deus e boas obras vão de mãos dadas (Foto © Maria Wilton)

 

Afirmando que o ser humano é como um representante de Deus para gerir o planeta, o xeque Mogra disse que as pessoas não devem desperdiçar os bens da terra, mas também não devem deixar de usar cada fruto, cada planta ou animal. “Eles são um dom” que Deus dá aos seres humanos.

“As pessoas que mostram compaixão para com os outros e também pelos animais também receberão a compaixão de Deus”, afirmou depois, sublinhando que, nas orações muçulmanas, o versículo do Alcorão que diz que Deus é compassivo “é sempre recitado”. “Quando uma parte do corpo sofre, todos sofrem. E somos todos parte do mesmo corpo”, acrescentou.

Ibrahim Mogra afirmou ainda que, no islão, “os que são crentes só podem ser verdadeiramente crentes se amarem os seus irmãos”. E que tão pouco é possível “ser verdadeiramente crente num mundo em que a pobreza mata pessoas a cada momento”.

Ser compassivo é ser pacífico e alimentar as pessoas que necessitam, afirmou. E implica ainda não fazer mal a ninguém, mesmo por palavras: “É fácil usar a língua para dizer palavras bonitas mas também palavras más.” E concluiu: “Fé, Deus e boas obras vão de mãos dadas.”

O primeiro-ministro, António Costa, encerrou a sessão destacando a convivência pacífica entre crentes de diferentes religiões que existe em Portugal e afirmando que o Estado laico “não deve ignorar os sentimentos religiosos dos cidadãos”, mas antes tratar a todos por igual. “Temos de garantir que a identidade de cada um assuma os direitos do outro”, afirmou, exactamente no momento em que, na mesquita, o muezim fazia o chamamento à oração.

Breves

Boas notícias

Não há cerveja no Mundial do Qatar… mas há bagels casher

Iniciativa de dois rabinos

Não há cerveja no Mundial do Qatar… mas há bagels casher

A proibição da venda de bebidas alcoólicas nos recintos desportivos do Qatar tem gerado polémica, e chegou a temer-se que a comida casher (preparada de acordo com as leis judaicas) também tivesse sido banida. No entanto, graças a dois rabinos fãs de bagels e à Qatar Airways (que disponibilizou um espaço para a cozinha), os adeptos de futebol que sejam judeus praticantes não passarão fome durante o Mundial.

Outras margens

Cultura e artes

Mais do que A Voz da Fátima

Pré-publicação

Mais do que A Voz da Fátima novidade

Que fosse pedido a um incréu um texto de prefácio para um livro sobre A Voz da Fátima, criou-me alguma perplexidade e, ao mesmo tempo, uma vontade imediata de aceitar. Ainda bem, porque o livro tem imenso mérito do ponto de vista histórico, com o conjunto de estudos que contém sobre o jornal centenário, mas também sobre o impacto na sociedade portuguesa e na Igreja, das aparições e da constituição de Fátima e do seu Santuário como o centro religioso mais importante de Portugal. Dizer isto basta para se perceber que não é possível entender, no sentido weberiano, Portugal sem Fátima e, consequentemente, sem o seu jornal.

A narrativa que faltava ainda sobre os seminários

Livro “No Seminário Maior”

A narrativa que faltava ainda sobre os seminários

O romance “No Seminário Maior”, de Joaquim Tenreira Martins, antigo aluno desta instituição religiosa da Guarda, abre diversos cenários vividos, por centenas de jovens nos anos 60. Possuidor de várias licenciaturas, especializou-se em Ciências Políticas e Direito. O autor, de 77 anos, natural de Vale de Espinho, no concelho do Sabugal, trabalhou nas áreas sociais e culturais da Embaixada da Bélgica, desde 1972. Escreveu outros livros, tendo como pano de fundo a problemática da emigração portuguesa, naquele país.

A “Castro” e outros clássicos do teatro para descobrir em Lisboa (e no YouTube)

Clássicos em Cena em 7ª edição

A “Castro” e outros clássicos do teatro para descobrir em Lisboa (e no YouTube)

A Castro, de António Ferreira, e outras duas peças clássicas, serão objecto de duas leituras encenadas nas próximas sexta-feira e domingo. As sessões incluem-se no programa da 7ª edição dos Clássicos em Cena, que decorre na Livraria/Galeria Sá da Costa (R. Serpa Pinto, 19, ao Chiado, em Lisboa), com entrada livre, e também no canal do Teatro Maizum no YouTube.

Pessoas

Cardeal Zen condenado a pagar multa por ter defendido manifestantes

Hong Kong

Cardeal Zen condenado a pagar multa por ter defendido manifestantes novidade

O cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, foi condenado esta sexta-feira, 25 de novembro, a pagar uma multa de cerca de 500 euros pela sua colaboração com o 612 Humanitarian Relief Fund, que apoiou manifestantes pró-democracia a pagar multas e fianças em 2019. Sobre ele, recai ainda a acusação de conluio com forças estrangeiras, pelo que poderá vir a enfrentar penas mais graves.

Sete Partidas

Desobediência

Desobediência

Recentemente fui desafiada a algo que não esperava. Provavelmente deveria começar a ensinar a minha filha a prevaricar, disse-me o meu pai. Foi a palavra escolhida. O sentido era o de rebeldia, de desobediência. Eu fiquei a pensar.

Visto e Ouvido

Agenda

[ai1ec view=”agenda”]

Ver todas as datas

Entre margens

Sentido e valor da dualidade sexual

Sentido e valor da dualidade sexual novidade

A sociedade edifica-se a partir da colaboração entre as dimensões masculina e feminina. Em primeiro lugar, na sua célula básica, a família. É esta que garante a renovação da sociedade através da geração de novas vidas e assegura o desenvolvimento harmonioso e complexo da educação das novas gerações. Por isso, nunca um ou mais pais pode substituir uma mãe e nunca uma ou mais mães podem substituir um pai.»

Crentes e discípulos

Crentes e discípulos

Apesar de muitos confundirem os dois conceitos, a verdade é que ser crente no Deus dos cristãos é muito diferente de ser um discípulo de Jesus Cristo. Vejamos alguns contrastes entre ambos.

Valores, religiosidade e idade secular

Valores, religiosidade e idade secular

A publicação de Valores e Religiosidade em Portugal – Comportamentos e Atitudes Geracionais (Afrontamento, 2022) do cónego Eduardo Duque constitui oportunidade para refletirmos sobre a necessidade de compreender a importância dos valores éticos e religiosos na sociedade contemporânea. Importa recordar o que Hermann Broch (1886-1951) afirmou sobre o “vazio de valores”, que afeta a sociedade contemporânea e os seus efeitos na fragilização comunitária.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This