Nobel da Paz não lhe será retirado

Ximenes Belo saiu dos salesianos em carro da embaixada e tem sanções do Vaticano desde há dois anos

| 29 Set 2022

Ximenes Belo, Timor-Leste

Ximenes Belo. Foto: Direitos reservados

 

Mal se soube da notícia das acusações de abusos sexuais contra o bispo Ximenes Belo, a embaixada timorense em Portugal enviou um carro à casa dos Salesianos das Oficinas de São José (Campo de Ourique, Lisboa), para levar o bispo para lugar desconhecido. A informação foi dada ao 7MARGENS ao final da tarde desta quinta-feira por uma fonte eclesiástica da capital, no mesmo dia em que o Vaticano confirmou que tinha imposto sanções ao Nobel da Paz 1996, que incluíam a proibição do contacto voluntário com menores e de viajar para Timor. Já o Nobel da Paz que Ximenes recebeu não lhe será retirado – tal não está previsto nas regras do prémio, disse ao 7MARGENS uma fonte oficial do Comité Nobel.

Estas reacções seguem-se à publicação, na véspera, de uma investigação da revista neerlandesa De Groene Amsterdammer, segundo a qual pelo menos duas pessoas terão sido vítimas de abusos, na década de 1990, por parte do bispo. As vítimas, hoje com 45 e 42 anos, eram na altura adolescentes com 14-16 anos. Mas a investigação diz que pode haver mais pessoas abusadas e que os casos relatados terão começado ainda antes, quando o então padre Ximenes Belo era o superior nos Salesianos de Dom Bosco, em Fatumaca, na década de 1980.

Tendo em conta o adiantado da hora e o facto de a Embaixada de Timor-Leste em Lisboa estar já encerrada, foi impossível confirmar junto da representação diplomática timorense em Lisboa se a saída de Ximenes Belo da casa onde residia nos últimos tempos se deveu ao próprio ou a alguém da embaixada. Um responsável da Embaixada contactado pelo 7MARGENS escusou-se a comentar a informação, lembrando a necessidade de respeitar a hierarquia diplomática e pedindo um novo contacto esta sexta-feira.

Na véspera, no entanto, como referimos, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor, José Luís Guterres – irmão da actual embaixadora de Timor em Lisboa, Isabel Amaral – ouvido pela Renascença, disse que nunca teve “conhecimento de que tenha havido algum inquérito ou alguma investigação da parte das autoridades, quer da procuradoria ou outros organismos da Igreja Católica” sobre a acusação que “estão a atribuir ao nosso querido bispo Ximenes Belo“.

Num comunicado divulgado também nesta quinta-feira, 29, a Província Portuguesa da Sociedade Salesiana admite que o bispo estava numa das casas da congregação.

O texto começa por dizer que foi “com profunda tristeza e perplexidade” que os salesianos tiveram conhecimento das notícias acerca “da suspeita de abusos sexuais de menores envolvendo” o bispo. Reitera depois a informação de que, desde que assumiu funções como responsável máximo da Diocese de Díli, Ximenes Belo “deixou de estar dependente da Congregação Salesiana.” No entanto, no Anuário do Vaticano de 2021, refere a Associated Press, Ximenes Belo aparece com as inciiais da congregação de origem à frente do seu nome: SDB, Sociedade de Dom Bosco.

No comunicado referido, os salesianos dizem que, “a pedido dos seus superiores hierárquicos” a província portuguesa “recebeu-o como hóspede durante os últimos anos”. E acrescentam que desde que o bispo está em Portugal “não tem tido quaisquer cargos ou responsabilidades educativas ou pastorais ao serviço” da congregação.

“O pedido de hospitalidade foi por nós aceite com toda a naturalidade por se tratar de uma pessoa conhecida e estimada por todos”, acrescenta o texto, publicado na página oficial dos Salesianos. “Sobre questões a respeito do conteúdo das notícias não temos conhecimentos para nos pronunciarmos, remetendo para quem tem essa competência e conhecimento”, conclui o texto.

 

Vaticano: proibição de regressar a Timor

Nesta mesma quinta-feira, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, afirmou que o Vaticano recebeu alegações “relativas ao comportamento do bispo” em 2019 e em 2020 impôs várias sanções ao bispo, que incluíam limitações aos seus movimentos e ao seu exercício do ministério, a proibição de contactos voluntários com menores ou de se deslocar a Timor-Leste.

De acordo com a Associated Press, citada pela cadeia de televisão ABC, o mesmo responsável afirmou que as sanções foram “alteradas e reforçadas” em Novembro de 2021 e que o bispo Belo tinha aceite formalmente a punição em ambas as ocasiões.

Na altura do seu pedido de resignação, nem Ximenes Belo nem o Vaticano deram quaisquer outras explicações para o facto além de razões de saúde e da necessidade de descanso. No entanto, depois da resignação Ximenes Belo trabalhou em Moçambique, onde esteve em contacto com crianças e jovens.

A notícia deixou em choque a sociedade timorense. Um jovem padre disse ao 7MARGENS que não acreditava na veracidade das informações veiculadas pela revista neerlandesa. Para ele, o que conta é que, durante o tempo da ocupação indonésia, o bispo andou “por todo o território de Timor-Leste como pastor que guardava as suas ovelhas, lutando muito pelo direito e pela dignidade do povo timorense.”

O Presidente da República, José Ramos-Horta, que recebeu o Nobel da Paz em 1996 juntamente com Ximenes, afirmou, ainda de acordo com a AP/ABC, que preferia aguardar novas acções por parte da Santa Sé.

Respondendo a uma pergunta do 7MARGENS sobre o que poderá acontecer num caso como este, o Comité Nobel foi peremptório: “Segundo o director Olav Njølstad, do Instituto Nobel norueguês, o Comité muito raramente comenta o que um laureado com o Prémio da Paz faz ou diz nos anos depois de receber o prémio ou sobre o que um laureado pode ter feito no passado sem relação com o seu esforço premiado.”

O porta-voz para os média, Erik Aasheim, acrescenta na mesma resposta: “Em geral, está também fora do âmbito de competências do Comité retirar um prémio uma vez atribuído. Os estatutos da Fundação Nobel excluem esta opção.”

A decisão do Comité Nobel foi justificada na época pelos esforços que Ximenes e Ramos-Hora faziam em várias frentes na defesa de uma solução justa e pacífica para a ocupação indonésia e o conflito que se lhe seguiu.

Em Lisboa, uma outra reacção à notícia veio do Patriarcado. Na sequência de uma notícia do Observador que dava conta de que o ex-patriarca, cardeal José Policarpo, tinha sabido do caso, a diocese da capital disse à RTP que não havia conhecimento de quaisquer intervenções do anterior patriarca. O caso é “da competência exclusiva da Santa Sé, quer por se tratar de um bispo, quer por serem factos ocorridos noutro país”, diz a resposta à televisão pública, manifestando também “profunda tristeza pela ocorrência” de casos de abusos.

 

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