Yasmine tem 11 anos e chegou a Itália procedente da Serra Leoa na última terça-feira. Chegou a Itália é uma maneira de dizer. De facto, veio ter à ilha de Lampedusa, trazida pelo veleiro de resgate Trottamar III, que a encontrou a sete quilómetros da costa. Encontrou é também uma maneira de dizer, porque ela foi a única sobrevivente de uma frágil embarcação naufragada.
Resistia há três noites e três dias agarrada a uma bóia e a um colete salva-vidas. Agarrou-se às últimas energias restantes para gritar e teve a sorte de, no meio do breu e da fúria das ondas, alguém a ter ouvido. Tê-la ouvido é ainda uma força de expressão, já que quem ouviu de facto perscrutava e andava em busca dela, sem saber de quem se tratava. “Foi um milagre ter ouvido a voz da menina, em alto mar, e com o motor do nosso barco ligado”, diz o capitão do veleiro da ONG.
Já em terra firme e rodeada de carinho e sorrisos, Yasmine falou. O que disse é a narrativa de muitos milhares de humanos como ela: saiu do seu país acompanhada do irmão e do pai e veio ter à Tunísia. Partiu de Sfax numa embarcação com mais de quatro dezenas de pessoas, incluindo o irmão. O pai ficou em terras tunisinas. Iniciou a travessia do Mediterrâneo e sobreveio a tempestade. Perdeu o irmão de vista e todos os outros e agarrou-se ao que pôde e resistiu enquanto teve forças. O resto, já o sabemos. A uma voluntária da ONG ligada aos evangélicos de Itália Mediterranean Hope (Esperança mediterrânea) que a visitou, Yasmine disse querer descansar, porque estava “um pouco cansada”.
A história vem descrita no diário italiano Avvenire e em vários outros meios de comunicação. Porque tem o condão de se tornar uma bela história natalícia. Na rede social X, alguém convidava a refletir sobre este caso: uma criança de 11 anos, três dias no mar, em dezembro, agarrada a duas bóias. “Se o teu coração não se parte, não existes, estás morto”, comentava. Um outro adotava um tom mais provocador e dizia: “Honra à #Yasmine, que não vos fez o favor de se esconder no fundo do mar. Ela ficou lá, resistiu, sobreviveu para vos lembrar o quão miseráveis sois”.

Yasmine, a criança da Serra Leoa salva no Mediterrâneo, ao largo de Lampedusa. Foto © Compass Collective
O jornalista Gad Lerner denunciou, também na rede X: “Houve um tempo, não tão distante assim, em que a única menina sobrevivente de 11 anos, resgatada das águas de Lampedusa, teria abalado a consciência dos italianos. De tanto ouvir que temos o direito de nos defender de invasões, acostumámo-nos a virar as costas”.
Acontece que o barco de 45 pessoas em que Yasmine foi metida, e que se afundou na viagem, foi apenas um dos muitos que nas últimas semanas têm tentado atravessar. Só nos últimos dias, foram cinco, com mais de três centenas e meia de pessoas. E os naufrágios frequentemente nem constam das contagens que são feitas.
Como reconhece Carmelo Rizzo, pároco de Lampedusa, “não podemos fechar os olhos e permanecer indiferentes. As migrações de inverno são muito arriscadas. Há quem se afogue, há quem morra de hipotermia”, porque as embarcações, além de sobrelotadas, não estão preparadas para enfrentar ondas de quatro ou cinco metros. Por alguma razão os pescadores locais lhes chamam caixões à vela. “E não há necessidade de explicar por quê”, remata o pároco.
O que inquieta é que as opiniões públicas andam embaladas pela lógica dos grandes media e dos lugares e problemas em torno dos quais eles fazem incidir os seus faróis potentes. Já foram os migrantes e algum dia voltarão a sê-lo. Foi depois a guerra decorrente da invasão russa da Ucrânia que, como é visível, acabou, mediaticamente falando. Depois de outubro de 2023, os focos viraram-se para o velho conflito do Médio Oriente. Quando assim acontece, quando a ‘onda mediática’ se forma e se eleva, parece que nada mais existe para além dela. Tudo o mais passa para a penumbra ou mesmo para a escuridão. E, no entanto, as tragédias e as lutas pela paz e pela justiça não foram suspensas.
Os migrantes não desapareceram e continuam a demandar o norte nas Américas e na África. Os inúmeros conflitos e a crise climática continuam a pôr milhões de pessoas em busca de vida melhor. Empurrada pelo nacionalismo e por um discurso chauvinista primário da extrema-direita, a União Europeia tem gasto fortunas a tentar travar a imigração no leste e a sul, muitas vezes através de soluções que, sem chegarem a ser uma guerra, são altamente custosas e perversas, em termos de vidas e de direitos humanos.
Bom seria que às lideranças políticas assistisse visão e vontade para saírem da órbita dos seus egos e interesses imediatos, já que é toda a comunidade internacional que paga ou pagará tal estreiteza de vistas e, sobretudo, as pessoas e comunidades das sete margens da vida.
Justo é, aqui, destacar a resiliência e profetismo do Papa Francisco de instar oportuna e inoportunamente – voz que parece tantas vezes, clamar no deserto – para que se saia ao encontro dos escorraçados da vida, contribuindo para endireitar caminhos que negam a dignidade humana.
Com o seu happy end, que Yasmine seja também a metáfora de todos os náufragos cuja voz é escutada, apesar do ruído ambiente.
Boas festas.









