Yom Kipur: misericórdia, justiça – e o que faz aqui Nina Simone?

| 20 Set 18

O que faz um homem que errou e não sabe para onde voltar-se em busca da redenção? Em Sinnerman, Nina Simone canta esse homem que corre, corre e não encontra onde esconder-se – e que apenas encontra a paz quando se socorre de Deus e do seu refúgio.

“Mais do que expressar a nossa fé em Deus, o Yom Kipur é a expressão da fé de Deus em nós”, escreve o rabi judeu inglês Jonathan Sacks, a propósito da festa que os judeus de todo o mundo assinalam desde a noite de 18 de Setembro ao fim da tarde de 19 de Setembro, no décimo dia do sétimo mês – o mês de Tishrei.  “Para aqueles que se abrem totalmente a ele, o Yom Kipur é uma experiência transformadora de vida. Diz-nos que Deus, que criou o universo em amor e perdão, nos alcança em amor e perdão, pedindo-nos para amar e perdoar os outros. Deus nunca nos pediu para não cometer erros. Tudo o que Ele pede é que reconheçamos os nossos erros, aprendamos com eles, cresçamos através deles e façamos as pazes onde pudermos”, escreve ainda, num texto com o título Yom Kipur – como ele nos salva, que pode ser lido aqui, na íntegra, em inglês.

O Yom Kipur, a Festa do Perdão, fala da possibilidade do erro e da possibilidade da purificação. Concluindo o período de dez dias da festa de Rosh Hashaná (literalmente, a “cabeça do ano”, ou Ano Novo judaico), Yom Kipur é a festa maior do judaísmo, assinalada por um jejum de 24 horas. Os cultos das sinagogas sucedem-se, como explica o rabi Marcelo M. Guimarães neste texto, que lê mesmo nas palavras de Paulo, na Carta aos Romanos – “Que homem miserável sou eu! Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte?” – alguma influência das orações do dia da expiação (Marcelo Guimarães integra a Associação Ministério Ensinando de Sião, que reúne judeus, não-judeus e descendentes de judeus que acreditam em que Jesus, Yeshua haMashiasch é o Messias de Israel). (Ao lado: James Tissot, Agnus Dei. O bode expiatório (1894), Museu de Brooklyn, Nova Iorque, EUA; ilustração reproduzida daqui)

No texto antes referido, Jonathan Sacks fala desta festa como uma celebração da possibilidade do exercício da liberdade: “Nenhuma religião sustentou uma visão tão elevada da possibilidade humana. O Deus que nos criou à Sua imagem deu-nos liberdade. Nós não somos contaminados pelo pecado original, destinado a falhar, preso nas garras de um mal que somente a graça divina pode derrotar. Pelo contrário, temos dentro de nós o poder de escolher a vida. Juntos, temos o poder de mudar o mundo.

Tão pouco somos, como alegam alguns materialistas científicos, meras concatenações de substâncias químicas, um monte de genes egoístas replicando-se cegamente no futuro. As nossas almas são mais do que as nossas mentes, as nossas mentes são mais do que os nossos cérebros e os nossos cérebros são mais do que meros impulsos químicos respondendo a estímulos. A liberdade humana – a liberdade de escolher ser melhor do que éramos – permanece um mistério, mas não é um mero dado. A liberdade é como um músculo e quanto mais o exercitamos, mais forte e saudável se torna.

O judaísmo pede-nos constantemente que exerçamos a nossa liberdade. Ser judeu não é ir com o onda, ser como todo a gente, seguir o caminho da menor resistência, adorar a sabedoria convencional da época. Ao contrário, ser judeu é ter a coragem de viver de uma maneira que não é o caminho de todos. Cada vez que comemos, bebemos, rezamos ou vamos trabalhar, estamos conscientes das exigências que a nossa fé faz em nós, de viver a vontade de Deus e ser um dos Seus embaixadores para o mundo. O judaísmo sempre foi, talvez sempre seja, contra-cultural.”

A festa de Yom Kipur tem uma forte raiz bíblica, como se explica neste outro texto, onde também se fala do significado desta festa para os cristãos e da origem da expressão “bode expiatório”.

O Yom Kipur fala, enfim, do acrescento da misericórdia à justiça, como explica ainda Jonathan Sacks: Deus “acrescentou misericórdia à justiça, compaixão à retribuição, tolerância ao estrito estado de direito. Deus perdoa. O judaísmo é uma religião de perdão, a primeira do mundo, de perdão.” (Aqui podem ler-se, em português, outros textos do rabi Sacks, a propósito da festa de Yom Kipur)

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