Yunus e a teoria dos três zeros

| 12 Mai 2023

Muhammad Yunus: “Temos um grande orçamento para a defesa, mas temos um orçamento para a paz?. Temos uma indústria bélica de fabrico de armas, mas temos uma indústria de paz?. Esta é a nossa mentalidade: falamos da paz, mas investimos nas guerras”, acusa. Não existe um “Ministério da Paz”.  Foto © University of Salford Press Office

 

Muhammad Yunus, prémio Nobel da Paz em 2006, esteve em Portugal para participar no Fórum Sustentabilidade e Sociedade, o qual teve lugar nos dias 11 e 12 de maio em Matosinhos. A iniciativa, da responsabilidade da Global Media Group em parceria com a Galp, CGD, Fundação INATEL, Grupo BEL e Câmara de Matosinhos, trouxe ao nosso país, além de Yunus, Kadri Simson (Comissária Europeia da Energia) e Jos Delbeke  (Instituto Universitário Europeu de Política Climática).

O que mais admiro em Yunus, pessoa de sorriso franco e empático, impulsionador do microcrédito e dos negócios sociais, é a sua capacidade em nos desafiar a descobrir soluções inovadoras para os problemas que nos afligem e que tornam o nosso mundo mais desigual e injusto. Admiro a sua capacidade de desconstruir para voltar a construir. A esse processo chama-se inovação. Recorde-se que Yunus foi um dos oradores do encontro A Economia de Francesco, que decorreu a partir de Assis (Itália), com ligações a 120 países diferentes, entre  19 e 21 de novembro de 2020.

Num texto publicado no 7Margens em tempo de pandemia, ele afirmava: “A consciencialização social e ambiental como o pilar central de todas as decisões. Os Estados devem garantir que nem um único dólar seja destinado a entidades ou projetos que não tenham, acima de tudo, o interesse social e ecológico da sociedade como objetivo.”

A partir da sua reflexão sobre os efeitos da pandemia veio agora propor e desafiar-nos para a teoria dos três zeros, tal como afirmou numa entrevista ao Notícias Magazine: Zero aquecimento global. Zero concentração de riqueza. Zero desemprego. A que corresponderá uma nova civilização “baseada em valores humanos, de partilha e cuidado uns com os outros”. Importa ter uma visão global e integrada dos problemas, porque “se dividirmos os problemas, prestamos atenção a um e esquecemos tudo o resto.”

“É verdade que o aquecimento global, por si só, destruirá o Mundo inteiro. É isso que já está a acontecer. E não estamos a prestar a atenção que é necessária. Mas não é um problema que deva ser visto de forma isolada. Há um segundo grande problema que é o da concentração de riqueza. Por causa do desenho que escolhemos para a nossa economia, toda a riqueza do mundo vai para apenas algumas pessoas. Os frutos da economia, os benefícios da economia, beneficiam apenas um punhado de pessoas. É uma máquina de sucção. Uma máquina que suga toda a riqueza de baixo e a empurra para o topo.” (…) “É preciso redesenhar o sistema económico para que ele funcione de outra forma.” E, segundo ele, o microcrédito e as empresas sociais são um desafio ao sistema financeiro.

O terceiro grande problema é o desemprego massivo. “Se abordarmos os problemas por partes, se fizermos uma mudança de cada vez, não vamos conseguir. A maximização do lucro destrói a nossa capacidade de resolver problemas”.

Uma tarefa para as novas gerações, nas quais deposita uma esperança sem limites. Talvez porque do outro lado da moeda esteja a catástrofe. E, dirigindo-se especialmente aos jovens afirma: “És tu quem tem de assumir a responsabilidade. Só assim poderás salvar o mundo. Caso contrário, estamos acabados”.

“Os jovens têm de construiu novos caminhos sem serem interrompidos e influenciados pelos velhos. O que eu digo é que temos de nos concentrar nos jovens antes que as suas mentes sejam corrompidas, antes que as suas mentes sejam moldadas da forma errada, para que eles possam pensar livremente e criar uma nova civilização. Uma civilização que não tenha por base a maximização do lucro. Uma nova civilização baseada em valores humanos, de partilha e cuidado uns com os outros.”

Sobre as inovações tecnológicas, nomeadamente sobre a Inteligência Artificial, diz ele: “Eu sou um grande admirador da tecnologia. Muitas coisas boas acontecem graças à tecnologia, há novas tecnologias que mudam o mundo da noite para o dia. A tecnologia pode ser uma bênção e devemos celebrá-la. Mas a tecnologia também pode ser uma maldição, pode ser destrutiva. (…) “Uso muitas vezes o exemplo da Inteligência Artificial (IA), que parece ser a grande notícia deste ano. As pessoas ficam entusiasmadas com a IA. ‘Uau, que coisa fantástica’, dizem.  Se ultrapassarmos as linhas vermelhas tudo estará acabado. As máquinas vão garantir que os seres humanos não tenham nenhum papel a desempenhar neste Planeta. Estou entusiasmado com o facto deste debate ser cada vez mais intenso, mas não temos muito tempo, porque a IA já está a ser usada diariamente e as pessoas estão a gostar.”

Ligado ao problema da tecnologia está o debate sobre o Rendimento Básico Universal. “Eu pergunto: meu Deus, chegaremos a um ponto tão avançado da tecnologia que ela transformará os seres humanos em mendigos? Se vamos ter um rendimento básico universal, esse rendimento tem de vir das máquinas. Ou seja, as máquinas serão gentis o suficiente para garantir comida e sobrevivência. Ora, eu não quero ver a condição humana chegar a esse ponto, à mercê das máquinas. É o meu alerta. É preciso traçar uma linha vermelha e saber quando devemos parar, quando é que a tecnologia deixa de ser uma bênção e passa a ser uma maldição. Este é o momento certo para o fazer, amanhã será tarde demais”.

Na conferência que proferiu, também a guerra não passou despercebida ao Nobel da Paz: “Temos um grande orçamento para a defesa, mas temos um orçamento para a paz?”, questiona. “Temos uma indústria bélica de fabrico de armas, mas temos uma indústria de paz?”. “Esta é a nossa mentalidade: falamos da paz, mas investimos nas guerras”, acusa. Não existe um “Ministério da Paz”.

Porventura alguns dirão que é utopia. Talvez, mas não será a utopia a meta que desejamos atingir e que, em pequenos passos, é possível, senão atingi-la, pelo menos aproximarmo-nos dela? Não será este o desígnio do ser humano? Yunus aí está para o demonstrar e para nos desafiar na procura de novas soluções.

 

José Centeio é editor da opinião no 7Margens e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social); contacto: jose.centeio@gmail.com 

 

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