Yves Congar, uma viva fonte de inspiração

| 4 Jul 20

Yves Congar. Foto © Arquivo da Ordem dos Pregadores

 

Yves Congar, uma das figuras gigantes da teologia cristã do século XX, morreu há 25 anos – completados no dia 22 de Junho. Sobre Congar alguém teria dito que o Concílio Vaticano II, que promoveu a reforma do catolicismo, era ele. A propósito da data, o 7MARGENS pediu a frei Bento Domingues, seu confrade da Ordem dos Pregadores, um testemunho sobre a figura do dominicano francês e a sua obra.

 

1.

O dominicano Yves Congar foi um dos maiores teólogos do século XX e continua a ser o eclesiólogo incontornável pela grande viragem que provocou nas abordagens da história e da vida da Igreja. Muito lutou e sofreu por publicar as suas investigações que punham em causa tabus, doutrinas e apologéticas que sufocavam a revisão teológica da sua história e impediam as reformas de que precisava para se abrir às outras Igrejas cristãs, ao universo das outras religiões e ao mundo contemporâneo.

A introdução de um livro fascinante, sobre a sua biografia intelectual e sobre o percurso temático da sua teologia, abre com uma declaração atrevida, mas espantosamente justa. Dizem os seus autores que se pode aplicar ao teólogo Yves Congar aquilo que o filósofo Étienne Gilson tinha afirmado do padre Chenu: “Um padre Congar, só existe um em cada século!”[1]

Nasceu em 1904 e faleceu em Paris a 22 de Junho de 1995 – fez agora 25 anos! O funeral foi celebrado na catedral de Notre-Dame de Paris. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Montparnasse, ao lado da sepultura que evoca a vida do seu confrade e grande amigo, Marie-Dominique Chenu. A sua vida e a sua obra continuam uma fonte de inspiração, para quem ama a Igreja e luta para que nunca se esqueça que a sua lei, e a de todos os seus membros, é a de viver em reforma permanente, na graça do Espírito de Jesus Cristo.

A existência de Y. Congar coincide com o século XX e as suas grandes tragédias e esperanças. Elaborou a sua teologia – em constante evolução e revisão – a partir do centro da vida e da história da Igreja Católica, em diálogo com as outras Igrejas cristãs, na escuta do universo das religiões não-cristãs e das correntes que agitam o mundo.

Nos anos 30 do século passado, em face da crescente descrença e indiferença religiosa, sintetizou o seu diagnóstico perspicaz: a uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião.

Os autores da obra citada atrevem-se a dizer que o destino deste teólogo e o da Igreja, no século XX, se confundem. Acompanhou e marcou, sob o ponto de vista teológico, os grandes movimentos eclesiais que desaguaram no Concílio Vaticano II. Muitas vezes, foi ele que os precedeu e preparou. Estou a pensar, especialmente, no ecumenismo, na eclesiologia em todas as suas facetas, na teologia do laicado e nas propostas de reforma na Igreja.

O próprio Y. Congar o reconheceu: “Estou impressionado e feliz. As grandes causas que procurei servir chegaram ao Concílio: renovação da Eclesiologia, estudo da Tradição e das tradições, reforma na Igreja, ecumenismo, laicado, missão, ministérios… Isto, além da oração litúrgica e a função doxológica da confissão da fé celebrada: valores em que acredito cada vez mais.”

Congar: “Estou impressionado e feliz. As grandes causas que procurei servir chegaram ao Concílio.” Foto © Arquivo da Ordem dos Pregadores

2.

De forma mais global, desde os começos de 1930, entregou-se a uma incansável investigação da Tradição eclesial, desde as suas origens. Foi o retorno às fontes bíblicas, patrísticas e medievais, que lhe permitiu renovar a abordagem de, praticamente, todas as questões teológicas e eclesiais do seu tempo e de lhes conferir uma profundidade e um alargamento de campos que tinham perdido. Este reditus ad fontes permitiu-lhe, também, novas perspectivas e problemáticas que, de facto, até eram profundamente tradicionais, mas que tinham sido ocultadas sob a sedimentação de séculos de teologia pós-tridentina ou “barroca”, conceptualista, apologética e sob o signo da afirmação da autoridade[2].

Os teólogos, muito especialmente os dedicados ao ecumenismo, e os eclesiólogos – e não apenas os católicos – reconhecem uma grande dívida para com ele e confessam que aprendem sempre muito frequentando-o, corrigindo certas posições anteriores, seja quanto ao modo de conceber o diálogo ecuménico, de abordar os ministérios ou de apresentar o papel de Cristo e do Espírito na vida eclesial. Há, nesta figura, uma evolução progressiva e permanente, inteligente, corajosa e leal na percepção espiritual do seu tempo, da sua Igreja e das outras Igrejas.

Congar durante o Vaticano II, onde participou como consultir teológico: “Um aspecto fascinante desta grande figura teológica é a sua capacidade de evoluir com serenidade e de reconhecer, publicamente, esta evolução.” Foto © Arquivo da Ordem dos Pregadores

 

3.

Para além dos seus notáveis e inumeráveis estudos, históricos e teológicos, Yves Congar deixou-nos, em herança, uma postura teológica para a busca da verdade e da unidade cristã. O que dele ficará, sem dúvida, é uma capacidade exemplar de historiador e de vedor, isto é, de detectar as fontes e os filões prometedores, no seio da tradição eclesial, para uma reflexão teológica actualizada. Noutros termos, uma capacidade heurística de reunir e explorar documentos do passado cristão ao serviço da verdade da fé e da unidade das Igrejas. De forma mais ampla ainda, é um método fundado sobre a escuta do real em todas as suas formas, é um espírito, uma inspiração, um sopro evangélico em resposta aos apelos do seu tempo (descrença, outros cristãos, reformismo, outras religiões…). É uma certa concepção das relações entre história e teologia que ensina a não absolutizar nenhuma realidade humana nem que seja a Igreja[3].

Para permitir ao leitor familiarizar-se com esta obra imensa e múltipla, os autores do livro Yves Congar, já citado, procuraram estabelecer um itinerário teológico de toda a sua obra. É um percurso biográfico e temático que oferece as chaves essenciais para apreender este pensamento teológico e o seu modo de elaboração. Tiveram a feliz ideia de completar o livro com uma selecção com 19 textos de Y. Congar que fazem a cobertura das suas principais temáticas teológicas.

4.

Capa da edição espanhola da biografia de Congar.

Conheço razoavelmente bem a sua obra que fui acompanhando, desde os anos 50 do século passado. Tive com ele uma grande entrevista teológica, em 1962, quando já tinha regressado dos seus vários exílios e vivia no convento dominicano de Estrasburgo. Foi um momento muito especial. Em 1966, participei, em Valência, num Congresso de Eclesiologia. Registou as intervenções de vários participantes e privilegiou-me com uma referência imerecida: Certains posent ces questions d’une manière valable et, au fond, sérieuse, ainsi le P. Dominguez, du Portugal, qui me semble être un homme d’avenir. Dois dias depois, conta o que eu lhe dissera: Il faut venir au Portugal; nous y sommes isolés![4]. De facto, veio duas vezes a Portugal, às Semanas da Igreja e Missão, e sempre reatámos o nosso afectuoso diálogo.

É reduzida a publicação da sua obra em Portugal, mas valia muito a pena reeditar Yves M.-J. Congar, O.P., Igreja Serva e Pobre (Editorial Logos, 1964).

A produção teológica de Yves Congar é imensa. Em 1987, já contava 1.790 títulos. Ainda durante a sua vida, Jean-Pierre Jossua escreveu um livro com o título: Le P. Congar: La théologie au service du peuple de Dieu (Cerf, 1967); outros dois importantes : Jean Puyo interroge le Père Congar. Une vie pour la vérité (Centurion, 1975); B. Lauret, Yves-Marie Congar. Entretiens d’automne (Cerf, 1987).

Um ano depois da sua morte, foi organizado um colóquio, nos dias 3 e 4 de Junho de 1996, absolutamente notável (as actas estão em André Vauchez (dir.), Cardinal Yves Congar 1904-1995 (Cerf, 1999); no centenário do nascimento de Y. Congar, sob a direcção de Gabriel Flynn, foi publicada, com a colaboração de peritos de nove países, uma tentativa de análise de toda a sua obra, um livro muito especial: Yves Congar. Théologien de l’Église (Cerf, 2007). Para alguém se iniciar no conhecimento da sua obra, recomendo o já referido livro de Joseph Famerée et Gilles Routhier, Yves Congar (Cerf, 2008).

Boa leitura!

Lisboa, 2 de Julho de 2020

Notas
[1] Joseph Famerée et Gilles Routhier, Yves Congar, Cerf, 2008
[2] Cf. Op. cit., p. 8
[3] Cf. Op. cit., pp. 8-9
[4] “Alguns fazem estas perguntas de uma forma válida e, no fundo, séria, por exemplo o P. Dominguez, de Portugal, que me parece ser um homem do futuro. (…) Tem de vir a Portugal; estamos lá isolados!”, in Yves Congar, Mon Journal du Concile II, Cerf, 2002, pp. 524 e 526, onde, em notas, o meu nome vem corrigido.

Frei Bento Domingues é frade dominicano e teólogo, autor de A Religião dos Portugueses

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

50 anos da Vigília da Capela do Rato: a paz é possível?

Exposições, colóquios, debates, arte pública e vigília

50 anos da Vigília da Capela do Rato: a paz é possível?

A Vigília da Paz que teve lugar nos dias 30 e 31 de dezembro da 1972 será recordada através de várias iniciativas organizadas pela Comissão das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, que vão ter lugar durante o mês de dezembro e janeiro, em Lisboa.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Manhã desta quinta-feira, 24

“As piores formas de trabalho infantil” em conferência

Uma conferência sobre “As piores formas de trabalho infantil” decorre na manhã desta quinta-feira, 24 de Novembro (entre as 9h30-13h), no auditório da Polícia Judiciária (Rua Gomes Freire 174, na zona das Picoas, em Lisboa), podendo assistir-se também por videoconferência. Iniciativa da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil (CNASTI), em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), a conferência pretende “ter uma noção do que acontece não só em Portugal, mas também no mundo acerca deste tipo de exploração de crianças”.

De Angola a Timor-Leste

JMJ 2023 promovida nos países da CPLP

  A Fundação Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023 está a promover o encontro de jovens de todo o mundo com o Papa, que vai decorrer de 1 a 6 de agosto em Lisboa, junto dos países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), durante...

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Não há cerveja no Mundial do Qatar… mas há bagels casher

Iniciativa de dois rabinos

Não há cerveja no Mundial do Qatar… mas há bagels casher

A proibição da venda de bebidas alcoólicas nos recintos desportivos do Qatar tem gerado polémica, e chegou a temer-se que a comida casher (preparada de acordo com as leis judaicas) também tivesse sido banida. No entanto, graças a dois rabinos fãs de bagels e à Qatar Airways (que disponibilizou um espaço para a cozinha), os adeptos de futebol que sejam judeus praticantes não passarão fome durante o Mundial.

É notícia

Entre margens

Porque não somos insignificantes neste universo infinito

Porque não somos insignificantes neste universo infinito novidade

Muitas pessoas, entre as quais renomados cientistas, assumem frequentemente que o ser humano é um ser bastante insignificante, senão mesmo desprezível, no contexto da infinitude do universo. Baseiam-se sobretudo na nossa extrema pequenez relativa, considerando que o nosso pequeno planeta não passa de um “ponto azul” situado num vasto sistema solar.

Sentido e valor da dualidade sexual

Sentido e valor da dualidade sexual

A sociedade edifica-se a partir da colaboração entre as dimensões masculina e feminina. Em primeiro lugar, na sua célula básica, a família. É esta que garante a renovação da sociedade através da geração de novas vidas e assegura o desenvolvimento harmonioso e complexo da educação das novas gerações. Por isso, nunca um ou mais pais pode substituir uma mãe e nunca uma ou mais mães podem substituir um pai.»

Crentes e discípulos

Crentes e discípulos

Apesar de muitos confundirem os dois conceitos, a verdade é que ser crente no Deus dos cristãos é muito diferente de ser um discípulo de Jesus Cristo. Vejamos alguns contrastes entre ambos.

Cultura e artes

A “Castro” e outros clássicos do teatro para descobrir em Lisboa (e no YouTube)

Clássicos em Cena em 7ª edição

A “Castro” e outros clássicos do teatro para descobrir em Lisboa (e no YouTube)

A Castro, de António Ferreira, e outras duas peças clássicas, serão objecto de duas leituras encenadas nas próximas sexta-feira e domingo. As sessões incluem-se no programa da 7ª edição dos Clássicos em Cena, que decorre na Livraria/Galeria Sá da Costa (R. Serpa Pinto, 19, ao Chiado, em Lisboa), com entrada livre, e também no canal do Teatro Maizum no YouTube.

Festival de música sem concertos, mas com “elevações espirituais”

No Vaticano e em Roma, nos 150 anos de Perosi

Festival de música sem concertos, mas com “elevações espirituais”

A 21ª edição do Festival Internacional de Música e Arte Sacra, realiza-se, no Vaticano e em Roma, de 12 a 15 de novembro e, segundo o seu programador, Hans-Albert Courtial, presidente da Fundação Pró Música e Arte Sacra, não terá concertos, mas sim momentos de “elevação espiritual”, de acesso livre e gratuito. Obras de Lorenzo Perosi, de quem se celebram os 150 anos do nascimento, serão tocadas na abertura, já no próximo sábado.

O sentido humanista na obra de José Afonso

Discografia reeditada

O sentido humanista na obra de José Afonso

Tem vindo a ser noticiada a reedição da obra discográfica de José Afonso (1929-1987). De seu nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, toda a obra se desenrolou e notabilizou sob este nome de José Afonso, entre o familiar e o funcional. A reedição do principal da sua obra constitui uma iniciativa digna de todos os encómios, já que será salvaguardada a qualidade original e a interpretação pessoal do autor.

Sete Partidas

Desobediência

Desobediência

Recentemente fui desafiada a algo que não esperava. Provavelmente deveria começar a ensinar a minha filha a prevaricar, disse-me o meu pai. Foi a palavra escolhida. O sentido era o de rebeldia, de desobediência. Eu fiquei a pensar.

Aquele que habita os céus sorri

pode o desejo

pode o desejo novidade

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo I do Advento A. Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Novembro de 2022.

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This