(Da coragem de nos capacitarmos fora de portas através de um outro olhar interior, sobre nós e o todo do nosso Viver, surgirá o ânimo de ir alinhavando “espaços de amabilidade solidária”.)
Por entre a prevalência de inconstâncias políticas de governação causadoras de guerras infinitas de poderio territorial, articuladas com interesses financeiros, acumulam-se discursos de falácias que mais não são do que afirmações de egos a borbulhar num limiar inconciliável com o respeito pelos Direitos Humanos.
Mas será numa persistência de não coabitação com este desencaminhamento, anunciado por arautos estridentes, que sustentaremos o ânimo de sermos sal e luz em todos estes acontecimentos…
humildar-se para ser presença: sabor e claridade

“Fico sempre espantada com gentileza dos melhores. Poderiam ser os mais arrogantes, mas não, são delicados e generosos.” Foto © Inês Patrício
Certamente cada uma e cada um de nós já experienciámos, alguma vez, que «o desejo dilata o horizonte da nossa vida»[1]. Todavia, o desejo é ainda, em circunstâncias diversas, inoportunamente apreendido como poderio e mando, subjugação do que quer seja ou sobre alguém, ou então revela-se enquanto insatisfação persistente. Porém, o desejo só ganha sentido e razão quando a sua única (e última) meta seja entendermo-nos, conhecermo-nos, enquanto sustento da qualidade ímpar de sermos capazes de caminharmos pela Vida, não apenas porque alguém nos colocou no mundo… Daí, o psicanalista italiano Massimo Recalcati acautelar-nos para o sem-sentido que o rumo do desejo pode adquirir: «O problema é que, no nosso tempo, o desejo é substituído por outras coisas, nem que seja pela repetitiva vulgaridade da vida»[2].
O desejo de SER, e não de simplesmente sobreviver, recorda-nos que não existimos com a função de marionetas, articulando o que simplesmente lhes é solicitado ou permitido; comum a todo o ser humano, o desejo de SER é experimentado como um desassossego a necessitar um destino capaz de ultrapassar a frivolidade dos dias. Porque, na verdade, afastando-nos da interpelação do desejo – ou explicitado ao jeito de Massimo Recalcati, «se me forçar a fazer coisas que não condizem com a minha vocação» – podemos condenar a orientação de vida…
É aqui que se inicia a tarefa de humildar-se, sempre a solicitar-nos profundidade nesta «abertura dos mundos», e que só acontece quando o eu idolátrico reconhece a sua insuficiência. Seremos, então, capazes de nos tornar húmus do desejo do qual nasce a decisão de transformar o presente comum que habitamos, porque não existe outra alternativa: ou servimos para algo ou para nada servimos… «É este o ponto em que a vida se humaniza: no momento em que o grito é traduzido como pedido de amor»[3]. O grito é o apelo permanente da Vida a que sejamos húmus, fertilizante capaz de fornecer os nutrientes solicitados ou, outras vezes, que descortinamos nas urgências do quotidiano.
Vós sois o sal da terra. Mas se o sal se tornar insípido, com que se salgará? Já de nada servirá (…)
Vós sois a luz do mundo. Não se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro e ilumina todos os que estão dentro de casa. [4]

Rembrandt (1606–1669): Evangelista São Mateus e o Anjo. Museu do Louvre-Lens /Wikimedia Commons
A interpelativa narrativa de Mateus pretende deslocar os nossos corações do comodismo desmobilizador, porque (sempre) sufocador da inapelável vontade de concrectizar o desejo. A capacidade de se incitar o coração ao desejo de sermos «sal» e «luz» é responder à provocação (provocare) de deixar-se conduzir pelo apelo de habitar o nosso destino, ou seja, a nossa experiência do Viver: «O desejo é uma força que nos atravessa», anota Recalcati, de transpor o eu idolátrico (sempre destrutivo) para provocare o acontecimento colectivo da solidariedade… Tem razão Recalcati ao colocar-nos de sobreaviso: «o desejo exige sempre que as janelas sejam abertas, exige a abertura dos mundos; […] porque neste desejo de outro há, respira-se, a transcendência do desejo»[5].
Entranharmo-nos como sal é desejar entregar a nossa condição humana, na sua absoluta totalidade. É uma transferência de «dados pessoais» que todas e todos partilhamos, enquanto resposta à solicitação, ao grito permanente escutado no Viver – nunca um ser humano se sentirá completo somente em si mesmo. E assim se vai entregando, transmitindo sabor à existência desta ou daquele, a quantas e quantos se atreveram a gritar, a fazer ecoar as suas falências orgânicas para que alguém as possa suprir. Todas e todos nós vivemos esta condição, inevitavelmente; por isso é que se trata de doação, porque só é possível oferecer quando a vida se humaniza, se humilda, tornando-se alimento/húmus para sobreviver às noites do Viver… Noites que nem sempre escolhemos, nem sempre desejámos! Mas o que desejamos, sem hesitação, é a luz.
É aqui que se inicia a tarefa de iluminar. Não de ofuscar – olha para a formidável lâmpada que eu sou! O que desejamos é a iluminação do fogo que o candelabro disponibiliza dentro da nossa casa para que vejamos quem nela habita, quem nos rodeia, com quem (con)vivemos…
Gratuidade absoluta da nossa luminosidade. Outra transferência, desta vez de «capacidades» que só a renúncia a uma «repetitiva vulgaridade» nos permite nutrir, para que as noites não se eternizem. São más conselheiras ou, então, má “vizinhança”. Na noite até respirar é difícil; e sem esse entrar e sair do ar em nós não conseguimos sobreviver. Por isso é que ofuscar não condiz com a vocação do candelabro – esta é «a loucura do eu», acautela-nos Recalcati, sublinhando ser esta loucura resultado de «alguém crer que é autossuficiente, que se possui a si mesmo, que é proprietário do desejo»[6]. De facto, a existência da lâmpada só ganha sentido se ela iluminar o que existe na escuridão, daí não dever temer iluminar bem e – retomando a reflexão do psicanalista italiano – expandir-se por onde seja necessária «a abertura dos mundos», que é onde se revela «a transcendência do desejo».
Humildar-se para ser presença… numa assunção de irrenunciável interdependência de todos os seres humanos. E não objectos de uso de interesses de poderios obsessivos, onde grassa a vulgaridade do efémero e a manipulação da realidade. Humildar-se enquanto desejo de proximidade; da proximidade para a qual somos (pro)vocados a agir como sal e luz na quotidianidade e assumir o préstimo de sermos húmus. Sabor e claridade à Vida toda.
[1] Massimo Recalcati, A força do desejo, Paulinas Editora, Portugal, 2017
[2] Ibidem
[3] Ibidem
[4] Mateus, 5, 13-15, in Bíblia, Volume I, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos (conforme tradução de Frederico Lourenço, a partir do original grego); Quetzal Editores, Lisboa (Portugal), 2016
[5] Massimo Recalcati, op. cit.
[6] Op. cit.; pág. 9
Mário Robalo é jornalista
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