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Gaza. Cruz Paróquia da Sagrada Família
Pe. Ibrahim Faltas, vigário da Custódia da Terra Santa: a cruz de Gaza permaneceu firme e inabalável, símbolo de solidariedade e partilha com a população que sofre devido à guerra. Foto © Vatican News

Kairos II – A Iniciativa Cristã Palestiniana

Um Momento de Verdade: Fé num Tempo de Genocídio

| 08/08/2026

Esperamos pelo dia em que viveremos livres na nossa terra, juntamente com todos os habitantes da terra, em verdadeira paz e reconciliação – fundadas na justiça e na igualdade para toda a criação de Deus, onde “a misericórdia e a verdade se encontram, e a justiça e a paz se beijam”
(Salmo 85,10)

Introdução

 

1. Nós, a Iniciativa Ecuménica Cristã Palestiniana, publicámos o Documento Kairos Palestina em 2009 – “uma palavra de fé, esperança e amor do coração do sofrimento palestiniano“. Os chefes das Igrejas em Jerusalém ouviram este clamor, acolheram-no e ofereceram o seu apoio. Da mesma forma, o documento ressoou amplamente, tanto ao nível local como internacional. Então, como agora, reunimo-nos – mulheres e homens, clero e leigos – das diferentes famílias eclesiais na Palestina. Após oração e reflexão sobre o sofrimento do nosso povo sob ocupação, lançámos aquele clamor de esperança na ausência de esperança, afirmando a nossa fé em Deus e o nosso amor pela nossa pátria, convictos de que a nossa luta é, em última análise, pela vida e dignidade humanas.

2. Vivemos agora num tempo de genocídio, limpeza étnica e deslocação forçada que se desenrola perante os olhos do mundo. Este momento – um momento de verdade – exige de nós uma nova posição como nunca antes. É simultaneamente um momento decisivo e… Hoje, renovamos a nossa posição pela verdade e o nosso compromisso com princípios religiosos, teológicos e morais fundamentais. Olhamos para a nossa realidade e assumimos uma posição renovada, respondendo à voz do Espírito Santo no mais profundo de nós, escutando o chamamento da fé neste tempo de genocídio. Renovamos a nossa mensagem de fé, esperança e amor – oferecendo uma visão inspirada pela fé para o tempo após o genocídio.

 

 Parte I – A Realidade: Genocídio, Colonização e Limpeza Étnica

Gaza. Irmã Nabila

Irmã Nabila em frente à escola das Irmãs do Rosário, destruída pelas bombas, em Gaza. Foto © Fundação AIS | ACN Portugal

1.1 Elevamos este clamor a partir do coração do ataque a Gaza – uma guerra que deixou para trás centenas de milhares de mártires e feridos e quase dois milhões de deslocados. Muitos foram enterrados sob os escombros, queimados vivos, torturados até à morte em prisões ou deslocados à força mais de uma vez. Outros suportaram a fome, alvejados mesmo quando corriam em busca de comida. Dezenas de milhares de crianças foram mortas das formas mais horríveis. As infraestruturas de saúde, educação, económica e…

1.2 Organizações de direitos humanos, instituições jurídicas e peritos internacionais têm sido inequívocos: as declarações dos líderes políticos israelitas e as ações de Israel no seu ataque a Gaza constituem genocídio. Muitos dos crimes de guerra e crimes contra a humanidade foram documentados e foram emitidos mandados de captura contra líderes políticos israelitas com base em decisões do Tribunal Internacional de Justiça[1].

1.3 Os sionistas não querem que permaneçamos na nossa terra. O seu plano para nós é o deslocamento, a morte ou a submissão. A guerra genocida em Gaza é a continuação do projeto sionista de apoderar-se de toda a Palestina, esvaziada do seu povo palestiniano. A limpeza étnica e a negação do direito de regresso àqueles que foram forçados a deslocar-se são políticas permanentes praticadas em Jerusalém, na Cisjordânia, em Gaza e nos territórios de 1948. A Nakba do nosso povo é a nossa realidade diária. Este genocídio foi levado a cabo por Israel após décadas de apartheid[2], colonialismo de povoamento, repressão política e a política deliberada de eliminar qualquer possibilidade de solução política – incluindo a solução de dois Estados. Hoje está exposta a verdadeira face da ideologia sionista: um sistema que, ao longo de décadas, enraizou um regime de apartheid organizado e sofisticado, apoiado por tecnologias avançadas que exercem controlo total sobre todos os aspetos da vida palestiniana – fragmentando a terra, dividindo o seu povo e transformando a existência palestiniana num inferno insuportável. A chamada Lei do Estado-Nação de Israel, promulgada em 2018, encarna o racismo sionista e a arrogante supremacia judaica na Palestina, tornando o apartheid uma realidade vivida. A decisão de Israel de anexar a Cisjordânia expôs ainda mais a verdadeira intenção deste projeto colonial.

1.4 Enquanto os povos do mundo têm estado em solidariedade connosco, a guerra genocida expôs a hipocrisia do mundo ocidental, os seus valores ocos e as suas vãs ostentações de compromisso com os direitos humanos e o direito internacional. Na verdade, o mundo ocidental sacrificou-nos, revelando racismo e duplos critérios em relação ao nosso povo. Naturalmente, distinguimos entre os arquitetos destas políticas destrutivas e os muitos líderes, organizações e movimentos populares que têm mostrado solidariedade sincera com os palestinianos em Gaza, exigindo o fim da injustiça e do derramamento de sangue e o pleno reconhecimento dos nossos direitos legítimos.

1.5 Esta guerra também expôs outra realidade do sionismo – seja judaico ou cristão – na sua justificação da violência e do assassínio. Nós, cristãos palestinianos, estamos profundamente chocados com as posições de muitas igrejas que adotaram a narrativa do colonizador ou permanecem em silêncio face ao genocídio do nosso povo. Por vezes, priorizam o diálogo inter-religioso judaico-cristão em detrimento da verdade, da dignidade humana e da própria vida, ignorando o contexto. Julgam um lado e desculpam o outro, ou simplesmente calam-se Algumas chegam mesmo ao ponto de assumir posições de cumplicidade, apoio ou até apelo ao genocídio.

1.6 Israel comete estes crimes invocando os acontecimentos de 7 de outubro de 2023, alegando que as suas ações são um ato de autodefesa – esquecendo que o ataque do Hamas naquele dia nasceu ele próprio de décadas de injustiça, opressão e deslocamento desde a Nakba de 1948, e de mais de dezasseis anos de um bloqueio imoral e asfixiante a Gaza. Apontar para estas realidades históricas – e para o direito de um povo sob ocupação de resistir ao seu ocupante e opressor – é reconhecer que os acontecimentos de 7 de outubro ocorreram num contexto particular. Mencionar o contexto não justifica o assassínio ou a captura de civis, as violações do direito internacional e das normas, e os crimes de guerra. A alegação de “autodefesa” não pode prevalecer. Como pode um colonizador defender-se contra aqueles que colonizou e expulsou da sua terra? O direito internacional – se ainda conserva algum peso moral – refuta esta alegação[3].

1.7 O colonialismo de povoamento, passado e presente, é construído sobre genocídio, limpeza étnica e deslocação forçada de povos indígenas – tudo em prol da exploração da terra, recursos e riqueza para servir o ganho do colonizador. Vemos profundas dimensões económicas por detrás da guerra genocida de Israel em Gaza – particularmente o seu interesse nos campos de gás natural ao largo da costa palestiniana. O controlo sobre Gaza significa também controlo sobre uma das rotas comerciais e corredores de abastecimento energético mais vitais do mundo, permitindo vastos projetos económicos e comerciais que entrincheiram o domínio económico colonial em detrimento do povo palestiniano. O silêncio do mundo face ao genocídio em Gaza não é inocente. Está ligado a enormes interesses económicos que valorizam o lucro acima da vida humana e dos direitos.

1.8 Em Jerusalém, políticas coloniais de povoamento claras, de natureza religiosa e demográfica, procuram judaizar a cidade em detrimento do seu pluralismo. Há assaltos contínuos a locais sagrados muçulmanos e cristãos, tentativas de queimar igrejas, profanar e destruir cemitérios, e a escrita de grafitis racistas sobre eles. Os ataques ao clero cristão estão a aumentar, assim como as restrições às celebrações religiosas cristãs, como o Domingo de Ramos e o Sábado do Fogo Santo. A coerção financeira, através da imposição de impostos e do congelamento de contas bancárias das igrejas – em violação do status quo – também se intensificou. Os chefes das Igrejas em Jerusalém descreveram estes atos como parte de uma política sistemática para esvaziar a Terra Santa dos seus cristãos.

Cisjordânia

O pároco de Taybeh, padre Bashar Fawadleh, a última aldeia palestina inteiramente cristã na Cisjordânia, denunciou a construção de um posto avançado ilegal por colonos israelitas que ameaça a sobrevivência da comunidade (7 julho 2026). “Se for construído um posto avançado de colonos a poucos metros das nossas casas, as nossas famílias viverão com medo todos os dias”, afirmou ele. Foto © Patriarcado Latino de Jerusalém

1.9 Em toda a Cisjordânia ocupada – de norte a sul – as cidades, vilas e comunidades beduínas palestinianas enfrentam assaltos implacáveis por parte de colonos e assentamentos. Causam estragos na terra, destroem colheitas, envenenam ou apoderam-se de recursos hídricos e atacam os residentes – tudo sob a proteção, apoio e até participação do exército israelita em atos de violência, assassínio, demolições de casas e deslocações forçadas. A sociedade palestiniana vive sob um cerco asfixiante imposto por postos de controlo, portões e outros mecanismos que negam ao nosso povo a liberdade de circulação[4].

1.10 Para os palestinianos dentro do estado de Israel, persistem o racismo e a discriminação descarados. As comunidades palestinianas enfrentam intimidação, criminalização da livre expressão e perseguição de qualquer esforço para defender os direitos palestinianos, juntamente com o desprezo deliberado pela criminalidade organizada desenfreada nas cidades palestinianas. Aqueles que foram deslocados dentro de Israel em 1948, cujas terras foram confiscadas, continuam a ver ser-lhes negado o direito de regressar às suas aldeias e reconstruir as suas casas. As comunidades beduínas continuam vítimas de deslocamento sistemático e limpeza étnica, especialmente no Naqab (Negev).

1.11 Nos últimos anos, Israel – apoiado pelos Estados Unidos e outras grandes potências – tem atacado constantemente os princípios fundamentais e os direitos legítimos do povo palestiniano. Procurou apagar a questão dos refugiados ao tentar destruir a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), acusando-a de terrorismo e pressionando os países doadores a cortar o seu financiamento. Ao mesmo tempo, vários campos de refugiados na Cisjordânia têm sido sistematicamente destruídos, deslocando milhares de pessoas, mais uma vez.

1.12 As organizações da sociedade civil palestiniana que trabalham no campo dos direitos humanos têm sido alvo de um ataque feroz destinado a desacreditá-las, minar o seu trabalho e eliminá-las através de acusações de terrorismo e de pressão política sobre os governos para suspenderem o seu financiamento e as processarem.

1.13 Desde 7 de outubro de 2023, Israel expandiu dramaticamente a sua política de rapto e encarceramento. Hoje, milhares de palestinianos – homens e mulheres – estão detidos em prisões israelitas. Cerca de um terço estão detidos sem acusação ou julgamento, ao abrigo de detenção administrativa. Entre eles estão muitas crianças. Numerosas mortes foram registadas nas prisões desde o início da guerra. Organizações de direitos humanos documentaram práticas sistemáticas de tortura, violência sexual, políticas de fome e a negação de cuidados médicos. Os prisioneiros, especialmente os de Gaza, são sujeitos a detenção em massa e a isolamento completo do mundo exterior ao abrigo da lei militar israelita – resultando em grandes números de desaparecimentos forçados, perda de representação legal e ausência total de comunicação[5].

1.14 A situação interna palestiniana necessita urgentemente de reorganização. A divisão política, a rivalidade e a exclusão aprofundaram-se. A maioria dos palestinianos perdeu a confiança na sua liderança política. Como resultado dos Acordos de Oslo e das suas consequências, a Autoridade Palestiniana ficou presa a servir os interesses do ocupante – gerindo a vida quotidiana dos ocupados em nome do ocupante israelita, incapaz de proteger o seu próprio povo do terror dos colonos e do aparelho de segurança israelita.

1.15 Sinais de desordem começaram a espalhar-se dentro da sociedade palestiniana e tornaram-se parte da nossa realidade, em grande parte devido à ausência ou aplicação fraca do Estado de Direito. Isto levou a um aumento da intimidação, da usurpação de terras, do tribalismo, do favoritismo e da corrupção nas suas várias formas, em detrimento do bem comum, aprofundando a frustração e o desespero do povo. No meio da vasta destruição e genocídio em Gaza, atos de violência, vingança, caos e roubo só acrescentaram sofrimento ao sofrimento do povo palestiniano.

1.16 A vida quotidiana dos palestinianos sob ocupação militar passou a consumir-se em preocupações internas: postos de controlo, restrições de viagem nas fronteiras e passagens, pagamento de salários do setor público e muitas outras questões prementes. Por mais significativas que sejam, elas continuam a ser sintomas da realidade mais ampla que deve permanecer o foco central da nossa atenção: o sistema de dominação política e militar imposto por Israel como entidade ocupante sobre o povo palestiniano.

1.17 A nossa sociedade e cultura política sofrem com a ausência de renovação da liderança e da falta de visão através de eleições democráticas e da exclusão de jovens líderes. A Palestina enfrenta agora um grave fenómeno de fuga de cérebros, incluindo profissionais qualificados e jovens. Esta não é uma emigração voluntária. É um deslocamento forçado, nascido da opressão e da completa falta de oportunidades. Afirmamos, como palestinianos de todas as fés, que somos o povo indígena desta terra e que a nossa própria existência hoje enfrenta uma ameaça sem precedentes. A emigração contínua de cristãos não para, constituindo um perigo real para a presença cristã na Palestina, que está agora em risco de limpeza étnica e extinção.

OIM. Gaza

“A nossa sociedade e cultura política sofrem com a ausência de renovação da liderança e da falta de visão através de eleições democráticas e da exclusão de jovens líderes.”  Foto © IOM

1.18 Os cristãos na Palestina e na diáspora são uma parte inseparável do povo palestiniano. Os seus desafios são os desafios da nação como um todo. A realidade da Igreja é diretamente afetada por tudo o que acontece no terreno. Enfrentando estas realidades, a Igreja continua a trabalhar incansavelmente – através do cuidado pastoral e dos ministérios institucionais – para apoiar os seus filhos e filhas e a sociedade em geral. Os chefes das Igrejas trabalham em conjunto para enfrentar os assaltos repetidos, emitindo declarações e assumindo posições corajosas, apesar das pressões e intimidações que enfrentam, na esperança de que o mundo e a Igreja global escutem. Ao mesmo tempo, alguns cristãos palestinianos sentem uma necessidade crescente de maior proximidade entre clero e leigos, e de um papel mais forte para a liderança da Igreja na rejeição da ocupação e dos seus símbolos, elevando a teologia local e dando-lhe maior expressão nos púlpitos das igrejas e nas posições públicas.

1.19 Nos últimos anos, a nossa região – o Médio Oriente – sofreu grandes transformações políticas e regionais, moldadas por um plano deliberado para impor o domínio militar israelita sobre toda a área com o apoio das potências ocidentais, desenhando um novo mapa político e demográfico. Apoiado sistematicamente pelos seus aliados, Israel atacou muitos países da região, violando a sua soberania e a dos seus povos, desrespeitando o direito internacional e afirmando-se como um estado agressivo e intimidatório, como se estivesse acima de todas as leis e convenções – levando a região e de facto o mundo à beira da catástrofe.

1.20 Como resultado destas intervenções externas e lutas pela dominância, surgiram grupos religiosos extremistas e terroristas – grupos que condenamos, juntamente com aqueles que os apoiaram, financiaram e/ou armaram. Estes movimentos entrincheiraram o sectarismo em detrimento da cidadania. Muitas “minorias”, incluindo os cristãos do Médio Oriente – especialmente na Síria e no Iraque – pagaram um preço doloroso por este extremismo. Em solidariedade e oração, estamos ao lado deles e de todas as vítimas do terrorismo sectário e religioso.

1.21 Ao mesmo tempo, os acordos de normalização foram comercializados como acordos de paz entre Israel e alguns estados árabes sob o nome de “Acordos de Abraão”. Esta designação representa nada menos do que a manipulação da religião para servir agendas políticas, económicas e de normalização – ignorando a essência da questão e a prioridade de alcançar uma paz justa com os próprios palestinianos. Estes acordos normalizaram antes a ocupação e o apartheid na Palestina, tornando-os realidades aceitáveis. Surgiu também um novo fenómeno: o “Islão sionista”, um movimento recente entre certos árabes e muçulmanos que, por razões religiosas, económicas ou geopolíticas, apoiam o sionismo e consideram Israel um aliado potencial.

1.22 À luz de tudo isto, devemos chamar as coisas pelos seus nomes próprios: Israel é uma entidade colonial, de povoamento e excludente, construída sobre o deslocamento da população indígena e a sua substituição por novos colonos. Por esta razão, rejeitamos o próprio conceito de “conflito”. A realidade no terreno é a tirania e um regime opressivo de colonialismo de povoamento e apartheid. Qualquer negação desta realidade é uma evasão da verdade manifesta – que reforça e perpetua a injustiça.

1.23 Estamos agora a viver numa nova era – uma era em que “a força faz o direito” e a paz é imposta através do poder militar em desafio ao direito internacional e às decisões dos tribunais internacionais legítimos. Reafirmamos o nosso compromisso com o respeito e a autoridade do direito internacional, que garante os direitos humanos e a paz global entre nações e povos. Este momento da história humana exige uma posição baseada na fé – que fale a verdade ao poder e à tirania sem compromisso ou evasão. Indo além da experiência palestiniana, este é verdadeiramente um momento de verdade.

 

 Parte II – A Nossa Posição: Fé, Esperança e Amor num Tempo de Genocídio

As irmãs da Caridade ajudam a cuidar das crianças e pessoas com deficiência na paróquia da Sagrada Família, em Gaza. Foto DR

As irmãs da Caridade ajudam a cuidar das crianças e pessoas com deficiência na paróquia da Sagrada Família, em Gaza. Foto DR

2.1 Face a esta dura realidade e neste momento decisivo, elevamos este clamor – primeiro a nós mesmos, aos filhos e filhas das nossas igrejas e congregações, e a todo o nosso povo na pátria e na diáspora. É um clamor de firmeza, uma posição renovada pela verdade e um apelo para ouvir a voz de Deus dentro de nós e para nós. Este é um tempo de solidariedade e apoio mútuo – um tempo para assumir posições claras e corajosas construídas sobre princípios de fé e pertença nacional. Este é o momento da verdade. Afirmamos que o que foi construído sobre a falsidade e a injustiça histórica nunca pode produzir paz ou sustentabilidade. As verdadeiras soluções começam com o desmantelamento de sistemas opressivos e racistas. Só então poderemos falar de um novo horizonte que sonhamos e anelamos – aquele em que permanecemos na nossa terra juntamente com todos os que nela habitam, com base na justiça, igualdade e direitos iguais, livres de supremacia e dominação.

2.2 Apelamos a uma reavaliação nacional abrangente da nossa realidade para extrair lições e perceções que conduzam a uma visão coletiva unificada e a uma estratégia clara para a ação futura – alicerçada na independência da tomada de decisão palestiniana. Isto deve incluir uma revisão crítica de todas as soluções propostas e da sua viabilidade no quadro de uma representação legítima que garanta a independência da tomada de decisão e o direito à autodeterminação. Alertamos contra dar à nossa luta nacional um caráter religioso ou transformá-la numa questão religiosa que põe religiões umas contra as outras.

2.3 Este é um tempo de resistência encarnada na firmeza custosa na nossa terra face a toda a tentativa de deslocamento, anexação e genocídio, uma resistência vivida na nossa unidade, cooperação e compromisso com a nossa fé, princípios nacionais e todos os nossos direitos. Manter a fé e a esperança é resistência. Orar é resistência. Salvaguardar os lugares santos é resistência. Preservar a paz social é resistência.

2.4 Num tempo em que a resistência palestiniana e os movimentos de solidariedade global são criminalizados, reafirmamos o direito de todos os povos colonizados a resistir aos seus colonizadores. Como afirmámos no nosso primeiro documento, Um Momento de Verdade: Uma Palavra de Fé, Esperança e Amor do Coração do Sofrimento Palestiniano, permanecemos comprometidos com o princípio da resistência criativa – uma posição firme e custosa contra a injustiça contínua. Vemos a resistência criativa encarnada nos movimentos populares palestinianos que confrontam a ocupação, a expansão dos assentamentos, o terrorismo dos colonos e o apartheid, bem como no trabalho das organizações da sociedade civil, nas iniciativas jurídicas e de direitos humanos, no envolvimento cultural, teológico e diplomático, e nos movimentos estudantis e laborais. Em todos estes e noutros mais, reconhecemos meios eficazes de resistência enraizados no amor – um amor que pode trazer mudança e renovar a esperança.

2.5 Valorizamos os movimentos globais de resistência, defesa de direitos e pressão popular que trabalham para responsabilizar governos e organismos internacionais – isolando Israel através de boicotes e sanções até que cumpra o direito internacional. Vemos isto de uma perspetiva moral. As estratégias de boicote, desinvestimento e sanções são, em nossa opinião, formas eficazes de resistência criativa enraizadas na lógica do amor e da não-violência, como afirmado no nosso documento original.

2.6 Face ao ecocídio perpetrado por Israel em Gaza e aos repetidos assaltos e destruição ambiental na Cisjordânia que ameaçam as gerações futuras, renovamos a nossa pertença a esta terra e o nosso enraizamento nela. Afirmamos a santidade da vida e o dever de cuidar da criação. A nossa vocação é viver em coexistência com a criação – uma responsabilidade partilhada de fé e moral abraçada por indivíduos e instituições, públicas, governamentais, sociais e religiosas.

2.7 Enfatizamos a necessidade urgente de proteger todos aqueles que são vulneráveis na sociedade: as vítimas da ocupação e colonização; as pessoas com deficiência, especialmente aquelas que perderam membros; os corações partidos, os enlutados; e todos os que são marginalizados por qualquer razão, incluindo vítimas de violência doméstica ou social, exploração económica e abuso baseado no género.

2.8 Entre os rostos da firmeza e da esperança na nossa sociedade está a mulher palestiniana – avó, mãe, irmã e filha. Ela é a espinha dorsal inabalável e uma parceira essencial na luta, mantendo juntos o lar, a terra, a memória e o futuro ao mesmo tempo. A sua presença é fundamental para a sociedade como um todo e as suas contribuições são múltiplas na vida nacional, social, económica e espiritual. A mulher palestiniana não pode ser reduzida à categoria de “mulheres e crianças”, vítimas sem rosto, despojadas de agência e vontade. A sua voz, criatividade e liderança são forças indispensáveis. Não pode haver verdadeira libertação sem a sua plena participação em todos os níveis de tomada de decisão e construção da nação.

O patriarca latino (Igreja Católica) e o patriarca greco-ortodoxo de Jerusalém visitaram Faixa de Gaza para manifestar solidariedade à população atingida pela guerra (junho 2026): “A visita expressa a responsabilidade pastoral das Igrejas de Jerusalém para com as Igrejas locais e toda a população de Gaza, onde as famílias continuam a sofrer graves dificuldades humanitárias, medo, perdas e incertezas”.” Foto © Patriarcado Latino de Jerusalém

2.9 A nossa mensagem para nós mesmos como cristãos palestinianos é esta: sentimos o peso da história sobre os nossos ombros e estamos determinados a preservar o testemunho cristão nesta Terra Santa. A todos os palestinianos, dizemos: A preservação da presença cristã é tanto uma causa nacional como uma prioridade. Não somos simplesmente um número nem meramente um tipo de diversidade dentro da nossa sociedade. Somos cidadãos indígenas que encarnam valores humanos e procuram trabalhar e construir a nossa pátria juntamente com todos os nossos parceiros nela.

2.10 Dirigindo-nos a nós mesmos, dizemos: Somos os filhos e filhas da primeira Igreja – descendentes dos apóstolos e dos santos dos primeiros séculos cristãos – aqueles que cultivaram esta terra, construíram as suas cidades e aldeias e beberam das suas águas. Não vivemos nas margens desta terra. Estamos tecidos no seu tecido. Carregamos a sua história e património. O próprio solo conhece-nos como seus. Muitos impérios passaram sobre esta terra e desapareceram, enterrados no pó da história, mas os sinos das nossas igrejas continuam a tocar – testemunhando a verdade e proclamando a ressurreição todos os dias.

2.11 Isto é o que dizemos aos nossos jovens rapazes e raparigas: vós sois a Igreja viva; vós sois o tesouro da esperança. O futuro nasce da vossa firmeza e da vossa fé. Acreditamos em vós. Vemos a vossa raiva, a vossa tristeza, o vosso medo. Vemos também a vossa força. Sabemos que a nossa história não terminou, que a nossa injustiça persiste. Não vos chamamos ao otimismo ingénuo, mas à esperança que está enraizada na ação. A esperança não é rendição. A esperança é um ato vivo de resistência – recusando firmemente a realidade da morte que nos é imposta, confrontando e resistindo a todas as formas de injustiça e ocupação. Jesus Cristo caminhou com os pobres e os fracos, esteve ao lado dos oprimidos, e nunca abandonou o amor nem comprometeu a verdade e a justiça. Pela salvação da humanidade, aceitou a cruz. A sua ressurreição foi a vitória sobre a morte e a injustiça, um sinal de esperança enraizado na fé. Esta é a esperança que nos sustenta hoje.

2.12 E dizemos-vos também: Não estais sozinhos. Há aqueles que estão convosco na Palestina e em todo o mundo. Mesmo que o silêncio vos seja imposto agora, chegará o dia em que as vossas vozes serão ouvidas. As vossas vozes importam. Expressai-vos. Escrevei. Cantai. Criai. Organizai-vos. Resisti através da vossa humanidade num mundo que procura despojar-vos dela. Ousai amar, sonhar e moldar um futuro livre e radiante. Saudamos as vossas iniciativas e atividades – na igreja, no envolvimento nacional e cívico, no escutismo, na juventude, no desporto, na cultura, na arte, na política e nos direitos humanos – todas marcadas pela abertura à sociedade, pelo espírito de voluntariado, e pela fé e esperança livres de sectarismo. Inspiramo-nos na vossa firmeza e no vosso amor. Vemos em vós a promessa de um futuro melhor.

2.13 Ao nosso povo na diáspora, àqueles que foram forçados a deslocar-se: Podeis estar geograficamente longe da Palestina, mas a Palestina vive dentro de vós. Apelamos a vós para vos envolverdes em comunidades, movimentos e coligações que visam fortalecer a nossa firmeza e afirmar a nossa presença. Desempenhais um papel essencial. A vossa voz tem o poder de mudar realidades. Valorizamos o vosso ativismo. Ouvimos as vossas vozes. De facto, o mundo inteiro as ouviu. Partilhai o nosso sofrimento e as nossas histórias de firmeza e sucesso. Criai espaços de diálogo e de construção de pontes entre nós e os líderes religiosos e políticos nos países da vossa diáspora. Agi com sabedoria e apresentai ao mundo a verdadeira imagem do nosso povo. Em vós também reside a esperança de um futuro melhor. Não perderemos o nosso sonho de reunificação, nem abandonaremos o nosso direito de regresso.

2.14 Estendemos o nosso apoio aos nossos líderes espirituais e instituições eclesiais que continuam a dar o seu testemunho cristão mesmo nos tempos mais sombrios e difíceis, fortalecendo a firmeza dos seus filhos e filhas[6]. Louvamos especialmente o trabalho extraordinário das igrejas de Gaza que abrigaram os deslocados. Valorizamos a coragem dos nossos líderes eclesiais que estiveram ao lado do nosso povo em Gaza e apoiaram a sua firmeza no meio do genocídio e deslocamento. Os fiéis em Gaza escreveram histórias heroicas de firmeza e testemunho. Alguns foram martirizados. Muitos foram feridos e enlutados. As nossas orações e corações estão com eles. Apelamos aos cristãos ao redor do mundo para estarem connosco no esforço que fazemos — ao contrário de que aparências possam sugerir — de preservar a presença cristã em Gaza que remonta aos primeiros séculos de cristianismo, e para defender o direito de todos os que foram deslocados a voltarem a suas casas e a reconstruirem as suas vidas.

2.15 Somos testemunhas da Ressurreição e do túmulo vazio de onde a luz da vida irrompeu. Acreditamos que a última palavra não pertence à morte, mas à vida. Não às trevas, mas à luz. Não à injustiça, mas à verdade. Proclamamos com o apóstolo Paulo: “Somos atribulados em tudo, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4,8-9).

 

 Parte III – Um Apelo ao Arrependimento e à Ação

Patriarcas Latino-Católico e Grego-Ortodoxo de Jerusalém. Foto © Patriarcado Latino de Jerusalém

3.1 Dirigimos o nosso apelo aos cristãos de todo o mundo. Dirigimos este apelo de Jerusalém, Belém e Nazaré – do local de nascimento de Cristo, da terra da Encarnação do Verbo, e do berço do amor, da misericórdia e da justiça. Da terra do sofrimento, da morte e da ressurreição – a terra da redenção e da esperança – de onde veio o apelo da humanidade ao arrependimento e ao regresso aos fundamentos da fé. Daqui a fé espalhou-se até aos confins da terra. É um apelo a “aprender a fazer o bem; procurar a justiça; socorrer o oprimido” (Isaías 1,17).

3.2 O Deus que nos foi revelado nas Sagradas Escrituras, tanto no Antigo como no Novo Testamento – o Criador do Universo e de toda a humanidade – é Aquele que encarnou no Filho, Jesus Cristo, o Deus de todos os povos (Atos 10,34-35; Romanos 10,12-13). Deus, o Criador e Pai de todos, está em solidariedade com e toma o partido dos oprimidos e dos espezinhados, das vítimas de todas as formas de injustiça e tirania de todas as nações, independentemente de raça, religião ou nacionalidade (Lucas 4,18-19). A missão da Igreja manifesta-se assim em juntar-se à obra do Reino de Deus através da busca da paz, da defesa dos oprimidos e da prática do bem.

3.3 O genocídio é um processo cumulativo – que começou nas mentes das potências coloniais de povoamento da Europa quando negaram a imagem de Deus nos outros e legitimaram a morte, a dominação e a escravidão. Consideramos o Estado de Israel, estabelecido em 1948, como uma continuação desse mesmo empreendimento colonial construído sobre o racismo e a ideologia da superioridade étnica ou religiosa. Este projeto colonizou a Palestina e trabalhou para deslocar o povo indígena da Palestina desde o tempo da Nakba até hoje. A nossa atual realidade palestiniana é o resultado inevitável da ideologia sionista e do movimento colonial de povoamento supremacista, ele próprio produto da mentalidade imperial.

3.4 O genocídio é um pecado estrutural contra Deus, contra a humanidade e contra a criação. Está em direta oposição ao grande mandamento do amor, o resumo de toda a lei (Gálatas 5,14). Aqueles que negam o genocídio cometido contra o povo palestiniano em Gaza – apesar das evidências esmagadoras, testemunhos e até das declarações dos próprios sionistas – negam a própria humanidade do povo palestiniano. Temos, portanto, o direito de perguntar: Como se pode falar de comunhão ou confraternização cristã enquanto se nega, apoia, justifica ou permanece em silêncio perante o genocídio – especialmente quando tais atos são cometidos em nome de Deus e das Escrituras? Deve haver uma reflexão honesta e arrependimento por parte de todos os crentes, especialmente dos líderes eclesiais em todo o mundo.

3.5 Expressamos a nossa gratidão a todas as igrejas que reconheceram a injustiça que nos foi infligida e a guerra genocida em Gaza. Saudamos todas as vozes que assumiram uma posição religiosa e moral contra o sionismo e o chamado sionismo cristão – rejeitando o genocídio e o apartheid e apelando ao fim dos embarques de armas para Israel e ao julgamento dos criminosos de guerra. Ouvimos nestas vozes o apoio à nossa esperança, um sinal do Espírito Santo, e a presença da consciência moral na humanidade.

3.6 Apelamos a um movimento teológico global construído sobre os pilares do Reino de Deus – um movimento que surge dos contextos e lutas dos povos que sofrem com o colonialismo, o racismo, o apartheid e a pobreza estrutural produzida por sistemas económicos e políticos corruptos que servem os interesses dos impérios do mundo. Desafiamos a falsa lógica de uma paz “neutra” ou “equilibrada”, bem como formas de diplomacia eclesial que não falam a verdade ao poder como forma de fugir à responsabilidade moral e espiritual. Juntamente com os nossos parceiros em todo o mundo, envolvemo-nos num autoexame para nos libertarmos dos resíduos das teologias coloniais que herdámos do Ocidente.

3.7 Rejeitamos a opressão e a injustiça produzidas pela teologia do racismo, colonialismo e supremacia étnica encarnada no sionismo cristão, uma teologia que produziu apartheid, limpeza étnica e genocídio de povos indígenas. O sionismo cristão invoca um deus tribal, racista, da guerra e da limpeza étnica, ensinamentos totalmente estranhos ao núcleo da fé e da ética cristãs. O sionismo cristão deve, portanto, ser chamado pelo que é: uma distorção teológica e uma corrupção moral. Depois de todos os esforços para convidar os sionistas cristãos ao arrependimento genuíno se terem esgotado, a responsabilidade moral, eclesial e teológica exige que sejam responsabilizados e que a sua ideologia seja rejeitada e boicotada. Chegou o tempo de as igrejas do mundo repudiarem a teologia sionista e declararem claramente a sua posição sobre a Palestina: este é um caso de colonialismo de povoamento e limpeza étnica de um povo indígena.

3.8 Condenamos todos os que exploram e apoiam a acusação de antissemitismo para silenciar a voz palestiniana da verdade. Rejeitamos toda a tentativa de confundir antissemitismo com oposição ao apartheid e com pressão para responsabilizar Israel ao abrigo do direito internacional – particularmente através do uso de definições e documentos concebidos para servir ideologias e interesses sionistas sob o pretexto de combater o antissemitismo. O uso indevido do termo antissemitismo distorce e obscurece a realidade do antissemitismo genuíno que ainda existe no nosso mundo e que condenamos veementemente juntamente com todas as formas de racismo, exclusão e preconceito incluindo a islamofobia. A ideologia sionista afirma representar e proteger o povo judeu, mas ao fazê-lo confunde “judeu” e “sionista” como se fossem a mesma coisa. Nem todo judeu é sionista e nem todo sionista é judeu. Esta confusão causou grande dano ao próprio judaísmo e à sua imagem em todo o mundo.

3.9 Apelamos a todas as pessoas de consciência – crentes em Deus de todas as fés e pessoas de convicção – para se unirem em coligações que salvaguardem a humanidade de um maior declínio para a realidade da injustiça, tirania e dominação. Apelamos à criação de uma ordem mundial alternativa, justa e humana, uma vez que o atual sistema global falhou nas suas responsabilidades mais importantes: defender os fracos e preservar a paz e a segurança internacionais.

3.10 Repetimos e enfatizamos o nosso apelo às igrejas do mundo – trabalhando em conjunto com coligações religiosas e seculares – para pressionarem os seus governos a isolar Israel, responsabilizá-lo, impor sanções, boicotá-lo e proibir a exportação de armas até que este cumpra o direito internacional, termine a opressão e a tirania, e adira aos princípios da justiça e da paz. Apelamos igualmente aos governos do mundo para: pressionarem pelo julgamento dos criminosos de guerra, quem quer que sejam, ao abrigo da jurisdição do Tribunal Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional; garantirem reparações ao povo palestiniano, tanto na sua pátria como na diáspora; e trabalharem pelo regresso imediato dos deslocados através da reconstrução de Gaza e do fortalecimento da firmeza do seu povo.

3.11 Mais do que nunca, agora é um tempo em que a solidariedade tem um custo elevado. Pela sua própria natureza, a verdadeira solidariedade é custosa. Tem um preço. É uma posição baseada na fé, um compromisso humano e uma responsabilidade moral. A verdadeira solidariedade é também a encarnação da nossa humanidade e fraternidade partilhadas. Ou vivemos juntos – ou perecemos juntos. Hoje é a Palestina. Amanhã serão outros povos marginalizados e oprimidos.

3.12 Neste espírito, honramos o número crescente de vozes judaicas que se opõem à guerra e confrontam o sionismo por convicção moral, humana  e baseada na fé. Nelas encontramos parceiros na nossa humanidade partilhada e na luta pela liberdade e dignidade humana – parceiros também no diálogo religioso e político. Durante demasiados anos, esse diálogo foi monopolizado por sionistas e seus aliados, com as suas premissas construídas sobre o reforço da ideologia sionista e a perseguição dos palestinianos. Apelamos, portanto, às igrejas do mundo para distinguirem entre o diálogo com judeus e o diálogo com o sionismo – de facto, para boicotarem o diálogo com vozes sionistas que apoiaram e continuam a apoiar a ocupação, o apartheid e o genocídio do povo palestiniano. Em vez disso, apelamos às igrejas para apoiarem e amplificarem as vozes proféticas judaicas que clamam pela justiça e pela verdade.

3.13 A solidariedade cristã significa estar ao lado e apoiar a Igreja local na sua firmeza, fortalecendo a firmeza dos crentes na terra e capacitando as instituições eclesiais e cristãs que encarnam a missão baseada na fé e humanitária no terreno. Renovamos o nosso apelo aos cristãos de todo o mundo para desafiarem o cerco imposto aos cristãos da Terra Santa, para virem e visitarem as pedras vivas, para testemunharem e responderem ao que veem, e para ajudarem a fortalecer a firmeza dos palestinianos e dos cristãos palestinianos entre eles. Este é o nosso apelo: “Vinde e vede.” Depois, contai o que vistes, respondei a isso, e estai com a Igreja firme.

 

 Parte IV – Fé num Tempo de Genocídio

Irmã Nabila Saleh

Irmã Nabila Saleh com algumas paroquianas: Gaza, onde a fé é mais forte do que as bombas. Foto © Vatican Media

4.1 Da terra da Encarnação, da Cruz e da Ressurreição, renovamos a nossa palavra de esperança no Deus dos pobres, dos oprimidos e dos espezinhados. A guerra genocida procurou despojar-nos da nossa esperança e fé na bondade de Deus e na vida sobre a nossa terra. No entanto, declaramos adesão à nossa fé num Deus santo e justo, e no direito que Deus nos deu de viver com dignidade na nossa terra e na terra dos nossos antepassados. Esta é a nossa esperança. Esta é a nossa firmeza. Esta é a nossa resistência.

4.2 Ouvimos muito falar de soluções políticas e de paz enquanto a realidade no terreno diz o contrário. Falar de uma solução política hoje é inútil, a menos que primeiro empreendamos o sério trabalho de reconhecer e retificar os erros passados – começando pelo reconhecimento da injustiça histórica feita aos palestinianos desde a ascensão do movimento sionista e da Declaração Balfour. Qualquer começo genuíno deve envolver o desmantelamento do colonialismo de povoamento e do sistema de apartheid construído sobre a supremacia judaica, codificada na racista Lei do Estado-Nação de Israel. Rejeitamos também propostas para um estado enfraquecido e condicional, sem soberania plena sobre as suas fronteiras, águas, espaço aéreo e segurança. O que é necessário é ação e proteção internacionais, responsabilização dos criminosos de guerra e compensação para os sobreviventes do genocídio, da Nakba e do colonialismo de povoamento. As soluções duradouras não assentarão na lógica da força, mas nos fundamentos da justiça, igualdade e direito à autodeterminação.

4.3 O nosso objetivo é viver como filhos e filhas de Deus na nossa pátria, sem barreiras, muros, ocupação militar e apartheid – mas num mundo em que a justiça, a equidade e a igualdade reinem. Visionamos um futuro em que o nosso mundo esteja livre de guerra, morte, sectarismo e tribalismo, onde a palavra da verdade se eleve acima da palavra do poder, onde a legitimidade pertença à paz e à justiça. Extraímos a nossa esperança da Palavra de Deus e da fé viva nos nossos corações, recusando deixar a modelação do futuro às vozes do extremismo, colonialismo e supremacia.

4.4 Reafirmamos a nossa rejeição de um estado religioso, pois isso constrange o estado dentro de limites estreitos, favorece um cidadão em detrimento de outro, e exclui e discrimina entre o seu povo. A nossa esperança é por um estado civil, democrático, alicerçado numa cultura de pluralismo – não de dominância numérica – que reconheça a bondade e o valor de cada pessoa que pertence a esta terra. Tal cultura, enraizada no mandamento do amor, obriga-nos a confrontar todas as formas de extremismo e racismo na nossa terra – rica como é na diversidade dos seus povos, culturas e religiões – com base na igualdade perante a lei e na cidadania plena.

4.5 Do coração da dor, do genocídio e do deslocamento, elevamos este clamor, um clamor profético de firmeza. Declaramos o nosso compromisso de trabalhar para o bem desta terra e de toda a humanidade com base na nossa humanidade partilhada, até ao dia em que vivermos livres na nossa terra, juntamente com todos os habitantes da terra, em verdadeira paz e reconciliação fundadas na justiça e na igualdade para toda a criação de Deus, onde a misericórdia e a verdade se encontram, e a justiça e a paz se beijam (Salmo 85,10).

 

[1] https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/09/israel-has-committed-genocide-gaza-strip-un-commission-finds
[2] https://www.hrw.org/news/2024/09/19/world-court-findings-israeli-apartheid-wake-call
[3] https://docs.un.org/en/A/RES/37/43 
[4] https://www.unocha.org/publications/report/occupied-palestinian-territory/west-bank-movement-and-access-update-may-2025
[5] https://www.ohchr.org/en/press-releases/2024/07/un-report-palestinian-detainees-held-arbitrarily-and-secretly-subjected
[6] https://www.fides.org/en/news/69796-ASIA_PALESTINE_Christian_institutions_third_largest_employer_among_the_Palestinian_population_according_to_a_survey_people

 

Kairos II – a voz das comunidades cristãs sofredoras dos territórios palestinianos

O documento Kairos II – A Iniciativa Cristã Palestiniana Um Momento de Verdade: Fé num Tempo de Genocídio – foi publicado em 14 de novembro de 2025 por uma plataforma de homens e mulheres, clérigos e leigos das diferentes confissões cristãs da Palestina, agrupados numa plataforma designada, em inglês, Palestinian Christian Ecumenical Initiative.

Na verdade, trata-se da atualização de um outro documento publicado pelo mesmo grupo em 2009 e não envolveu nem representa a posição dos líderes religiosos cristãos presentes nos territórios palestinianos. Que se saiba, esses líderes não aprovaram nem se demarcaram do texto.

Sarah Mullally

A arcebispo de Cantuária, Sarah Mullally, discursa no Sínodo Geral sobre o debate Kairos Palestina. Foto © Sam Atkins | Igreja de Inglaterra.

Recentemente, o Sínodo Geral da Igreja (anglicana) de Inglaterra entendeu aceitar na ordem de trabalhos da sua reunião de julho uma moção apresentada pela Diocese de Carlisle, que propunha que aquela Igreja “recebesse” (receive) quatro documentos, um dos quais o Kairos II.

Organizações judaicas do Reino Unido denunciaram aquilo que consideravam o registo antissemita da moção. No Sínodo, os debates foram acalorados, mas a moção foi aprovada, depois de introduzida uma alteração: o Sínodo não deveria “receber” (no sentido de endossar), antes deveria “ouvir” o que se dizia particularmente no Kairos II como expressão sentida da experiência de sofrimento dos cristãos e das comunidades cristãs e de todos os palestinianos. Além disso, a moção reafirmou a condenação do antissemitismo; condenou também a islamofobia; acentuou o empenho no diálogo entre cristãos e judeus.

Foi a recém-empossada arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, ela que acabava de chegar de uma visita pastoral às comunidades anglicanas de Israel e dos territórios palestinianos, que sumariou a posição que colheu uma clara maioria dos membros do Sínodo, ao enunciar:

“Ouvir os cristãos palestinianos não significa concordar com tudo o que o documento afirma, mas significa escutar o seu testemunho com compaixão e solidariedade”.

As reações à aprovação não se fizeram esperar. O rabi chefe britânico declarou que a tomada de posição poderia comprometer o diálogo entre judeus e cristãos e o comité de deputados dos judeus britânicos e outras instituições e personalidades sugeriam que o teor da moção, além de hostil ao sionismo em sentido largo, dava força aos discursos antissemitas. Mas o que mais irritou os contestatários, foi a assunção de que está a verificar-se um genocídio em Gaza, algo que a maioria dos setores judaicos negam e que outros consideram não estar definitivamente estabelecido que assim seja.

Os apoiantes do Kairos II valorizam o documento por ele ser uma voz e um testemunho de quem vive e acompanha as comunidades cristãs de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém oriental; por constituir uma denúncia profética do apartheid, dos atentados continuados à dignidade humana e ao direito internacional, lendo estes graves problemas à luz do Evangelho, numa perspetiva da teoria da libertação. É, ao mesmo tempo, um documento que não questiona a existência do Estado de Israel, exigindo, entretanto, o fim da ocupação, a igualdade política; rejeição do chamado “sionismo cristão”; embargo de armas a Israel; sanções internacionais; e responsabilização criminal dos autores de crimes de guerra.

Porque entendeu o 7MARGENS publicar este documento? Em primeiro ligar porque ele foi pouco divulgado internacionalmente; segundo porque não se encontrava disponível em português; terceiro porque, na cobertura do recente Sínodo da Igreja de Inglaterra, referimos o assunto, sem condições para o contextualizar melhor. Mas sobretudo porque as vozes que circulam pelas agências internacionais e pelos grandes media são sobretudo as vozes das lideranças e dos governos, inclusive no campo religioso. Desse ponto de vista, o Kairos II exprime uma mudança: dá-nos uma voz mais próxima das bases, das comunidades sofredoras e vítimas da violência e da injustiça estruturais. E já agora, porque exprime, sobretudo nas partes III e IV, uma forte acentuação da esperança.

Redação do 7MARGENS

 

 

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