AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

ajuda mao estendida foto pexels (1200 x 612 px)

O mundo nas nossas mãos (6)

Cuidarmos e sermos cuidados não tem fim

| 24/12/2021

ajuda mao estendida foto pexels

“Preciso de relembrar-me regularmente de que é no encontro de vidas que poderei manter não só a minha sanidade neste ‘combate à pobreza’, como fazê-lo de uma maneira que seja digna, verdadeiramente solidária, libertadora do melhor de cada um.” Foto  © Pexels.

 

A necessidade humana não tem fim. Não sei se terá sido por isso, também, que Jesus disse: “os pobres sempre os tereis entre vós”. Na minha vida tenho aprendido que muitas vezes a pobreza humana, seja material ou espiritual, está um pouco por todo o lado, até onde menos a esperava. Tenho-lhe dedicado uma boa parte do meu percurso, combatendo-a como sei e posso, a começar em mim próprio.

Há uns anos um amigo falou-me de uma ideia que tinha: um “jantar comunitário” para pessoas “sem e com abrigo”. Ambos integrávamos uma equipa que distribuía alimentos nas ruas e estimulava o contacto com pessoas em situação de sem-abrigo. Achei que a ideia dele requeria um esforço pouco ou nada meritório – afinal, não estávamos já a ajudar quem tinha fome? Não era essa a necessidade principal mais urgente? Para quê complicar mais, gastar mais tempo e energia? Tentei demovê-lo, mas ele decidiu avançar na mesma e acabei por ajudá-lo.

Desde então servimos algumas centenas de jantares, envolvendo vários milhares de pessoas em várias cidades, durante dez anos. Constituímos depois uma associação-rede de voluntariado que além desses jantares também organiza actividades que visam construir pontes com pessoas em situações de carência, vulnerabilidade e exclusão: sem-abrigo, seniores isolados, crianças e jovens em risco, refugiados e imigrantes, territórios prioritários, etc. envolvendo voluntários, escolas, empresas, autarquias, comunidades de fé, etc.

Nestes anos tenho visto mudança na vida de pessoas e comunidades, mas também tenho visto estagnação e até deterioração. O número de pessoas e situações que requerem intervenção tem aumentado, seja porque há mais pessoas a precisar de ajuda ou porque vamos tendo maior conhecimento da realidade. Se fôssemos motivados apenas ou sobretudo pela resposta à necessidade humana, não só não teríamos mãos a medir, como nos esgotaríamos rapidamente na nossa motivação e nos nossos recursos institucionais e pessoais.

Por isso já me têm perguntado se não me canso de ter tantas solicitações de tanta gente sem recursos ao longo de tantos anos, se nunca pensei em desistir. Sim, por vezes passamos por períodos de desilusão, cansaço, esgotamento até. A “necessidade humana” é maior, mais ampla, mais constante do que parece e não, não está ao alcance das minhas capacidades acabar com ela: não sou Deus, não tenho energia, empatia e tempo suficientes nem para tanta gente, nem para o esforço por vezes desmesurado de gestão de uma instituição “não lucrativa”.

Além de procurar lembrar-me disso e agir a partir dessa percepção, também me apercebi de que a principal necessidade humana é mesmo a pertença, e que a maior tragédia humana é a não-pertença, a exclusão. Fomos desenhados para a comunidade: com ela florescemos, sem ela definhamos. Isso é verdade para todos os seres humanos, independentemente da sua condição, mas é sempre mais fácil de confirmá-lo em quem vive abaixo da famigerada “linha de pobreza”, sentindo-se sozinho e sem esperança.

Nisto não tenho dúvidas: o combate à pobreza material é um campo de acção urgente e um desígnio comum. Mas com tudo o que já fazemos e possamos ainda vir a fazer para enfrentá-lo, parece-me que há um desafio ainda maior e mais radical: na maioria das vezes é mais fácil tirar as pessoas da pobreza do que tirar a pobreza das pessoas. E aqui não resultam as soluções padronizadas e presas a normas. Como dizemos na nossa rede, “Conhecemo-los pelas suas necessidades; e se os conhecêssemos pelo seu nome?”.

A necessidade humana é personalizada. Embora todos precisemos de comer, de nos vestir e de onde nos abrigar, cada pessoa precisa-o de uma forma peculiar, no seu tempo e à sua maneira. Creio que é no envolvimento com o património singular de cada um que podemos estimular e apoiar a mudança. O maior estímulo e ajuda é mesmo o do cruzamento, do encontro de patrimónios pessoais, algo que é belo de dizer mas que requer de quem se disponibiliza a caminhar com outros alguma dádiva de si mesmo.

Perguntar-se-á então: como é possível conseguir acudir às necessidades mais óbvias e urgentes e ainda tentar “dar de si mesmo”, do seu tempo, atenção, companhia, com-paixão? Embora a resposta seja construída dia-a-dia, uns dias melhor, outros pior, ela passa precisamente por aceitar viver nessa tensão que é, afinal, uma tensão que produz crescimento pessoal. Preciso de relembrar-me regularmente de que é no encontro de vidas que poderei manter não só a minha sanidade neste “combate à pobreza”, como fazê-lo de uma maneira que seja digna, verdadeiramente solidária, libertadora do melhor de cada um.

Volto a Jesus: também ele se cansou (e fez cansar os que serviam ao seu lado) no cuidado das necessidades básicas, físicas e espirituais das pessoas que o procuravam, ou que ele mesmo procurava. Ele equilibrava-se na oração, nessa busca da perspectiva do Alto, no ver além do olhar, no escutar além do ouvir, no acolher além do estar. Parece-me que ele via esta sua agenda ora no imediato, ora na eternidade, ora no visível, ora no invisível. Ele que tanto podia não “resolveu” tudo e para sempre enquanto esteve entre nós, mas abriu caminhos de esperança e de uma nova humanidade. É por aí também que procuro segui-lo.

 

Alfredo Abreu é presidente da Serve the City International e Serve the City Portugal, rede de voluntariado que se disponibiliza para ir ao encontro de pessoas e territórios em situações de carência e vulnerabilidade (sem-abrigo, idosos isolados, refugiados e imigrantes, crianças e jovens em risco, bairros “prioritários”, etc.) com uma proposta de encontro e disponibilidade para acompanhar a mudança.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

São João da Cruz: poesia e mística

Ano Jubilar de São João da Cruz (9)

São João da Cruz: poesia e mística novidade

Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz. 

Padre Telmo Ferraz

[Entre Margens]

Padre Telmo Ferraz novidade

Resumidamente, o Padre Telmo Ferraz nasceu na aldeia de Bruçó, Mogadouro, na região de Trás-os-Montes. Pertencia à Diocese de Bragança e Miranda. Ordenou-se em 1951. Foi Pároco em algumas Paróquias da Diocese, trabalhando muito afincadamente na Barragem do Picote, onde desenvolveu uma pastoral muito humanitária junto dos operários. [Texto de Serafim Falcão].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.