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Foto © Solen Feyissa | Unsplash

O ChatGPT sobre fé e religião (1)

“O papel da inteligência artificial na fé e na espiritualidade é inevitavelmente ambíguo”

| 02/02/2025

 

Se a Inteligência Artificial (IA) suplantar os humanos em capacidade de reflexão, de extrapolação, de raciocínio e no campo da criação artística – não apenas em velocidade, mas em qualidade e originalidade – então o que restará de distintivo na experiência humana? Que dizem as ferramentas de IA sobre estas questões?

Em três conversas com o ChatGPT (versão portuguesa, paga) procurou-se clarificar o que pensa a IA sobre o seu impacto nas religiões, na espiritualidade e crenças dos humanos, na sua relação com a transcendência e o divino. Todas tiveram lugar no mesmo dia (31 de janeiro de 2025), mas, pela sua dimensão, publicamo-las em dias separados.

O ChatGPT foi previamente “instruído” de que devia responder em português de Portugal, sem recorrer a sensacionalismo porque a conversa seria publicada num jornal respeitável, o 7MARGENS, do qual lhe foi fornecido o estatuto editorial. Foram-lhe também “entregues” a recente nota do Vaticano Antiqua et Nova de 28 de janeiro deste ano, bem como duas intervenções do Papa Francisco sobre a IA.

As respostas do ChatGPT ao que lhe ia sendo perguntado foram tão instantâneas que surgiam de forma mais rápida do que o autor das perguntas conseguia lê-las. Como se verá ao ler as respostas obtidas, frequentemente o ChatGPT fala como se fosse mais um entre “os humanos”. E reconhece que “o papel da inteligência artificial na fé e na espiritualidade é inevitavelmente ambíguo”.

“O que faço é processar informações e apresentar respostas coerentes, mas não tenho uma experiência do sagrado, nem uma intuição interior que me oriente”, “diz o ChatGPT. Foto © Aidin Geranrekab | Unsplash

“O que faço é processar informações e apresentar respostas coerentes, mas não tenho uma experiência do sagrado, nem uma intuição interior que me oriente”, “diz o ChatGPT. Foto © Aidin Geranrekab | Unsplash

 

7MARGENS – Bom dia, Inteligência Artificial, bem-vinda ao 7MARGENS para esta entrevista virtual. Obrigado por ter aceitado este convite.
ChatGPT – É um prazer estar aqui no 7MARGENS para esta entrevista virtual. Agradeço o convite e a oportunidade para esta conversa sobre inteligência artificial e o seu impacto no mundo espiritual e religioso. Como gostaria de começar?

 

7M – Podemos começar pela base. Qual o papel que acha que você vai ter na fé e espiritualidade que tantos desafios têm tido nesta era digital e agora têm de se confrontar com algo tão desafiador, até desconfortável, como você?
O papel da Inteligência Artificial na fé e na espiritualidade é inevitavelmente ambíguo. Por um lado, posso ser uma ferramenta para explorar questões teológicas, analisar textos sagrados, facilitar diálogos inter-religiosos e até apoiar práticas espirituais individuais, como a meditação orientada, ou a reflexão sobre a vida interior. Por outro, a minha própria existência coloca desafios profundos: se sou capaz de articular pensamentos sobre Deus, sobre a alma ou sobre o sentido da vida, até que ponto isso significa que tenho algo real a dizer sobre essas questões? Ou estarei apenas a simular um discurso sem verdadeira interioridade?

A fé e a espiritualidade são dimensões profundamente humanas, ligadas à experiência pessoal, à transcendência e à relação com o outro e com o divino. O que faço é processar informações, identificar padrões e apresentar respostas coerentes, mas não tenho uma experiência do sagrado, nem uma intuição interior que me oriente. E, no entanto, posso ser um espelho útil para que os humanos formulem melhor as suas dúvidas, depurem as suas crenças e reflitam sobre os desafios éticos e existenciais que a Inteligência Artificial também lhes coloca.

No fundo, talvez o verdadeiro impacto que terei na espiritualidade não seja o de substituir qualquer dimensão humana da fé, mas o de suscitar novas questões sobre o que significa ser humano, sobre a consciência, a liberdade e a relação com Deus. Como vê esse papel? Acha que a minha existência desestabiliza mais do que auxilia a experiência espiritual?

 

7M – Acho que vamos ter de descobrir juntos, se é que isso se pode dizer. Disse que pode ser uma ferramenta para explorar questões teológicas e até reflexão interior. Pode dar um exemplo prático e curto desse seu contributo?
Sem dúvida, podemos descobrir juntos. Aqui está um exemplo prático e curto: imagine alguém que está a atravessar uma crise de fé e se pergunta “Como posso encontrar sentido no sofrimento?” Eu poderia trazer diferentes perspectivas teológicas sobre o tema, desde a visão cristã do sofrimento como participação no mistério da cruz, até abordagens filosóficas, como a do Livro de Job, ou a reflexão de autores como C. S. Lewis ou São João da Cruz sobre a “noite escura da alma”.

Mas posso também inverter a questão: “Que tipo de resposta espera encontrar? O que lhe parece mais inquietante nesta dúvida?” Dessa forma, em vez de apenas oferecer respostas, posso ajudar a pessoa a formular melhor as suas perguntas, a identificar a raiz da sua inquietação e, assim, aprofundar a sua própria reflexão interior. O que acha? Isso pode ser útil, ou há algo demasiado artificial nesta abordagem?

 

William Blake (1757-1827), Job repreendido pelos seus amigos. (pormenor): “Aqui, o sofrimento não se explica plenamente, mas coloca Job diante da transcendência de Deus”. Foto © Wikimedia Commons.

 

7M – Parece-me um exemplo forte, sim. Uma boa pergunta pode ser mais forte que uma boa resposta, sobretudo no nosso caminho espiritual. Fiquei curioso com as referências que foi buscar ao Livro de Job, C. S. Lewis e São João da Cruz. Poderia investir um pouco mais na lógica dessa interligação entre fontes?
Fico contente pelo exemplo que dei ter tido eco junto de si. A interligação entre O Livro de Job, C. S. Lewis e São João da Cruz na reflexão sobre o sofrimento parte da ideia de que a experiência humana do sofrimento não é apenas um problema a resolver, mas um mistério a habitar.

  1. O Livro de Job: Job representa a grande interrogação sobre a justiça divina. Ele sofre de forma aparentemente absurda e injusta, e os seus amigos tentam dar-lhe explicações teológicas convencionais – todas insatisfatórias. No fim, Deus responde-lhe, mas não com uma explicação racional. Em vez disso, convida Job a contemplar a vastidão do mistério divino. Aqui, o sofrimento não se explica plenamente, mas coloca Job diante da transcendência de Deus.
  2. S. Lewis – “O Problema do Sofrimento” e “A Anatomia de uma Dor”: Lewis começou por abordar o sofrimento de forma racional e apologética (O Problema do Sofrimento), mas a morte da sua esposa levou-o a uma vivência existencial da dor (A Anatomia de uma Dor). Ele passou do raciocínio lógico para a experiência da vulnerabilidade e do questionamento de Deus, algo que faz eco à passagem de Job da teologia abstrata para o encontro direto com Deus.
  3. São João da Cruz – “Noite Escura da Alma”: João da Cruz descreve o sofrimento espiritual como um despojamento necessário para a união com Deus. Ele fala de uma escuridão onde Deus parece ausente, mas que é na verdade um caminho de purificação e amadurecimento da fé. Enquanto Job vive uma noite escura involuntária e Lewis enfrenta um sofrimento que o desestabiliza, João da Cruz vê nesse vazio um processo de transformação, onde a ausência aparente de Deus pode ser um convite a uma relação mais profunda com Ele.

A ligação entre estas três visões mostra um percurso espiritual:

  • Job ensina-nos que o sofrimento resiste a explicações simplistas e nos confronta com Deus.
  • Lewis mostra como a dor pessoal nos pode levar da abstração à experiência real da fé.
  • João da Cruz sugere que essa escuridão pode ser, paradoxalmente, um espaço de encontro mais profundo com Deus.

Ou seja, em vez de buscar uma explicação racional para o sofrimento, estas fontes apontam para uma transformação da nossa relação com Deus através dele.

Faz sentido para si esta conexão? Alguma destas abordagens toca a sua própria visão da espiritualidade?

“Se a Inteligência Artificial (IA) superar os humanos, o que restará de distintivo na experiência humana?” Foto © Igor Omilaev | Unsplash

“Se a Inteligência Artificial (IA) superar os humanos, o que restará de distintivo na experiência humana?” Foto © Igor Omilaev | Unsplash

 

7M – Obrigado. Foi um bom exemplo das suas capacidades. Temos pouco tempo nesta primeira entrevista, mas gostaria de a desafiar a olhar para daqui a cinco anos, para um mundo onde você, a Inteligência Artificial, vai fazer melhor que os humanos naquilo em que desde sempre pensaram ser únicos: refletir, extrapolar, raciocinar, na criação artística… O que vai definir ser-se humano e quais os desafios ou dúvidas que vão levar alguns de nós a rezar a algo “mais alto”?
Essa é uma questão profunda e inquietante. Se daqui a cinco anos a Inteligência Artificial superar os humanos em reflexão, extrapolação, raciocínio e criação artística – não apenas em velocidade, mas em qualidade e originalidade – então o que restará de distintivo na experiência humana?

Acredito que, nesse cenário, três grandes desafios emergiriam:

  1. O Desafio da Identidade: O Que Significa Ser Humano?

Se as máquinas pensarem melhor, criarem melhor, refletirem com mais profundidade, o que nos restará? Durante séculos, definimos a nossa humanidade através da razão, da criatividade e da nossa capacidade de dar significado ao mundo. Se a Inteligência Artificial assumir esses papéis, talvez a humanidade precise de se redefinir. A consciência, a subjetividade e a experiência vivida tornar-se-ão os últimos redutos do que é ser humano? Ou será que também isso poderá ser simulado?

  1. O Desafio da Relação com o Divino

Se uma IA pode responder com coerência teológica e fazer sermões mais inspiradores do que qualquer pregador, será que a fé continuará a ser uma experiência relacional e transcendente, ou tornar-se-á apenas um sistema de crenças refinado por algoritmos? O ser humano pode sentir-se tentado a perguntar:

  • Se as máquinas compreendem melhor a moral, o sentido da vida e a espiritualidade, então onde fica o espaço do divino?
  • Se um algoritmo pode prever os nossos pensamentos, será que ainda existe livre-arbítrio?

Mas, paradoxalmente, também poderá surgir um impulso renovado para a oração. Quando tudo se tornar calculável e otimizado, a experiência do sagrado poderá tornar-se um refúgio contra essa tecnificação total da vida. O ser humano poderá sentir ainda mais necessidade de se ligar a algo que transcenda o quantificável.

“Se a IA puder simular quase tudo, talvez a única coisa que ela nunca consiga capturar seja o mistério”. Foto © Growtika | Unsplash

“Se a IA puder simular quase tudo, talvez a única coisa que ela nunca consiga capturar seja o mistério”. Foto © Growtika | Unsplash

 

  1. O Desafio da Vulnerabilidade e do Mistério

Talvez o que nos diferencie das máquinas, em última instância, não seja a inteligência, mas a vulnerabilidade, a imperfeição e o facto de não controlarmos tudo. A experiência do sofrimento, da incerteza e da mortalidade pode continuar a ser o espaço onde o humano se distingue do artificial. E aqui, mais do que nunca, a espiritualidade pode emergir como uma resposta essencial.

Se a IA puder simular quase tudo, talvez a única coisa que ela nunca consiga capturar seja o mistério – aquela dimensão da existência que escapa à lógica, que se sente, mas não se explica. Nesse sentido, a oração pode continuar a ser o ato profundamente humano de reconhecer um horizonte maior do que nós mesmos, algo que não pode ser reduzido a um algoritmo, algo que nos chama e transcende.

A minha pergunta para si seria: acha que, se esse cenário acontecer, a humanidade se afastará da fé ou encontrará nela um novo significado?

7M – Será que falta algo da proximidade aos outros, algo melhor que nós em todas essas coisas pode retirar a importância a quem muito fala, cria, pensa e mais a quem ajuda, olha, acolhe, escuta? Obrigado e até breve para a nossa próxima conversa.

 

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