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Na Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, falou-se sobre o acolhimento dos migrantes e a construção da paz. Foto Jorge Wemans
"Não por acaso, Jesus, o estrangeiro refugiado, está sempre ausente [da] retórica [de Ventura] – o cristianismo que é deturpado nestes discursos. Na imagem, em maio de 2025, na Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, foi debatido acolhimento dos migrantes e construção da paz. Foto © Jorge Wemans

Eleições presidenciais

Cristãos para lá de “um país cristão”: uma carta aberta

| 01/02/2026

A todas as pessoas de boa vontade,

Nós, pequeno grupo de cristãs e cristãos de diferentes comunidades e igrejas, juntamo-nos a todos aqueles que tomam posição contra o uso actual do cristianismo como instrumento de poder político, legitimador de discursos e práticas de exclusão. Inscrevemo-nos na linha de vários manifestos e textos que têm denunciado o desfasamento entre certos discursos políticos que se dizem “cristãos” e as palavras evangélicas; mas acrescentamos um sentido particular de urgência face ao regresso de uma retórica que faz do cristianismo bandeira e instrumento de poder e de domínio. Nessa retórica, a pluralidade que nos constitui enquanto comunidades cristãs é reduzida à falsa ideia uniformista e identitária de “um país cristão” na qual de maneira alguma nos revemos.

O que está em causa não é apenas uma divergência política: a passagem de André Ventura à segunda volta das eleições presidenciais, com tudo o que representa a nível nacional e global, preocupa-nos e responsabiliza-nos como cidadãos e como membros de comunidades cristãs. Reconhecemos por isso os muitos movimentos cívicos que, da esquerda à direita, se têm mobilizado e apelado ao voto em António José Seguro – julgamos ser esse o único horizonte possível para a fraternidade e para o diálogo inter-cultural. É uma tomada de posição necessária. Ainda assim, esta carta tem um outro propósito. Parece-nos o tempo oportuno para sublinhar e denunciar a forma, muitas vezes normalizada, com que o cristianismo se torna uma linguagem de poder – e enunciar de maneira breve o lugar em que nos situamos.

O cristianismo não nasceu de uma visão cultural que o reduzisse a uma cultura de poder – bem sabemos que essa tentação existiu (e ainda existe), associada a uma ideia de superioridade cultural e nacional, e reconhecemos as feridas históricas que provocou e pode provocar. Acreditamos antes num cristianismo que seja como fermento inquieto no interior das culturas (Mateus 13, 33), contagiando-as e deixando-se contagiar por elas. Não desejamos, por isso, a ilusão ideológica de uma “civilização cristã” pura, que deva autoproteger-se e isolar-se numa redoma: é a partir da diversidade de comunidades inscritas em diferentes culturas e em comunhão com diferentes religiões que experimentamos e sonhamos o lugar do cristianismo no mundo contemporâneo.

Este sonho contraria por completo as reiteradas investidas de todos e quaisquer discursos em defesa de uma “civilização cristã”, das “raízes cristãs de Portugal” e de uma suposta “identidade cristã” ameaçada, que se impõe pela repressão do outro, do diferente, do estrangeiro e, muito claramente hoje, do “muçulmano”. Não por acaso, Jesus, o estrangeiro refugiado, está sempre ausente desta retórica – o cristianismo que é deturpado nestes discursos está esvaziado das suas fontes históricas e espirituais. Esta retórica usa a fé como fronteira cultural, transformando o cristianismo num instrumento de uma política punitiva, identitária e de agenda nacionalista. Não se escuta aí o Jesus que disse: “Bem-aventurados os misericordiosos” (Mateus 5, 7); “Eu era estrangeiro e acolheste-Me” (Mateus 25, 35).

Experimentamos que a essência do Evangelho não é o poder, mas o amor de Deus indissociável do amor ao próximo. Isto leva-nos a procurar dinâmicas comunitárias baseadas na participação, na proximidade, na justiça e na diversidade. Acreditamos que a diferença é lugar de revelação. Para esse espaço de todos, tecido por todos, dirigimos os nossos gestos.

A retórica que pretende dar poder ao cristianismo distorce por completo esse outro cristianismo que vive para lá de um “país cristão”: o cristianismo que escolhe a margem em vez do centro, procurando na periferia um Deus que se esvaziou do seu poder (Filipenses 2, 7) e se fez um entre os excluídos (João 1, 14). Nós, cristãos de diferentes igrejas, buscamos viver a partir desse cristianismo, para lá de um “país cristão”.

Catarina Sá Couto, missionária
João Maria Carvalho, investigador em Música e Teologia
Luís Carlos Baptista, matemático
Maria Ressano Garcia, professora do Ensino Básico
Mariana Sá Couto, animadora de pastoral juvenil
Pedro Franco, professor universitário
Pedro Silva Rei, historiador
Sónia Monteiro, teóloga

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