AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

autores-joao maria meireles

“Não temos ninguém para ser bispo? – Uma carta sobre a diocese de Angra

| 28/09/2022

Imagem do Senhor Santo Cristo, Ponta Delgada

“Provavelmente, esta inexplicável estima negativa que algum clero açoriano tem de si mesmo é que estará na origem de há cerca de 70 anos nenhum padre do clero diocesano ter sido nomeado bispo.” Foto: Imagem do Senhor Santo Cristo, em Ponta Delgada. © António Marujo/7Margens

 

Leio com a frequência que o meu tempo permite o vosso jornal digital 7MARGENS dado conter boa e útil informação bem como bons artigos de opinião.
Como em liberdade acontece, concordo com a maioria dos conteúdos mas, igualmente, discordo de outros ou de alguma particularidade.

Vem esta carta a propósito (não sei se na era digital ainda se enviam “cartas ao diretor” como acontecia antigamente) da notícia “Novos bispos para Angra, Bragança e Setúbal estão para breve” onde são veiculadas opiniões, sem indicação dos nomes de quem as prestou, mas que se presumem ser de sacerdotes, talvez desta Diocese de Angra, que não considero serem as mais corretas.

Presumo, e evidencio bem esta presunção, pedindo desculpa se estou enganado, que o 7MARGENS deve ser leitor assíduo de um Boletim Paroquial que se publica na ilha de São Miguel e que “encrençou em tábuas” (desculpe, Sr. Diretor, esta linguagem tauromáquica, mas sou da ilha Terceira), arremetendo, com grande bravura e trapio contra a própria Diocese de Angra, procurando insinuar que não quer nenhum açoriano como bispo de Angra, preferindo qualquer criatura que a Santa Sé para aqui queira mandar.

No vosso artigo começam por citar uma fonte anónima e deslocalizada que diz nunca ter havido uma demora assim em nomear bispos. Como abaixo refiro, o que menos faltou nesta Diocese foram tempos de sede vacante, embora esse facto em nada tenha perturbado a vida do povo de Deus, pois os vigários capitulares açorianos (como então se designavam os atuais Administradores Diocesanos) souberam administrar muito bem a Diocese.

Depois, embora sem nomes mas indicando que se trata de padres açorianos, vêm uma série de opiniões, que respeito, mas que me deixam perplexo.

Diz um dos depoentes que o atual administrador diocesano e antigo vigário geral de D. António e de D. João, padre Hélder Fonseca Mendes, tem “anticorpos”. Quais e de quem? Nada se diz de concreto, apenas se insinua, numa tentativa desesperada de “queimar” este sacerdote que possui uma ótima formação académica e pastoral. Tem defeitos? Tem os tais “anticorpos”? Quem não os tem? Será que um bispo que para aqui for mandado será totalmente perfeito, sem mancha, angélico?

De seguida, alguém tem a pretensão de afirmar que “Temos fama de não sermos um clero fácil e a dispersão não ajuda.” Sim, é verdade, a dispersão arquipelágica pode ser um contratempo, mas sermos um clero difícil custa a acreditar.

É verdade que nas décadas de 60 e 70 do século passado alguns sacerdotes, de muito mérito, abandonaram o sacerdócio por serem vítimas de incompreensões teológicas e políticas do então bispo continental que mandava na Diocese (há documentação no arquivo da Cúria sobre esta matéria). Todavia, para o bem ou para o mal, foi uma situação muito concreta e sinalizada no tempo que nunca mais se repetiu.

É de lastimar e repudiar a afirmação de um mesmo ou outro sacerdote que “o panorama de uma parte da hierarquia e do clero é “sofrível”. Em que se baseia esta afirmação? Existe algum estudo sociológico, psicológico e pastoral que leve este padre a esta inverosímil afirmação? Ou não será a vontade óbvia de obstaculizar que um padre açoriano seja nomeado bispo?

Provavelmente, esta inexplicável estima negativa que algum clero açoriano tem de si mesmo é que estará na origem de há cerca de 70 anos nenhum padre do clero diocesano ter sido nomeado bispo. Esta situação, na minha opinião, é incompreensível e intolerável ser o clero açoriano sistematicamente preterido para o ofício episcopal. Contrariamente à opinião desse meu colega incógnito, temos um presbitério jovem, bem formado (como diz o 7MARGENS e é verdade, a Diocese de Angra é a segunda diocese portuguesa com mais clero formado em Roma, para além de outros que se licenciaram noutras Universidades fora de Roma) e com experiência pastoral na dura vida insular. Somos uma Diocese que tem dado imensos sacerdotes para o serviço pastoral em diversas partes do mundo. Só não temos ninguém capaz de ser bispo?

Já agora, também consta por cá, embora diga com as devidas reservas, que o clero das Dioceses do continente não querem como bispo um açoriano, talvez por considerarem as ilhas as últimas “colónias” do defunto império colonial português de má memória e os insulanos como “pretos pintados de branco”, contudo, bem mais brancos do que muitos do que o consideram ser aí pela península. Se somos “colónia” pastoral, já é tempo de alcançarmos a nossa autonomia como aconteceu com os poderes político-administrativos civis há bastantes anos.

 

Angra, sede vacante
Igreja do senhor Santo Cristo, Ponta Delgada (Ilha de São Miguel, Açores). © Miguel Veiga

“As situações da Diocese de Angra em sede vacante são muitíssimas e o que agora se vive não é novidade a não ser para aqueles que, por manifesta ignorância, não sabem nem querem saber do que nestas ilhas se passou ao longo destes 488 anos da sua existência..” Foto: Igreja do senhor Santo Cristo, Ponta Delgada (Ilha de São Miguel, Açores). © Miguel Veiga.

 

O período maior em que a Diocese de Angra se encontrou na situação de sede vacante foi de 34 anos e 7 meses, entre 1637 (com a morte de Dom Frei António da Ressurreição a 8 de abril de 1637) e 1671 (com a nomeação de Dom Frei Lourenço de Castro a 18 de maio de 1671).

Todavia, em épocas antigas, a vacância episcopal aconteceu por diversas vezes: entre 1612 e 1614, entre 1772 e 1774, entre 1818 e 1820 e 1870 e 1872.

Já no século XX esteve vacante entre 1904 e 1905, para viver, poucos anos depois, uma vacância atribulada após a implantação da República. Dom José Cardoso Monteiro, 32.º bispo de Angra, que havia sido nomeado em 1905, veio a falecer nesta cidade a 20 de junho de 1910; entrando a Diocese em vacância, foi governada por dois vigários capitulares. Só em 1915 deu entrada na Diocese de Angra o primeiro bispo nomeado após a implantação da República. Assim, a Diocese de Angra esteve vacante cinco anos e foi durante esses anos de vacância que o vigário capitular José dos Reis Fisher, um clérigo açoriano nascido em Angra e de antigas famílias desta ilha, reestruturou a Diocese no novo paradigma da separação da Igreja do Estado, figurino administrativo e económico que, com algumas pontuais modificações, se perpetua até aos nossos dias. Não foi necessário vir nenhum bispo de Portugal para reestruturar e adaptar a Diocese de Angra às novas realidades da República Portuguesa, pois um clérigo angrense o soube fazer!

Veio então novo bispo do continente ibérico, D. Manuel Damasceno da Costa, que deu entrada na Sé a 26 de abril de 1915 e por aqui andou até à sua morte, em 27 de janeiro de 1922.

Novamente entrou Angra em sede vacante, governada novamente pelo distinto cónego José dos Reis Fisher que, segundo a tradição, nunca chegou a bispo por ser açoriano e manquejar um pouco de uma perna (e não do juízo…). É então que é nomeado, resplandecente de uma auréola continental e ainda hoje apontado como exemplo, sobretudo por algum clero que nunca o conheceu e que apenas leu alguma literatura de cordel sobre ele, o advogado portuense Dom António de Castro Meireles, que veio fazer um tirocínio de cinco anos para ser recambiado como bispo da sua diocese natal, por nomeação de junho de 1928. Nova vacância da Sé de Angra, desta vez bem mais curta, pois durou cerca de cinco meses.

Segue-se uma série de três Bispos ibéricos que, devido aos graves problemas que aqui conseguiram arranjar, foram sendo “premiados” com bispos auxiliares para lhes sucederem imediatamente, tais eram as queixas contra eles junto da Santa Sé. Assim, a Diocese de Angra nunca vagou, pois já cá estava o bispo para suceder ao anterior, embora, em bom rigor jurídico, entre dezembro de 1978 (data da morte de D. Manuel) e junho de 1979 (data da nomeação de D. Aurélio) a diocese esteve vaga, pois Dom Aurélio Granada Escudeiro só nesta data foi nomeado Bispo de Angra, dado que tinha sido enviado como coadjutor sem direito à sucessão.

Em conclusão, as situações da Diocese de Angra em sede vacante são muitíssimas e o que agora se vive não é novidade a não ser para aqueles que, por manifesta ignorância, não sabem nem querem saber do que nestas ilhas se passou ao longo destes 488 anos da sua existência.

 

Bispos de Angra naturais dos Açores

Ao longo destes 488 anos da Diocese de Angra e dos 39 bispos que a governaram, apenas dois nasceram nos Açores.
Todavia, nenhum deles era do presbitério diocesano angrense, mas vindos do clero regular.

Foi o caso de Dom Frei Alexandre da Sagrada Família (Alexandre José da Silva), nascido na Horta, ilha do Faial, mais conhecido por ser tio materno de Almeida Garrett, ser poeta arcádico com o nome Silvio e, porventura, ter sido iniciado numa loja maçónica. Foi frade professo no convento franciscano de Brancanes. Embora nascido no Faial, todos os seus ascendentes eram continentais.

Tenha-se em evidência que este frade franciscano açoriano teve de percorrer o calvário dos bispados das colónias até chegar a esta “colónia açoriana” (como ainda é entendida por mui esclarecidos clérigos da designada metrópole portuguesa): foi bispo de Malaca e Timor, transferido para Angola e Congo e só depois de muitos trabalhos e canseiras na corte do Rio de Janeiro, foi transferido para Angra.

Verdadeiramente açoriano, só há o caso do saudoso bispo D. António de Sousa Braga, nascido em Santo Espírito da ilha de Santa Maria e de ancestrais famílias daquela ilha. Mesmo assim, como se disse, D. António tinha ingressado na sua juventude na Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos) onde estava incardinado.

Em resumo, nunca a Diocese de Angra, em 488 anos de existência, teve como bispo alguém oriundo do seu presbitério diocesano.

Por outro lado, é bem verdade que houve, durante o nefasto período colonial português, uns quantos padres açorianos que foram feitos bispos para dioceses do Oriente e de África.

Como também é verdade que alguns açorianos, sacerdotes incardinados fora de Angra, foram ou são bispos em Dioceses estrangeiras.

Sei que este texto não é, como agora se diz, “politicamente correto”. Paciência!

Apresento os meus parabéns pelo trabalho desenvolvido no vosso jornal digital e as minhas saudações fraternas.

 

João Maria Mendes, presbítero da Diocese de Angra e Ilhas dos Açores

 

Nota da Redacção
Agradecemos ao p. João Maria Mendes a sua carta, que acrescenta ainda informações históricas importantes sobre a Diocese de Angra. Três notas:
– Não sabemos a que se refere quando fala de um boletim paroquial que se publica na ilha de São Miguel; de facto, apenas houve conversas com vários membros do clero açoriano.
– O anonimato das fontes é a excepção e não a regra no 7MARGENS; neste caso respeitámos o pedido das pessoas ouvidas para que o seu nome não aparecesse.
– Entendemos a alusão feita por um padre aos “anticorpos” contra o actual administrador apostólico como uma verificação do que existe e não como uma avaliação de capacidades; de facto, é como diz: “Quem não os tem?” A.M.

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

Perseu declara-se vítima

Testemunho

Perseu declara-se vítima novidade

Escrevo como sobrevivente de abuso sexual na Igreja. Estive calado trinta e seis anos. Sou acompanhado há mais de oito. Não escrevo para defender a instituição, e nada lhe devo. Defendo duas coisas apenas: os sobreviventes e a Graça. [Testemunho de um sobrevivente de abuso sexual na Igreja Católica].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.