O Teatro da Trindade, em Lisboa, tem em cena uma peça que retoma, com o mesmo nome e um sucesso maior que o esperado, o filme O Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir (1989). Foi com alguma, ou antes, muita indignação que assisti ao êxito pouco refletido do filme na década de 90. Eu explico.
Esse sucesso pareceu-me sobretudo um equívoco e um sintoma. Eu era, na altura, professor do ensino secundário e o meu principal problema era conseguir conquistar os alunos para a importância do estudo e para a necessidade de uma disciplina pessoal capaz de produzir resultados escolares. Naquele tempo, os alunos traziam um património de escolaridade familiar muito limitado e pouco, ou por vezes nenhum, interesse pelo estudo, pois “não servia para nada”. Sobretudo filosofia, que eu lecionava, essa “ciência com a qual e se a qual se fica tal e qual”. O filme era interpretado como um grito de revolta contra a disciplina e contra os valores veiculados pela escola e pelo trabalho docente. Bourdieu era, na altura, uma voz sonante contra a “reprodução” escolar.
Na verdade, se bem entendia, a mensagem do filme era outra: uma crítica à autoridade despótica paterna, aos projetos de família com desprezo pelos interesses dos filhos, à hipocrisia das instituições – que não eram os problemas da nossa sociedade e da nossa escola (ainda em construção). Além disso, era também a afirmação dos limites do poder da inovação pedagógica (que eu próprio tinha experimentado). Mas, pelo que então percebia, o êxito do filme não ia nessa direção.
Desde logo, o ridículo caía sobre os quatro valores ali afirmados: Tradição, Honra, Disciplina, Excelência. Passadas as décadas, vemos no que tem dado o desprezo por esses valores e outros similares. (Recordo uma médica de então que garantia os seus atestados médicos verdadeiros com base na sua “dignidade profissional” e os falsos com base na “honra”.) Temos vivido com empenho a desconstrução, mas pouco cuidado com os resultados.
Hoje, os ataques à ciência, às universidades e aos professores que tomam posições pouco conformes com os interesses instalados tornam a peça, prevista estar em cena até dezembro (com encenação de Hélder Gamboa), de outra atualidade. Permite-nos rever as nossas leituras do filme e abrir outras que nos tenham passado despercebidas. Uma delas talvez seja, apesar das suas limitações quanto a mudar uma ordem bem estabelecida, a real importância social e política da literatura e das outras artes.
Clube dos Poetas Mortos
Teatro da Trindade
30 Abr – 20 Dez 2026
De Tom Schulman
Tradução: Ana Sampaio
Encenação: Hélder Gamboa
Actores: Dany Duarte, Diogo Fernandes, Diogo Infante, Diogo Mesquita, Jaime Pinto Gamboa, João Maria Cardoso, João Sá Nogueira, Nuno Represas, Rafael Leitão, Rui Pedro Silva e Virgílio Castelo
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com









