A Comissão Teológica Internacional (CTI) publicou no dia 2 de setembro, a propósito do Tempo da Criação que se iniciou ontem e se prolonga até dia 4 de outubro, uma extensa reflexão intitulada Cuidando de Nossa Casa Comum: Uma Resposta Responsável e Fraterna ao Deus Trinitário. Nela recolhe “dados muito alarmantes sobre a deterioração ecológica”, que obrigam a reconhecer que a atual “crise ambiental constitui um teste severo para a esperança cristã”.
É reafirmando a esperança cristã que o documento termina: “Esta esperança não é um otimismo superficial. É a convicção segura de que todas as coisas estão nas mãos de Deus. (…) É a esperança que não exime da responsabilidade pessoal, mas a recorda e a fortalece (..) e permite [aos cristãos] agirem com a firme confiança de que o Criador, que fez todas as coisas por meio de Cristo e ‘por meio dele quis reconciliar todas as coisas, as do céu e as da terra’ (Col 1,20; cf. 1,15-20), realizará o seu plano de libertação e salvação”. (nº 148)
Três são as “mutações culturais” que “alteraram significativamente a perceção da natureza e, com ela, a relação da humanidade com ela. Primeiro, a espontaneidade com que a natureza era considerada criada por Deus mudou. Segundo, a conceção do lugar do ser humano no cosmos mudou, presumindo que ele ou seus produtos tecnológicos ocupam o centro axial do mundo, eliminando Deus e o cosmos de seu devido lugar. Terceiro, o salto qualitativo na relação com o mundo natural, provocado pela tecnologia moderna (…) foi acompanhado por um impacto global anteriormente desconhecido no ambiente”.
Como fator-chave para perceber o que “causou a crise ecossocial”, o documento aponta a nossa “conceção do lugar do ser humano no cosmos” e cita a encíclica Laudato si’: “Não há ecologia sem uma antropologia adequada.” “O fulcro em torno do qual gira o debate é a estreita conexão entre o autoconhecimento, a nossa relação com os outros, com a natureza e com Deus – continua o texto da CTI – Essas são as relações essenciais que nos constituem e nos definem. Esse entendimento precede qualquer decisão ética e política explícita e orienta o nosso desejo e a medida da nossa própria satisfação.”
A reflexão proposta pelos teólogos da CTI e aprovado pelo Papa organiza-se em três capítulos. No primeiro, desenvolve do ponto de vista teológico, “uma visão trinitária da criação do cosmos, destacando a consequente marca trinitária na criação e as suas repercussões”. No segundo capítulo discute o fundamento e o âmbito do papel do ser humano na nossa casa comum e, “para além de apresentar a posição cristã”, abre o diálogo com relatórios ecológicos e com as posições de algumas filosofias ecológicas.
Finalmente, um conjunto de orientações e princípios orientadores para o cuidado da casa comum e a conversão ecológica preenchem o terceiro capítulo. Como a conversão ecológica é “uma tarefa que diz respeito a todos”, a CTI recorre “aos princípios teológicos, aos princípios éticos e à sabedoria das grandes tradições religiosas” para fundamentar essas orientações.
Poder ilimitado sobre a criação

‘Como a conversão ecológica é “uma tarefa que diz respeito a todos”, a CTI recorre “aos princípios teológicos, aos princípios éticos e à sabedoria das grandes tradições religiosas” para fundamentar essas orientações.’ Foto © Yuri Arcurs
Após enumerar alguns dos factos mais alarmantes da atual crise ecológica e social, os teólogos sublinham que “observando as ações humanas, as relações interpessoais e o clamor da terra” não podem deixar de “reconhecer a enorme influência que advém de ceder à tentação de considerar os seres humanos e seu desejo ilimitado de poder sobre a criação como a fonte última de todo critério na definição do bem e do mal”.
Mas essa distorção, “embora haja uma inegável responsabilidade pessoal em tudo isso, os danos infligidos ao meio ambiente transcendem em grande parte os níveis de responsabilidade individual, familiar e de pequenas comunidades”, envolvendo “os estilos de vida de comunidades maiores” e “as escolhas económicas e de desenvolvimento de atores com influência mais ampla” que “põem em risco a qualidade e a própria sobrevivência da vida humana no planeta, juntamente com a de outras espécies”.
Retomando os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja neste capítulo do respeito pela casa comum, o documento critica os dois “extremos inaceitáveis: o antropocentrismo predatório e o ecocentrismo”, ambos “claramente rejeitados pelos cristãos”. Seguindo a sua lógica imanente “o antropocentrismo predatório traz consigo uma dinâmica de violência e exploração, uma vez que não se rege pelo respeito ao outro (a natureza), nem aos outros (o nosso próximo), nem ao Outro (Deus Criador).(…) Vidas são saqueadas e sacrificadas, e com elas o futuro de muitas outras vidas, partindo da satisfação indiscriminada do próprio egoísmo autocentrado”.
O ecocentrismo, “desenvolvido a partir da justa rejeição do antropocentrismo predatório”, chega ao ponto de não reconhecer “ao ser humano” qualquer “status privilegiado”, reduzindo-o a “parte de uma rede de relações vitais que devem ser absolutamente respeitadas e preservadas”. “A negação da singularidade do ser humano, típica desses pontos de vista, leva a conclusões impossíveis de serem aceites pela fé cristã: considerar a morte de grandes massas de pessoas como algo bom para o bem-estar de outras criaturas.” E, ao mesmo tempo, acaba por considerar “a interferência humana no mundo natural sempre prejudicial e nega a legitimidade de qualquer uso motivado e regulamentado de criaturas não humanas ao serviço dos seres humanos”.
No entendimento cristão, não é correto, sublinham os teólogos, “suprimir a diferença de identidade e de valor entre a pessoa humana, interlocutora direta de Deus, e os outros seres vivos” e por isso, “a Igreja está determinada a assegurar que a questão ambiental seja abordada de forma abrangente e adequada, respeitando a ‘gramática’ que o Criador inscreveu na sua obra, conferindo aos seres humanos o papel de administrador e guardião responsável da criação, um papel de que não devem abusar, mas do qual também não podem abdicar”.
Ao longo do documento três destaques ganham particular relevo. Primeiro, “a urgência de uma mudança radical promovida por uma verdadeira conversão ecológica”, mudança devida “à grave deterioração do meio ambiente (…) que agora nos coloca perigosamente perto de um ponto de rutura e de um ponto sem retorno”.
O segundo destaque é conferido à “dimensão teológica” da “crise ecológica e social que a humanidade enfrenta hoje”. E, por último a presença constante “do diálogo com outros organismos e com as contribuições da espiritualidade e da teologia das Igrejas Católicas Orientais”, em particular da “teologia das Igrejas Ortodoxas, bem como a análises provenientes de diferentes cosmovisões”.










