Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização (1726) e o primeiro centenário da proclamação do místico espanhol como Doutor da Igreja Católica (1926). O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe um conjunto de textos do padre e teólogo Armindo Vaz, carmelita.
A aprovação oficial das primeiras edições das obras de Frei João da Cruz, emitida pela Faculdade de Teologia da Universidade de Alcalá de Henares (um dos centros mais activos do renascimento bíblico), fala da subtileza e da competência com que ele espraia os temas e as citações da Sagrada Escritura. De facto, inspira-se constantemente nela para ilustrar a própria experiência de Deus com exemplos escolhidos muito a propósito. A Escritura é o suporte em que assenta a sua espiritualidade. É a partir dela que, com modulações bíblicas, ele conta e canta, autobiograficamente, as vivências da alma enamorada.
Um sacerdote que o conhecia testemunha: «Nunca o vi ler outro livro fora da Bíblia (que sabia quase de cor) e do Contra Haereses de Santo Agostinho e do Flos Sanctorum; e quando pregava alguma vez, que foram poucas, ou quando fazia palestras, que era frequentemente, nunca lia outro livro senão a Bíblia.» Noutro depoimento dizia o mesmo sacerdote: «Embora sendo homem culto, não havia na sua cela mais livros do que uma Bíblia, onde dizia que encontrava o que era necessário; e, se precisava de ver algum outro livro, tomava-o da livraria comum e devolvia-o logo a ela.» Tinha o dom de bem explicar o ‘livro de Deus’, tirando dele alimento para si e para os seus irmãos.
Quando em 1585 veio a Lisboa participar no Capítulo Provincial para eleição de novos superiores da Reforma, enquanto nas horas livres os padres capitulares aproveitavam para ir ver a célebre religiosa visionária, «a freira das chagas», Maria da Visitação – que suscitava a admiração de meia Europa com a sua fama milagreira e com os seus estigmas –, o padre João da Cruz ia sozinho com a Bíblia na mão para junto do mar.
Unia o seu ser místico sem precedentes aos antecedentes que encontrava na palavra de Deus. Chegou a uma fase da vida em que os livros com que tinha vivido estorvavam a comunicação da sua profundidade humana e espiritual. Encontrou na Bíblia o contexto e o horizonte em que podia exprimir a sua visão do ser humano e do mistério de Deus.
Armindo Vaz é frade da Ordem dos Carmelitas Descalços, biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de «história de Adão e Eva»: O Sentido último da vida projectado nas origens (Edições Carmelo) e Criação Divina sem pecado humano (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado no Boletim de Espiritualidade dos Carmelitas e é aqui reproduzido por acordo do seu autor e dos responsáveis do Boletim.










