“Não é possível encontrar nos evangelhos “ipsissima verba”, os ditos de Jesus, nem narrativas absolutamente fidedignas dos factos protagonizados por Jesus, o que não nos impede de aceder ao fundamental do que Jesus pretendia revelar-nos. Nem tudo nos evangelhos é, objetivamente, verosímil e plausível, porque a produção dos textos era condicionada pelos constrangimentos culturais das comunidades. Mas tudo neles tem um significado. É o significado que deve procurar-se.” Este é um dos excertos da obra Desafio aos Cristãos e a Outras Gentes, em que José Veiga Torres nos convida a refletir sobre a importância de escutar o outro e de construir relações baseadas no respeito, na solidariedade e no diálogo.
Esta perspectiva está profundamente ligada à sinodalidade, que implica caminhar em conjunto, acolher diferentes opiniões e procurar, com humildade, respostas para os desafios da sociedade. Ouvir verdadeiramente exige mais do que permanecer em silêncio: pressupõe atenção, abertura e disponibilidade para compreender a experiência do outro. Numa comunidade sinodal, cada pessoa deve sentir que a sua voz é acolhida e valorizada, pois o diálogo sincero permite superar preconceitos, reconhecer caminhos comuns e tomar decisões mais justas e responsáveis. Esta atitude de escuta transforma as relações e favorece uma participação mais ativa de todos. Ao caminharmos juntos, aprendemos a respeitar as diferenças e a procurar o bem comum com espírito de serviço, humildade e esperança. Escutar os outros é, por isso, uma forma concreta de reconhecer a dignidade de cada pessoa e de fortalecer os laços comunitários. Quando há espaço para o diálogo, também os conflitos podem ser enfrentados com maior serenidade, procurando não apenas defender posições individuais, mas compreender as razões, as necessidades e as esperanças de todos. A sinodalidade convida-nos, assim, a substituir a indiferença pela proximidade e o julgamento apressado pela atenção. Só através de uma escuta paciente e responsável será possível construir uma Igreja e uma sociedade mais participativas, onde cada voz contribua para discernir caminhos de justiça, fraternidade e paz.

No seu livro José Veiga Torres, que foi professor da Universidade de Coimbra, percorre toda a história das comunidades primitivas e de cada um dos papas e refere que: “Se os cristãos das comunidades originárias não necessitavam de sacerdotes, nem de hierarquias de poder impositivo, nem de especulações teológicas, nem de códigos, nem de jurisdições, nem de burocracias, nem de insígnias, e convertiam o mundo, deixando nele um lastro de verdadeiro ideal de fraternidade transcendental, nenhuma razão, por testemunho evangélico, nem por tradição genuína, poderia ter pervertido aquela ordem original. Só razões da “ordem” do poder de dominação sobre os fiéis, os relegaram para um estatuto de inferioridade e de submissão”.
Diriam alguns que é uma visão distorcida da Igreja e dos seus ensinamentos, diria, porém, que em tempos sinodais, como foram em tempos as comunidades cristãs, se torna um livro obrigatório para quem quer ter uma fé sólida. As questões de evangelização e missão para quem sente a necessidade de uma transformação da Igreja no Espírito de Jesus, surge, aqui, uma esperança renovada e que é no diálogo fecundo com estas “visões” que se enquadra a sinodalidade, e se não o for me parece ter pouco de inovador para os tempos que vivemos. Afinal é um copiar das comunidades primitivas e do seu ser sinodal.
Aliás, o título do livro se refere “aos cristãos e a outras gentes” como ser ecuménico, base de toda a sinodalidade. É que se não encontramos o caminho para as “outras gentes”, estaremos parados, porque nelas também reside o Espírito Santo, mais tantas vezes do que “nos cristãos”.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.
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