Não foi Leão XIV quem pronunciou a frase, mas foi ele quem a escreveu: “Por mais ferida que uma família possa estar, pode sempre crescer a partir do amor.” As palavras faziam parte da homilia preparada pelo Papa para a missa de encerramento do encontro internacional sobre os dez anos da Amoris laetitia, esta quarta-feira, 14, no Vaticano, mas acabaram por ser lidas pelo cardeal Luis Antonio Tagle.
Internado desde terça-feira no Hospital Gemelli, em Roma, onde foi submetido a uma cirurgia para remoção de um adenocarcinoma pulmonar, Leão XIV não pôde presidir à celebração e foi substituído pelo recém nomeado decano do Colégio Cardinalício. Na mensagem que deixou aos participantes, apontou, porém, uma direção clara para a pastoral familiar: uma Igreja capaz de acompanhar as famílias nas diferentes etapas da vida e de acolher também aquelas que atravessam situações de fragilidade ou crise.
O Papa pediu que a Igreja seja cada vez mais uma “família de famílias”, capaz de apoiar os jovens casados, acompanhar os pais na educação dos filhos, valorizar os idosos e fazer com que aqueles que vivem momentos difíceis se sintam “rodeados de afeto e protegidos de julgamentos e preconceitos”.
Leão XIV insistiu igualmente na necessidade de preparar os jovens para o matrimónio através de uma educação para o amor que não se limite aos cursos imediatamente anteriores ao casamento. Retomando palavras de Francisco na Amoris laetitia, recordou que “aprender a amar alguém não é algo que se improvisa” e que a preparação para o matrimónio começa, na realidade, desde o nascimento.

O cardeal Tagle lê a homilia escrita pelo Papa Leão XIV. Foto © Vatican Media
“O mundo não tem futuro sem famílias sólidas, abertas ao dom dos filhos, atentas à sua educação e crescimento”, escreveu ainda o Papa, que apelou também à recuperação da oração em família e da participação na missa dominical.
Escutar antes de falar
A homilia encerrou uma semana de trabalhos que reuniu no Vaticano chefes das Igrejas católicas orientais, presidentes de conferências episcopais, casais e especialistas, numa metodologia marcada pela escuta, diálogo, oração e partilha de experiências pastorais [ver 7MARGENS].
Entre os desafios colocados em cima da mesa estiveram as migrações e a consequente separação de famílias, o impacto das tecnologias digitais nas relações, o acompanhamento das vítimas de abusos, a formação dos padres e o apoio aos casais depois do casamento.
Um dos temas que atravessou os trabalhos foi precisamente a distância entre a proposta cristã do matrimónio e a experiência de muitos jovens. O cardeal Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, reconheceu que o número de casamentos, civis e religiosos, está a diminuir em todo o mundo, apontando, entre outros fatores, os divórcios, a diversidade das formas de vida em casal e as tendências culturais contemporâneas.
Perante esta realidade, algumas das intervenções defenderam que a Igreja deve começar por escutar. O bispo auxiliar de Bombaim, Dominic Savio Fernandes, afirmou que, antes de falar de forma convincente aos jovens, a Igreja precisa de os ouvir, enquanto o arcebispo de Perth, Timothy Costelloe, defendeu a necessidade de apresentar a intimidade conjugal cristã como “um ideal pelo qual vale a pena lutar”.
A questão dos jovens que vivem juntos sem serem casados esteve também presente. Fernandes defendeu que estas situações não devem ser tratadas de forma indiferenciada: é necessário conhecer a história de cada casal, perceber as razões que levaram à coabitação e reconhecer aquilo que já possa existir de generosidade, fidelidade e responsabilidade, acompanhando depois cada situação num processo de discernimento.
Não abandonar os casais depois do casamento

Um momento do encontro dedicado à “Amoris Laetitia”, na Sala Paulo VI. Foto © Vatican Media
Outro dos desafios identificados foi o acompanhamento nos primeiros anos de vida matrimonial. O cardeal José Cobo Cano, arcebispo de Madrid, defendeu uma “pastoral da continuidade”, capaz de ultrapassar um modelo em que a atenção das comunidades se concentra na preparação para o casamento e diminui depois da celebração.
Os primeiros anos são considerados particularmente decisivos, não apenas porque os esposos continuam a conhecer-se e a construir um projeto comum, mas também pelas mudanças que podem acompanhar o nascimento dos filhos e pelas dificuldades que surgem na organização da vida familiar. O encontro procurou, por isso, perceber o que os jovens casais esperam das comunidades cristãs e de que forma podem ser simultaneamente acompanhados e assumir um papel ativo na missão da Igreja.
A diversidade de experiências apresentadas, da Índia à Austrália, mostrou também que a aplicação da Amoris laetitia não pode ignorar contextos culturais, sociais e religiosos muito diferentes. A escuta das Igrejas locais foi, aliás, uma das marcas do encontro convocado por Leão XIV dez anos depois da publicação da exortação de Francisco.
Papa quer pronunciar-se sobre conclusões

O Papa Leao XIV na abertura do encontro. Foto © Vatican Media
O encontro deveria terminar com a apresentação e posterior publicação de um relatório de síntese dos trabalhos. A hospitalização de Leão XIV alterou, contudo, o programa previsto.
Segundo explicou o jesuíta Giacomo Costa, consultor da Secretaria-Geral do Sínodo e responsável pela metodologia do encontro, o Papa pediu que o relatório não seja publicado para já. Leão XIV pretende recebê-lo, analisar os materiais depois de sair do hospital e pronunciar-se pessoalmente sobre as conclusões.
A decisão deixa assim em aberto uma última etapa deste balanço dos dez anos da Amoris laetitia. O encontro terminou, mas a palavra final de Leão XIV sobre os caminhos que dele emergiram deverá chegar mais tarde.
Na homilia preparada para esta quarta-feira, porém, o Papa deixou já uma indicação sobre a direção que pretende imprimir à pastoral familiar: uma Igreja onde os casais e famílias encontrem apoio ao longo das diferentes etapas da vida e onde também aqueles que estão feridos ou atravessam crises possam encontrar acolhimento e motivação para continuar a caminhar.










