Os trágicos acontecimentos que se sucederam a sete de outubro de 2023, que muitas instituições internacionais credíveis não temem chamar genocídio, provocaram em mim uma urgente necessidade de me informar melhor acerca do conflito israelo-palestiniano e das suas causas profundas. O que vim a descobrir alterou significativamente a minha posição face a este conflito.
Se até essa altura nunca tinha posto em causa o direito de Israel à existência, a partir do momento em que entendi as causas cimeiras do conflito, já não tenho dúvida de que a existência de um Estado com as características de Israel naquele território foi um erro colossal das potências vencedoras da II Guerra Mundial. Antes de mais, é fundamental perguntarmo-nos como foi possível conduzir um tão delicado processo sem terem sido equacionadas as mais do que previsíveis consequências. Também não deixa de ser legítimo suspeitar que tenham sido previstas, sem que esses efeitos fossem suficientemente determinantes para impedirem as potências globais de decidirem sobre a vida e a segurança de outros povos (refiro-me ao povo palestiniano que ali habitava) sem que eles fossem tidos nem achados no processo.

Cripta das ruínas da igreja de São Jorge (Al-Khader), do século V, marcada pelo fogo ateado durante as incursões de colonos e denunciadas pelos Patriarcas e Chefes das Igrejas de Jerusalém. Foto © Fabian Figueiredo
A decisão da criação de um Estado judaico, ou seja, de um estado étnico – coisa já de si reprovável, uma vez que um Estado estritamente étnico está em flagrante contradição com o princípio democrático da igualdade entre todos os cidadãos independentemente da sua origem étnica -, num território milenarmente ocupado por outro povo, foi uma catástrofe absoluta. Estavam finalmente criadas as condições para que o projeto sionista, claramente racista e colonial, se pudesse concretizar com o apoio das potências ocidentais. Foi o que sucedeu desde o momento em que se observou, com o beneplácito das potências europeias, o êxodo massivo de populações europeias (judeus que habitavam os países europeus há séculos) para o minúsculo território da Palestina e a consequente expulsão violenta dos povos autóctones das suas casas, das suas cidades, dos seus campos, de modo a satisfazer a ganância colonialista dos estrangeiros recém-chegados. O projeto sionista é, sem dúvida alguma, um projeto colonial e, como todos os projetos coloniais, está carregado de violência, supremacismo racista e ódio. Os recém-chegados, ao reivindicarem para si um território que não é seu, declaram-se legítimos sucessores de um povo que ali habitara há milénios e dali havia sido expulso há dois mil anos. Na verdade, do ponto de vista estritamente étnico, os atuais palestinianos são muito mais aparentados com os judeus do tempo de Jesus do que os colonos judeus que para lá emigraram.

Israel incentivou durante anos incursões de colonos israelitas violentos em terras internacionalmente reconhecidas como pertencentes à Palestina, expulsando, roubando, destruindo e matando sem dó nem piedade.” Foto: Cidades palestinianas na Cisjordânia foram alvo de forças israelitas (novembro de 2025). © UNRWA.
A história da violência sionista, prontamente subsidiada e apoiada pelos EUA e pela Europa, teve o seu início ainda antes de haver um Estado de Israel, quando para lá emigraram em massa os judeus europeus. E desde essa altura, a violência sobre o povo palestiniano não cessou de ocorrer. O objetivo era simplesmente substituir a população autóctone pelas vagas migratórias de judeus oriundos de várias latitudes. Tal substituição só podia ocorrer através de matanças planeadas e da expulsão dos sobreviventes do seu território. Como nenhum povo é facilmente convencido a abandonar o território que lhe pertence, só criando condições infernais à sua vida quotidiana será possível empurrá-los para países estrangeiros. Mesmo assim, nem todos quiseram emigrar. Os resistentes foram então enclausurados em zonas que os israelitas trataram de isolar do resto do mundo. Mesmo nas próprias terras, acantonado em guetos, o povo palestiniano vivia e vive em autênticas prisões a céu aberto. Mas Israel não se conformava com o facto de ainda haver territórios fora do âmbito estrito da sua soberania. Por isso, incentivou durante anos incursões de colonos israelitas violentos em terras internacionalmente reconhecidas como pertencentes à Palestina, expulsando, roubando, destruindo e matando sem dó nem piedade.
É, pois, assim tão descabido que, perante um avassalador poderio militar, alguns elementos de um povo sem condições materiais de defesa, abandonado pela comunidade internacional, passassem a usar todo o tipo de meios violentos para se defender? Não haja, porém, nenhum mal-entendido a respeito do que acabei de afirmar: não considero que se possa legitimar moralmente o terrorismo, mas é possível compreendê-lo à luz das causas que o produziram. Não haverá, por isso, paz no território israelo-palestiniano enquanto a violência colonial israelita, o pecado original que inflamou e inflama o território, não for travada.
Hoje afirmo o que antes nem me ocorria: Israel é uma criação colonialista do Ocidente, uma violência absoluta sobre o povo que ali habitava há séculos. Que direito tinham os judeus europeus de se apoderar de um território que nunca fora seu e de expulsar as legítimas populações autóctones?
A questão que se coloca hoje em dia é a de como resolver o imbróglio jurídico, político e humano que ali foi criado. A solução mais justa seria, sem dúvida, que o povo palestiniano pudesse regressar aos seus territórios e tomar conta do espaço que, por direito, lhe pertence. Mas uma tal situação provocaria a perpetuação do conflito e nunca seria aceite pelas grandes potências do mundo, para além de provocar um novo êxodo de consequências inimagináveis.

Foto: A Assembleia Geral adotou uma resolução em 2012 concedendo à Palestina o status de Estado observador não membro das Nações Unidas. UN © Rick | Nações Unidas
A segunda hipótese seria a criação de um único Estado (que poderia chamar-se israelo-palestiniano), sem limitações étnicas, no qual todos os seus habitantes, fosse qual fosse a etnia a que pertencessem, pudessem conviver. Não creio, porém, que uma tal solução pudesse resultar porque o ódio acumulado entre os dois povos torna-os atualmente irreconciliáveis. A única solução viável para já seria a existência de dois Estados separados e politicamente autónomos (solução perfilhada pela ONU). E é nesse sentido que a comunidade internacional deve pressionar Israel, retirando-lhe os meios militares de subjugação do povo palestiniano. No entanto, a situação política de Israel neste momento, dominada por uma classe política fascista, é totalmente desfavorável a uma tal solução, tendo em conta que o seu objetivo é repristinar o Grande Israel do tempo do rei David, engolindo territórios vizinhos e expulsando todos os que ainda resistem. Sem a liderança efetiva da comunidade internacional, Israel ditará o genocídio do povo palestiniano, enquanto o Ocidente vê, impávido e sereno, o esboroamento do direito internacional e dos mais elementares valores éticos em que diz acreditar.
Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.
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