Na tarde deste domingo, 12 de Abril, um colóquio assinala na Sinagoga de Roma os 40 anos da visita histórica do Papa João Paulo II ao Templo Maior, o nome daquele lugar de culto. Foi a primeira vez que um Papa visitou uma sinagoga. O gesto de João Paulo II, que foi recebido pelo rabi Elio Toaff, foi sinal de uma aproximação que tinha começado décadas antes, depois de séculos de intolerância, sobretudo da parte dos católicos.
Na iniciativa, intervêm Victor Fadlun, presidente da Comunidade Hebraica de Roma, Riccardo di Segni, rabi-chefe da Comunidade Hebraica de Roma, o historiador Alberto Melloni, docente de História do Cristianismo, e Marco Guerra, jornalista e redator do Vatican News. A propósito desta efeméride, reproduz-se a seguir um texto publicado no Público no dia 3 de Abril de 2005, na altura da morte do Papa polaco.

João Paulo II no Muro das Lamentações, em Jerusalém: um gesto para a história. Foto: Direitos reservados.
São dois minutos que mudam a história das relações entre católicos e judeus: no dia 26 de Março de 2000, o Papa João Paulo II aproxima-se do Muro das Lamentações, em Jerusalém, e coloca, numa das fendas, uma folha de papel, como fazem tantos judeus. Mas esta folha, ao contrário do que acontece com quase todas as que ali são colocadas, não será queimada, ficando guardada no museu. Nela está dactilografado, em inglês, e assinado por João Paulo II, um pedido de perdão especial: “Deus dos nossos pais, escolheste Abraão e os seus descendentes para nos revelar o teu nome às nações: estamos profundamente entristecidos pelo comportamento daqueles que no decurso da história levaram estes teus filhos ao sofrimento e, pedindo o teu perdão, queremos comprometer-nos numa genuína fraternidade com o povo da Aliança.”
A frase fora lida 15 dias antes, no Vaticano, durante a celebração que João Paulo II presidira, pedindo perdão pelos erros históricos da Igreja. Nessa ocasião, vários responsáveis de comunidades judaicas diziam que faltava ainda alguma coisa para que a reconciliação histórica fosse possível. Em Jerusalém, com a sua mão a tocar o Muro, João Paulo II consegue tocar os corações dos judeus. De tal modo que um ministro israelita diz que “o Papa não podia ter ido mais longe” e que, com aquele gesto, fez mais nos dias da visita a Jerusalém “do que todos os papas da Igreja Católica”. A fotografia que fica desse momento não seria possível 50 anos antes, mesmo 20 anos antes.
O judaísmo é um caso à parte no universo do diálogo inter-religioso que o Papa Wojtyla protagoniza. É João Paulo II quem muda, de facto, o modo de os católicos olharem para os judeus, os seus “irmãos mais velhos”, como ele diz. Certo que, desde João XXIII (1958-63), as relações já não eram frias. O “bom Papa João” consegue que a Igreja Católica deixe de falar no “povo deicida” e nos “pérfidos judeus” e recebe líderes judaicos e israelitas, com quem estabelece relações amistosas. No dia 3 de Junho de 1963, pouco tempo antes de morrer, o próprio João XXIII torna pública uma “oração de arrependimento”, em que pede perdão porque os católicos haviam pronunciado uma injusta maldição “contra o nome dos judeus”.
O judeu Jerzy, um dos melhores amigos de infância

Concílio Vaticano II: uma mudança de paradigma nas relações entre católicos e judeus. Foto © Lothar Wolleh (1930–1979), Wikimedia Commons.
O Concílio Vaticano II (1962-65), iniciado por João XXIII e concluído sob o pontificado de Paulo VI (1963-78), publica a declaração Nostra Aetate, onde se fala das religiões não-cristãs. Nesse texto, o judaísmo é referido de um modo especial, como património do cristianismo e faz-se uma condenação do anti-semitismo: “A Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da sua fé e eleição já se encontram (…) nos patriarcas, Moisés e nos profetas. (…) Sendo assim tão grande o património espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima. (…) A Igreja, que reprova quaisquer perseguições contra quaisquer homens, lembrada do seu comum património com os judeus, e levada não por razões políticas mas pela religiosa caridade evangélica, deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de anti-semitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus.”
A experiência da infância e da juventude do polaco Karol Wojtyla é determinante para se chegar ao 26 de Março de 2000, em Jerusalém. Na sua terra natal, um quarto dos companheiros de escola do futuro Papa são judeus, como o próprio recorda no livro Ultrapassar o Limiar da Esperança. Um deles, Jerzy Kluger, filho do responsável da comunidade judaica local, é um dos seus melhores amigos. “Tenho viva diante dos olhos a imagem dos hebreus que todos os sábados se dirigiam à sinagoga, situada por trás da nossa escola”, recorda Wojtyla naquele livro. “Ambos os grupos religiosos, católicos e hebreus, estavam unidos, suponho, pela consciência de invocar o mesmo Deus. Não obstante a diversidade da linguagem, as orações na igreja e na sinagoga baseavam-se, em considerável medida, nos mesmos textos.”
Com a guerra e o Holocausto, Karol Wojtyla, educado pelos pais e pelos professores num clima de tolerância, vive uma experiência que, confessa, guarda consigo até ao fim. Auschwitz, diz ainda, na obra citada, “não cessa de constituir uma advertência, ainda nos nossos dias, recordando que o anti-semitismo é um grande pecado contra a humanidade”. O Holocausto, a sua experiência pessoal e a declaração Nostra Aetate tornam-se, assim, o quadro de referência para a actuação do futuro Papa em relação ao judaísmo.
Não é de estranhar que, antes ainda do histórico encontro de Assis, em Outubro de 1986 — quando líderes de todas as religiões são convidados por João Paulo II para rezar pela paz –, o próprio Wojtyla visite a Sinagoga de Roma. É a primeira vez na história que um Papa visita uma sinagoga. O discurso que então pronuncia é uma peça-chave no desenvolvimento do diálogo judaico-cristão. O judaísmo, diz, não é “extrínseco” mas “intrínseco” ao cristianismo: “Vós sois os nossos irmãos preferidos e, de uma certa maneira, poderíamos dizer os nossos irmãos mais velhos”, afirma, citando o poeta polaco Adam Mickiewicz e dirigindo-se aos judeus que o escutam. Manifestando o seu “horror pelo genocídio decretado no curso da última guerra [mundial] contra o povo judeu, que levou ao Holocausto milhões de vítimas inocentes”, o Papa condena ainda, na linha da declaração Nostra Aetate, “os ódios, as perseguições e todas as manifestações de anti-semitismo, quaisquer que sejam as épocas e os autores”. E acrescenta: “Repito: quaisquer que sejam as épocas e os autores.”
As polémicas com os judeus

Sinagoga de Roma: o Papa condenou o anti-semitismo, “quaisquer que sejam as épocas e os autores.” Foto © António Marujo
Apesar da vontade do Papa, o caminho de reconciliação com o judaísmo não se faz sem polémicas. E tem um processo paralelo nas conversações entre o Vaticano e Israel para estabelecer relações diplomáticas.
Quando chega ao ano 2000, João Paulo II entende que a entrada no terceiro milénio cristão não será digna se a reconciliação histórica não estiver feita. A 12 de Março, com a celebração no Vaticano, no fim do mês em Jerusalém, o Papa concretiza aquela que é uma das suas vontades profundas. No Yad Vashem, o Memorial do Holocausto, no dia 23, numa cerimónia intensa e comovente, João Paulo II condena as “manifestações de anti-semitismo dirigidas contra os judeus pelos cristãos em todos os tempos e em todos os lugares”. Três dias depois, no Muro das Lamentações, deposita o texto que usara na celebração de dia 12. Um rabi judeu dirá depois que o Muro das Lamentações também tocara o Papa.
Nem tudo é fácil na relação com os judeus, mesmo durante o pontificado de João Paulo II, apesar da vontade deste Papa em apaziguar 20 séculos de violências. Quando, em 1984, o Papa visita a Sinagoga de Roma, condena no seu discurso as perseguições e as manifestações de anti-semitismo, “quaisquer que sejam as épocas e os autores”, acrescentando: “Repito: quaisquer que sejam as épocas e os autores.”
Esta repetição é entendida como uma alusão ao comportamento do Papa Pio XII e das acusações que contra este são dirigidas, de silêncio conivente com o nazismo e o Holocausto. Mas na mesma frase está mais um dos paradoxos deste Papa poliédrico. João Paulo II condena em muitas ocasiões, e com severidade, o nazismo e o Holocausto, mas não recusa a herança da instituição que dirige. Tão-pouco quer ser ele a condenar os seus antecessores. Por isso, durante vários anos, o Vaticano nega a historiadores o acesso a parte da documentação do tempo da Segunda Guerra Mundial, uma atitude que é vista como uma tentativa de encobrimento das atitudes de Pio XII. Surgem leituras diferenciadas da documentação existente mas, em Fevereiro de 2002, o Vaticano anuncia a abertura da documentação de 1922 a 1939, a partir do início de 2003.
Os escolhos neste caminho para a reconciliação católico-judaica não se ficam por aqui: a proposta da beatificação da rainha Isabel, “a Católica”, responsável pela criação da Inquisição em Castela (em 1478) e pela expulsão dos judeus do seu território (em 1492) é muito mal acolhida nos meios judaicos. O processo só pára com muitas pressões, incluindo de bispos e cardeais – como o arcebispo de Paris, Jean-Marie Lustiger, ele próprio de ascendência judaica.
Uma outra beatificação, essa sim concretizada, também não é aceite pacificamente por todos os responsáveis judaicos: Edith Stein, uma alemã de origem judia, que se torna católica e professa como freira carmelita, é presa em 1942 num convento onde se refugiara e acaba por morrer em Auschwitz. Vista pelo Papa como uma mártir, com obras de uma mística e de uma espiritualidade intensas, a carmelita Edith Stein é beatificada em 1987, em Colónia, e canonizada em Roma, em 1998. Mas muitos judeus, acusando o Vaticano e o próprio João Paulo II de quererem como que cristianizar o Holocausto, dizem que ela morre simplesmente por ser judia.
Um documento tardio e decepcionante

O campo de extermínio de Auschwitz, em 2010: a presença de uma comunidade de freiras católicas foi, durante alguns anos, pedra no sapato nas relações entre católicos e judeus. Foto © António José Paulino.
Mais grave é o que se passa a partir de 1985, quando um grupo de freiras carmelitas polacas se instala num edifício junto do campo de Auschwitz, com o objectivo de ali criar um lugar de oração. Os judeus manifestam-se contra a ideia, preferem que o lugar se mantenha silencioso. Um grupo misto que entretanto é criado ainda propõe a criação de um centro inter-religioso mas, depois, são as carmelitas e os bispos locais que não acham bem a ideia.
O caso só termina com a intervenção do Papa, que diz às freiras para sair. E é por causa desse episódio que, em 1987, João Paulo II anuncia a intenção de colocar a Igreja Católica a reflectir sobre o Holocausto. Em 1993, nos 50 anos da insurreição do gueto de Varsóvia, João Paulo II diz que “os dias da ‘Shoah’ foram uma verdadeira noite na História, nela inscrevendo crimes inauditos contra Deus e contra o homem”. O Papa insiste na ideia de que o Holocausto é a negação de Deus, os judeus preferem falar do silêncio de Deus.
O documento prometido em 1987 tarda em sair. O próprio João Paulo II tem de vencer resistências da Cúria para conseguir levar por diante o seu desejo de chegar ao ano 2000 e pedir perdão pelos pecados históricos da Igreja e reconciliar-se com o judaísmo. Ao encerrar o Sínodo dos Bispos de 1991, sobre a Europa, o Papa volta a pedir perdão pela passividade dos cristãos perante o Holocausto.
Em 1998, o Vaticano publica finalmente a declaração Nós Recordamos: Uma Reflexão Sobre a ‘Shoah’. No texto, fala-se da “indizível tragédia” do Holocausto como “obra de um regime neopagão moderno”. Procura-se distinguir o anti-semitismo, com “raízes fora do cristianismo”, e o antijudaísmo, sentimento “antigo de desconfiança e de hostilidade”, do qual os cristãos também são “culpados” e pelo qual a Igreja deveria pedir perdão. E defende-se a actuação de Pio XII, que “pessoalmente, ou por intermédio de representantes seus”, teria ajudado a salvar “centenas de milhares de vidas de judeus”, facto reconhecido, diz o texto, por Leo Kubowitzki, secretário-geral do Congresso Mundial Judaico, em 1945, e Golda Meir, futura primeira-ministra de Israel, em 1958.
Nos meios judaicos, o texto da Comissão Pontifícia para as Relações com os Judeus é recebido com alguma decepção e considerado tardio. E só mesmo os gestos de João Paulo II, dois anos depois, atenuarão o clima de conflito histórico.
A reconciliação política com Israel

A menorá e as tábuas da lei esculpidas na Sinagoga de Roma. Foto © Livioandronico2013, via Wikimedia Commons.
Ao mesmo tempo que desenvolve a reflexão religiosa e teológica sobre as relações entre cristianismo e judaísmo, o Papa coloca as estruturas diplomáticas do Vaticano a negociar a normalização das relações com o Estado de Israel. As negociações iniciam-se em 1991. No ano seguinte, cria-se uma comissão conjunta e, em Dezembro de 1993, chega-se a um acordo entre os dois estados. O estabelecimento de relações diplomáticas dá-se em 29 de Junho de 1994, sendo assinado cinco anos depois um acordo fundamental, garantindo o acordo a liberdade de consciência e religião em Israel, o exercício de actividades religiosas e educativas por parte da Igreja Católica e das suas instituições, bem como a propriedade de edifícios.
O Vaticano, que insiste num estatuto internacional para a cidade de Jerusalém, pressiona para que haja livre acesso a todos os lugares de culto e também manifesta reservas em relação ao que considera a “judaização” de Jerusalém. Mas o acordo funciona e é já à sua sombra que se realiza a viagem do Papa, em Março de 2000.
Para que não haja melindres, o processo é acompanhado de idênticas negociações com a Autoridade Palestiniana – mais fáceis, em alguns aspectos, tendo em conta a comunidade cristã que existe entre os súbditos de Yasser Arafat. O próprio Arafat é recebido várias vezes por João Paulo II e o Vaticano formaliza essas relações, há muito existentes com os palestinianos, em 1994. E à nomeação de um embaixador de Israel junto da Santa Sé corresponde também a nomeação de um representante da Autoridade Palestiniana. O paralelismo com Israel repete-se, com a assinatura de um acordo mútuo entre a Palestina e o Vaticano.
Surgem igualmente, no entanto, problemas com os palestinianos islâmicos: o projecto de construção de uma mesquita mesmo ao lado da Basílica da Anunciação, em Nazaré, permitido pelo Governo de Israel, não é bem visto pelo Vaticano. Após meses de tensão, quando João Paulo II vai a Nazaré, os ânimos estão já mais calmos e, mais tarde, o projecto acaba por ser suspenso e finalmente abandonado na Primavera de 2003.
Os processos paralelos do Vaticano com Israel e os palestinianos traduzem não apenas a preocupação pela equidistância ou pela garantia do mínimo de condições de vida para os cristãos a viver em Israel e nos territórios, mas sobretudo um profundo desejo de ver a região pacificada. Uma atitude que se traduz em inúmeras iniciativas diplomáticas quando tudo parece bloqueado (cartas, mensagens, discursos aos embaixadores, orações pela paz) e que tem o seu culminar na viagem à Terra Santa quando, por diversas vezes, João Paulo II interpela os dois lados (e também os cristãos) a construir um futuro mais pacífico.










